2.3 IDENTIFICAÇÃO E PRIORIZAÇÃO DOS STAKEHOLDERS
2.3.2 Modelo de saliência de stakeholders de Mitchell et al (1997)
Outro método de identificação e classificação foi apresentado por Mitchell et al. (1997). O modelo proposto pelos autores, é um dos mais populares na categorização dos tipos de stakeholders e sua relação com atributos de legitimidade, poder e urgência e na sua priorização
pelos gestores (MITCHELL et al., 1997; MYLLYKANGAS et al. 2010; MAINARDES; ALVES; RAPOSO, 2012).
Para Mitchell et al. (1997), o modelo de saliência de stakeholders explica a quem e a que os gestores realmente devem prestar atenção. Saliência é o grau de priorização pelos gestores das reivindicações de um determinado stakeholder (AGLE et al., 1999). Este modelo busca, com base na percepção gerencial, demonstrar de que forma os gestores priorizam as demandas e reivindicações dos stakeholders nos relacionamentos com as organizações (MITCHELL et al., 1997).
Poder está relacionado, com a capacidade de um determinado indivíduo ou organização, determinar que outrem realize uma atividade mesmo que contra sua vontade ou que, não faria se não fosse solicitado. Este poder pode ser coercitivo, baseado em atributos de força e/ou ameaça, ou um poder utilitário baseado em recursos materiais ou financeiros, ou um poder normativo, com base em normas ou elementos simbólicos como prestígio e estima (MEDINA, 2017; MITCHELL; WOOD; AGLE, 1997).
Já a Legitimidade está relacionada a uma percepção generalizada se as ações, demandas e reivindicações dos stakeholders são apropriadas ou desejáveis num contexto moral, ético, social, de crenças e normas. Essa percepção pode ser individual, organizacional ou social (MAINARDES et al., 2011; MITCHELL; WOOD; AGLE, 1997)
Por fim, a urgência é o grau de atenção imediata que os gestores devem ter para as reivindicações das partes interessadas. A urgência também está relacionada ao tempo de resposta aceitável das organizações as solicitações de seus stakeholders (MEDINA, 2017; MITCHELL; WOOD; AGLE, 1997).
Ainda neste contexto, Mitchell et al. (1997) afirmam que existem três características para atributos das partes interessadas. Os atributos não são estáticos e variam com o tempo; são determinados por construções sociais e percepções, e não por uma realidade material e os stakeholders podem não saber ou não utilizar um atributo, mas não muda o fato que num determinado momento eles possuem um ou mais desses atributos.
Os stakeholders são classificados conforme a posse de um ou mais atributos. Em face do exposto, Mitchell et al. (1997) os classificaram em sete tipos diferentes, que são (Figura 4):
Quadro 3 ― Classificação de Stakeholders
Classificação Definição
Adormecidos Possui apenas o atributo poder como forma de influência. Podem impor sua vontade, mas sem terem a legitimidade ou urgência em suas demandas. Em geral, possuem pouca relação com a organização;
Discricionários Possuem apenas a legitimidade sem ter poder ou urgência de suas demandas. Aos gestores fica a cargo ou não de atender suas demandas;
Exigentes A urgência é o único atributo que esses stakeholders possuem. Podem fazer barulho para conseguir suas demandas, mas na ausência de poder e legitimidade, em geral tem suas demandas atendidas quando vão ao encontro dos objetivos da organização;
Dominantes São importantes, pois possuem tanto os atributos de legitimidade e poder para influenciar os gestores no atendimento de suas demandas. Não possuem o atributo urgência; Perigosos Possuem poder e urgência para influenciar os gestores. Como não possuem legitimidade
manifestam suas vontades através de um poder coercitivo;
Dependentes Tem como característica a urgência e legitimidade, mas carecem de poder para influenciar os gestores a atenderem suas demandas. Precisam de poder de um stakeholders para ter suas demandas atendidas;
Definitivos São os stakeholders mais importantes para organização, pois apresentam poder, legitimidade e urgência em suas demandas. São estratégicos e devem receber um acompanhamento constante de suas demandas pelos gestores;
Não Stakeholders São os stakeholders que não possuem nenhum dos três atributos por isso não afetam ou não são afetados pelas ações das organizações em busca de seus objetivos;
Fonte: Mitchell et al. (1997)
Figura 4 ― Classificação de Stakeholders
Fonte: Santos; Siqueira, (2015,p.6).
Neste âmbito, Mitchell et al. (1997) elaboraram um modelo de classificação dos stakeholders pela presença ou não de um dos três atributos (poder, legitimidade e urgência) em suas demandas (Quadro 4). Assim, se faz necessário que os gestores conheçam os stakeholders,
que detenham poder e intenção de impor suas vontades à organização bem como, aqueles que possuem interesses legais e legítimos para com a instituição (MITCHELL et al., 1997).
Quadro 4 ― Classificação e Categorização de Stakeholders
Classes de
Stakeholders Poder Legitimidade Urgência Categorias
Adormecidos SIM NÃO NÃO Stakeholders latentes Discricionários NÃO SIM NÃO Stakeholders latentes Exigentes NÃO NÃO SIM Stakeholders latentes Dominantes SIM SIM NÃO Stakeholders expectantes
Perigosos SIM NÃO SIM Stakeholders expectantes Dependentes NÃO SIM SIM Stakeholders expectantes Definitivos SIM SIM SIM Stakeholders definitivos Fonte: Adaptado de Mitchell et al. (1997)
Assim, a posse de um atributo por um determinado stakeholder não garante a este uma alta saliência na sua relação com gestores da organização. Contudo, a posse de dois atributos (stakeholders expectantes) permite uma maior interação e uma certa atenção a suas reivindicações por parte dos gestores. Neste contexto, stakeholders com uma reivindicação urgente e legítima possuem acesso aos canais de tomada de decisão da organização, ainda que não possuam poder para influenciar os gestores (MITCHELL et al., 1997).
Enfim, constata-se que para Mitchell et al. (1997) os stakeholders que os gestores compreendem como altamente salientes terão uma maior atenção das suas reivindicações. Assim, gestores têm limitações de recursos para atender a todas as demandas das diversas partes interessadas de uma organização por isso, são influenciados por aqueles que controlam os recursos mais essenciais para a instituição (BENN et al. 2016).
Importa saber, que a volatidade das demandas e da saliência dos stakeholders também é um item a ser considerado pelos gestores, já que segundo Barakat, Parente e Sarturi (2018) a importância de um stakeholder para os gestores e para organização não é necessariamente estável e pode variar conforme o tempo.
Por fim, para esta pesquisa a adoção de dois modelos permitiu uma maior compreensão sobre formas de classificação e priorização de stakeholders em organizações inseridas em ambientes complexos, como as IES. Assim, a utilização do modelo de Mitchell et al. (1997) pela sua popularização em diversos estudos sobre a categorização dos stakeholders em organizações, bem como a adoção do modelo proposto Mainardes, Alves e Raposo (2012) que
permita a comparar a categorização e priorização de stakeholders utilizando apenas um atributo (influência) e sua adequação ao escopo e ao propósito desse estudo, em organizações que interagem com múltiplos atores, como é o caso das IES.