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3 Fundamentação Teórica

3.1 Considerações iniciais

3.1.3 O modelo de t’Hart , Colier e Cohen (1990)

3.1.3.1 O modelo de Robert Ladd

Diferentemente de t‟Hart, Collier e Cohen (1990), a descrição entoacional de Robert Ladd (1996) está baseada na teoria de sequência tonal. Como o título do livro sugere -Intonational phonology – a ideia central da teoria é a de que a entoação e a variação melódica têm uma organização fonológica própria. Partindo desse pressuposto, os objetivos da sua obra são: primeiro, estabelecer uma hipótese de base teórica e empírica para o modelo métrico-autosegmental; segundo, demonstrar a viabilidade do uso dessa teoria, a partir da discussão das características da entoação, nos moldes da teoria métrica-autosegmental, também conhecida como AM; terceiro, fazer suas próprias considerações sobre a teoria métrica-autossegmental, tentando distinguir seu ponto de vista, principalmente, das ideias de Pierrehumbert (1980).20

Ladd insere-se, portanto, em um modelo de análise métrico-autosegmental. De acordo com Gussenhoven (2002), foi Ladd quem primeiramente rotulou o modelo. Dentro dessa abordagem, a interpretação dos tons vem de análises acústicas que podem também ter uma avaliação auditiva.

No modelo proposto por t‟Hart, Collier e Cohen (1990), a questão auditiva é considerada como essencial para a análise entoacional. Como vimos, esse modelo assume que certas variações melódicas são interpretadas pelos ouvintes como relevantes e que esses movimentos são caracterizados por comandos discretos nas cordas vocais, que podem ser recuperados como um número de eventos discretos, a partir dos contornos entoacionais. Para Ladd, esse modelo, no entanto, não é suficiente para uma descrição fonológica completa, já que se trata de um método muito abstrato. Para ele, uma descrição fonológica completa consiste em especificar como essas fórmulas são realizadas, ou seja, deve-se haver uma descrição dos elementos fonológicos juntamente com uma descrição dos parâmetros acústicos.

Sobre a teoria AM, Ladd (1996, p. 42) afirma,

[...] the AM theory adopts the phonological goal of being able to characterize contours adequately in terms of a string of categorically distinct elements, and the phonetic goal of providing a mapping from

phonological elements to continuous acoustic parameters.21

Segundo o autor, a teoria métrica-autossegmental recebe esse nome porque, do lado autossegmental, trata das propriedades fonéticas e fonológicas dos tons e da relação dos

20

Nesta dissertação, essa questão não será discutida.

21

A teoria AM adota o objetivo fonológico de ser capaz de caracterizar contornos adequadamente em termos de uma cadeia de elementos categoricamente distintos, e o objetivo fonético de proporcionar um mapeamento, a partir dos elementos fonológicos, para os parâmetros acústicos contínuos. [tradução nossa].

pitch accents22 com a cadeia segmental. Já do lado métrico, é uma teoria geral das relações sintagmáticas na fonologia. Segundo Prieto (sd, p. 6), é a informação “[...] about the association of tones with metrical constituents and the relative alignment of tones with the metrically prominent syllable”23

. Outra definição é a dada por Gussenhoven (2002, p. 271). Ele diz que

The model is autosegmental because it has separate tiers for segments (vowels and consonants) and tones (H,L). It is metrical because it assumes that the elements in these tiers are contained in a hierarquically organized set of phonological constituents […]24 De acordo com Ladd, a teoria AM entende a entoação a partir de quatro princípios gerais. O primeiro diz respeito à linearidade da estrutura tonal, que consiste na caracterização do contorno entoacional em uma sequência de eventos tonais, como os acentos melódicos associados às sílabas proeminentes da cadeia segmental e aos tons adicionais, associados a pontos específicos da cadeia segmental.

O segundo diz respeito à distinção entre o pitch accent e a tonicidade (stress). O pitch accent refere-se às pistas perceptuais concretas para o acento ou proeminência de determinadas sílabas ao longo do enunciado e está ligado à organização prosódica. A tonicidade está relacionada à proeminência melódica das palavras, que são determinadas por outros parâmetros, como duração e intensidade, além da frequência fundamental (F0). Entre outras coisas, a tonicidade, segundo o autor, deve ser entendida como pistas acústicas.

O terceiro, por sua vez, consiste na análise dos eventos entoacionais em níveis tonais, de modo que os pitch accents e os tons de fronteira (edge tones) são descritos por meio dos tons alto (H high) e baixo (L low), ou a partir da combinação desses tons. O pitch accent é considerado pelo autor como o evento fonológico mais importante em que um contorno melódico pode ser analisado. Por fim, o último princípio está ligado à tendência da F0 em um enunciado, como a declinação. De acordo com o linguista, esses são os princípios básicos para uma boa análise entoacional.

