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5. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

5.7 Como aumentar a renda do caboclo produtor de leite

5.7.2 O Modelo proposto neste trabalho

O propósito deste estudo é o de levar o caboclo e sua família da situação retratada na Figura 1 à esquerda (“situação presente”), onde se percebe um cenário inóspito com a terra nua, de desolação e inexistência de uma infraestrutura produtiva, para a situação retratada na Figura 1 à direita (“situação futura”) onde se vê vida, um pasto formado e uma infraestrutura produtiva.

Figura 1. O propósito deste estudo retratado em imagens: levar o caboclo da situação de

Dois são os vetores que estruturam essa proposta:

• Levar os produtores familiares de subsistência, moradores de Camanducaia à condição de agricultor-camponês, em um projeto de visão integrada que considere as relações “mercado - solução produtiva - homem - melhoria na qualidade de vida” para que ele se motive a se inserir na economia ao obter acesso a tecnologias adequadas e acessíveis à sua realidade econômica, social e de erudição.

• Modo de abordagem ao produtor caboclo, que se baseia em duas perspectivas:

o A da motivação do produtor para querer implantar algo novo em sua propriedade e assim melhorar sua condição de vida e,

o A da garantia de que terá o apoio técnico gerencial necessário para que, trabalhando com afinco, as modificações realizadas em sua propriedade lhe tragam a esperada melhoria da condição de vida de forma não assistencialista. É essencial frisar que durante a visita feita à Earth University, na Costa Rica, que dispõe de pessoal treinado e acostumado a levar inovações a produtores de subsistência, foi mencionada a existência de um fenômeno (frequente): a “resistência do caboclo para aceitar o novo”. ZOCCAL (2005) também menciona esse traço comportamental nos resultados de sua pesquisa para na Região da Mata (MG).

Em Camanducaia, esse fenômeno também ocorreu. Foi observada uma enorme discrepância entre o número de produtores motivados a conhecer a solução de infraestrutura funcionando, no momento do convite, em relação ao pequeno número de produtores que foram conhecer e o número que se interessou em avaliar as soluções em seu estabelecimento. Efetivamente, apenas um produtor adotou uma das soluções em sua propriedade.

Esse comportamento diante de uma inovação foi profundamente estudado sob a rubrica “ciclo de vida para a adoção de tecnologias em Processos de Transferência de Tecnologia” na década de 80, pois atuava como um inibidor na comercialização de novas tecnologias.

X - 2δδδδ X - δδδδ X X + δδδδ Tempo de Adoção das Inovações Número de Adotantes 2,5% Inovadores 13,5% Adotantes Imediatos 34% Maioria Imediata 34% Maioria Tardia 16% Atrasados

Figura 2. Curva do ciclo de vida em processos de transferência de tecnologia. A curva que representa o ciclo de vida, nesses processos, é dividida conforme a atitude do

(potencial) recebedor para com a inovação:

Inovadores: pessoas entusiastas por inovações;

Adotantes imediatos: pessoas que a adotam inovação imediatamente;

Maioria Imediata: pessoas que aguardam a maturação da tecnologia/marca para então

aderir;

Maioria tardia: pessoas que apenas seguem as tendências, e Tardias: pessoas que, simplesmente, não a adotam.

Geoffrey Moore, (MOORE, 1991) identificou a existência de uma descontinuidade (abismo) na curva do ciclo de vida (Figura 2) que ocorre entre seus segundos e o terceiros momentos, isto é, entre os atores visionários (ou de “adoção imediata”) e os pragmáticos (ou da “maioria imediata”). Sua conclusão foi que, para mitigar esse hiato (que leva a inovação a não ser adotada pela maioria), o cedente da tecnologia deve concentrar esforços em apresentar “o que a inovação se propõe a resolver” ao invés de em “como é construída” (MOORE, 1991). A qualidade do processo de absorção de tecnologia ao produtor ocorre como consequencia de uma dinâmica de questionamentos:

“Quem não sabe pergunta para quem sabe que, por sua vez, responde o que foi perguntado” (LONGO apud OZOLINS, 1981) e consequentemente;

“Depende da competência do receptor para saber sobre o que perguntar e para entender o que lhe for respondido” (OZOLINS, 1981).

Por essas razões este estudo sugere que o formato de abordagem ao produtor deva incluir:

• A demonstração dos benefícios trazidos pela oportunidade em uma propriedade local;

• Sua disponibilidade à visitação para possibilitar ao produtor a possibilidade de ver a solução em funcionamento na região de sua moradia;

• A garantia de que o produtor terá apoio técnico permanente até ver as soluções operacionalizadas em seu estabelecimento;

• O acompanhamento permanente e consistente para que o produtor desenvolva novos hábitos, aprenda a manejar e a resolver as questões do dia-a-dia, tendo a certeza de que o programa terá continuidade no tempo;

• Obtenção da “sensação de conforto” de ter feito uma boa opção.

Essa percepção de “sensação de conforto” para com a decisão tomada virá não só com os resultados, mas como consequência da credibilidade institucional do programa, materializado no envolvimento da comunidade, bem como das instituições de financiamento, de apoio e de extensão rural (públicas e ou privadas) em torno do projeto ou programa.

Curiosamente, esse tipo de abordagem vem sendo usado, pelo menos, desde 2005, pelo Prof. Dr. Artur Chinelato, idealizador do Projeto Balde Cheio da Embrapa Sudeste. CHINELATO, (2006) ensina que, nesse projeto, os mecanismos de transferência de conhecimentos necessariamente ocorrem de forma lúdica (em uma propriedade na região), de forma lenta, gradual e evolutiva; a assistência técnica e a extensão rural são permanentes até a fase de aperfeiçoamento contínuo, sob pena de o produtor, paulatinamente, esquecer-se do aprendizado e voltar às suas práticas antigas.

O projeto Balde Cheio cujo escopo é “tecnologia e processos para produzir leite em pequenas áreas com manejo intensivo de pasto, utilizando adubação e irrigação planejadas” tem um ciclo de implantação de cerca de quatro anos; já estava presente em mais de 2.500

propriedades em março de 2009 e em dezembro de 2009 superou o número de 4.000 estabelecimentos (a menor delas com 0,5 ha de área total) em 16 Estados brasileiros (CHINELATO, 2008).

É estruturado como um processo de transferência de tecnologia, em que o conhecimento envolve tecnologias (20%) e o domínio dos processos produtivos pelo recebedor é de 80%. CHINELATO, (2006) comenta ainda que:

• Primeiro, o produtor precisa gostar do que viu em atividade, pois se não gostar, não tem jeito: ele não terá força de vontade e paciência para esperar os resultados;

• Segundo, como cada produtor tem uma realidade, diferentes serão os caminhos para se chegar à solução comum; e ao tomar a decisão de participar no programa os produtores terão “direitos e deveres”;

• Terceiro, que seu ganho virá como consequência de seu trabalho e esforço, pois ele será o único responsável pelas escolhas.

Resumindo, qualquer que seja a solução dada para promover um aumento da receita líquida do produtor caboclo (aumento da produção de leite; comercialização de produtos de maior valor agregado; redução dos custos e despesas de produção e de moradia), a questão- chave é, como também defende o autor deste trabalho, oferecer alternativas que aumentem a renda total líquida do produtor rural familiar de subsistência.

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