Aprimorando um pouco mais, os pitch accents, são definidos na teoria AM por uma regra local e estão relacionados à proeminência melódica da sílaba em um enunciado.

22

O pitch accent refere-se a um elemento entoacional saliente como, por exemplo, um pico na curva melódica. Nesse trabalho será mantido o termo inglês, já que se trata de um termo técnico de uma teoria específica.

23

“[...] sobre a associação dos tons com os constituintes métricos e o alinhamento relativo deles com a sílaba metricamente proeminente”. [tradução nossa].

24

O modelo é autosegmental porque tem as camadas separadas para os segmentos (vogais e consoantes) e tons (H, L). É métrico porque assume que os elementos dessas camadas estão contidos em um conjunto hierarquicamente organizado de constituintes fonológicos [...]. [tradução nossa].

Segundo Ladd, Bolinger (1958) foi o primeiro a propor o uso desse termo sendo, posteriormente, usado por Pierrehumbert (1980). No entanto, conforme o autor, o pitch accent não pode ser confundido com a tonicidade, já que o primeiro, segundo ele, é a base para os contornos melódicos e, o segundo, está separado da organização fonológica dos enunciados. Em outras palavras, a teoria AM considera que há em um enunciado um “stress pattern”, que envolve graus diferentes de percepção da proeminência, manifestado por meio de pistas fonéticas (stress). Juntamente com o “stress pattern” há um padrão entoacional (intonational pattern), formado por uma cadeia de picth accents e tons de fronteira. Os pitch accents estão alinhados com o texto a partir de relações de proeminência, o que foi denominado primeiramente por Liberman (1975) de “tune-text association”, para descrever o modo como os elementos fonológicos abstratos estão alinhados com as características segmentais do enunciado.

O alinhamento é uma propriedade fonética relativa ao tempo de eventos no contorno da F0 e dos eventos da cadeia segmental. Segundo Ladd (1996, p. 55), deve ser visto

[...] as the manifestation of an overarching structure in which elements of a tune are associated with elements of a text in ways that reflect the prominence relations in the text.25

De um modo geral, segundo Ladd, a teoria AM interpreta a frequência fundamental (F0) como uma sequência de eventos fonológicos discretos. Esses eventos são suficientes para descrever a F0 e são denominados de tonais, já que o tom é a unidade básica. Esses eventos são: 1) os acentos frasais (phrase accents), que se relacionam com a sílaba acentuada, e 2) os tons de fronteira (boundary tones), ligados às fronteiras dos constituintes prosódicos. Nos pitch accents, a sílaba acentuada é formalmente indicada pelas letras H ou L, e o acento frasal é indicado por H* ou L*. Em sua notação, o linguista também faz uso do símbolo de uma seta para cima ( ) do lado esquerdo do acento frasal, para indicar que se trata de uma sequência enfática, o foco do enunciado. Para os tons de fronteira, a indicação é feita pelo símbolo % (por exemplo, H%, L%).

Entre outras coisas, a obra apresentada traz uma discussão sobre a teoria autossegmental e métrica da Fonologia Entoacional, caracterizando e criticando algumas das metodologias que fizeram uso desse modelo, bem como a de Pierrehumbert (1980), bem como uma caracterização da visão universalista da entoação. A partir dessa visão, Ladd enfatiza algumas questões como, a) a tendência à declinação; b) a questão do tom alto com

25

“[...] como a manifestação de uma estrutura global em que os elementos de um tom estão associados com os elementos de um texto de modo a refletir as relações de proeminência no texto”. [tradução nossa].

enunciados interrogativos e não finais; c) a presença dos movimentos locais dos pitch accents em palavras novas ou informativas. Outro aspecto levado em consideração por Ladd é a questão melódica da entoação, mostrando que as línguas divergem sistematicamente em seus padrões entoacionais26.

Tendo em vista o artigo “The structure of intonational meaning: evidence from English”, escrito por Ladd em 1980, t‟Hart, Collier e Cohen (1990), criticam o modelo descritivo proposto pela teoria AM. Para eles, a redução da variação melódica perceptualmente distintiva em apenas duas unidades abstratas (H e L) prejudica a identificação dos padrões entoacionais, uma vez que contornos entoacionais distintos, derivados da mesma invariável (H ou L), podem ser apenas variantes de um ou de outro “[...] and so must be the contours that are composed of them”.27 (t‟HART, COLLIER, COHEN, 1990, p. 168). Por outro lado, a identificação por Roots, dizem eles, seria a mais apropriada, pois leva, essencialmente, a diferentes variações melódicas.