Capítulo II – Teorias Motivacionais
2.3. Entrevista Motivacional
2.3.1. Bases conceptuais da Entrevista Motivacional
2.3.1.3. Modelo Transteórico de Prochaska e DiClemente
No campo dos comportamentos aditivos, como seja a dependência de álcool e de drogas, ou a ingestão compulsiva, a mudança comportamental não ocorre linearmente (Prochaska & DiClemente, 1986). De facto, Prochaska e DiClemente (1983) sugerem, que os indivíduos alteram o decorrer das suas acções em diferentes etapas e mediante diferentes processos (Bridle et al., 2005). Esta visão temporal e integrativa ficou conhecida como o Modelo Transteórico, onde é enfatizado paralelamente, o papel da auto-eficácia e do poder de decisão.
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Neste modelo, o objectivo primordial é compreender as capacidades e intenções individuais para a mudança, ao invés das potenciais influências sociais e biológicas (Bridle et al., 2005; Velicer, Prochaska, Fava, Norman & Redding, 1998).
De acordo com os autores (DiClemente & Velasquez, 2002), as alterações comportamentais sucedem-se de forma dinâmica e qualitativamente em seis fases. São elas: a pré-contemplação; a contemplação, a preparação, a acção e a manutenção.
Na primeira fase, não existe qualquer intenção de mudança, num futuro próximo, geralmente definido como os seis meses seguintes. Geralmente o indivíduo adopta uma postura de evitamento e resistência, que só é alterada quando experimenta dissonância cognitiva. Esta falta de intencionalidade do sujeito poderá ser um resultado, de tentativas passadas falhadas ou da incapacidade de reconhecer as consequências dos seus actos (Prochaska et al., 1992).
Na fase de contemplação, os sujeitos avaliam os prós e contras da alteração comportamental. Nesta etapa, a pessoa tenciona mudar o seu comportamento nos seis meses seguintes, e apesar de poder persistir no comportamento de risco, tem noção das consequências que daí podem resultar. O sujeito só passa para a fase seguinte, se a avaliação dos prós for maior que os contras, e se tiver uma elevada motivação. Se a avaliação dos contras superar a avaliação dos prós, o sujeito pode permanecer de forma crónica nesta fase (Patten, Vollman & Thurston, 2000; Prochaska & Velicer, 1997).
A etapa seguinte denomina-se de preparação. Nesta, a pessoa ainda incorre no comportamento inadequado, apesar de ter feito tentativas no último ano para eliminá-lo. Na maioria dos casos, o indivíduo não sabe qual a melhor forma de procedimento, questionando a sua capacidade. A partir da análise de vários planos estratégicos e da avaliação de competência, existe intenção para alterar o comportamento no próximo mês. Na visão de Prochaska e Velicer (1997), é nesta fase que deve ser feita a integração em programas terapêuticos de pessoas que tencionam parar de fumar ou perder peso, por exemplo.
Quando o sujeito fez tentativas para alterar as suas atitudes, por um período de seis meses, encontra-se na fase de acção. Comummente, o
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indivíduo é reconhecido pelos esforços realizados, em termos de tempo e energia despendida para melhorar a sua forma de agir. Neste sentido, é atingido um estado afectivo positivo, e o sujeito entra na etapa final (Prochaska et al., 1992). De salientar, que os critérios estabelecidos para esta fase advêm dos profissionais que acompanham o sujeito. Por exemplo, num programa para perda de peso, considera-se que o sujeito se encontra nesta fase se diminuir caloricamente a ingestão entre 20% a 30% (Prochaska & Velicer, 1997).
Na fase de manutenção, existe uma menor tentação em recair no comportamento de risco, pois subsiste um trabalho contínuo do sujeito para manter os ganhos conseguidos até àquele momento. Esta capacidade de permanecer ou de alcançar novos comportamentos benéficos, por um período de pelo menos seis meses, caracteriza o fundamento desta fase (Patten et al., 2000).
Em termos práticos, os autores propõem, que a avaliação dos sujeitos nas diferentes fases dever ser realizada com base num algoritmo (DiClemente et al., 1991). Fazendo uma adaptação deste algoritmo para a população obesa, as respostas poderiam seguir o esquema da figura 2.4.
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Sim Não
Sim Sim Não
Sim Sim Não
Figura 2.4. Algoritmo das diferentes fases do Modelo Transteórico. Adaptado de Aveyard et al. (2006).
As diferentes etapas e os processos inter-relacionam-se a nível temporal. Isto é, os autores (Bridle et al., 2005; Prochaska, Velicer, DiClemente & Fava, 1988) preconizam, que os processos descrevem a forma como a mudança acontece e diferentes processos ocorrem em diferentes fases. Assim, nas primeiras etapas, os processos caracterizam-se por serem mais a nível experiencial; nas últimas fases distinguem-se processos comportamentais (Patten et al., 2000).
Tem actualmente uma dieta pouco saudável?
Está a pensar em adoptar uma
dieta saudável nos próximos 6
Alguma vez teve uma dieta
saudável?
Está a planear ter uma dieta saudável, nos próximos 30 dias? Preparação Contemplação Pré-Contemplação Nos últimos 6 meses, alguma
vez teve uma dieta pouco saudável? Acção Manutenção No último ano, tentou alguma vez ter uma dieta saudável pelo menos por
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Na fase pré-contemplativa, surge a auto-reflexão, a eliminação dramática e reavaliação ambiental. Na auto-reflexão, é esperado que o sujeito aumente o seu nível de consciência, relativamente às consequências negativas do seu comportamento actual. A eliminação dramática diz respeito à necessidade do sujeito expressar emoções face ao problema comportamental. A reavaliação ambiental refere-se à determinação do grau de influência do comportamento do sujeito, no ambiente social onde vive (Prochaska et al., 1992).
Na fase de contemplação, é geralmente feita uma auto-reavaliação, na qual a pessoa avalia de forma cognitiva e afectiva a sua prestação, incidindo no comportamento problemático e não problemático (Velicer et al., 1998).
Posteriormente, na fase de preparação para a mudança, o sujeito procede a uma auto libertação. Este processo corresponde, ao poder da pessoa em acreditar, que irá conseguir alterar a sua acção, e o compromisso que estabelece perante tal facto (Prochaska & Velicer, 1997). Nesta fase surge também a libertação social, relacionada com a necessidade de existirem alternativas no ambiente, para que a mudança ocorra.
Durante a fase de acção e de manutenção, surgem processos como: supervisão das contingências; ajuda nas relações; contra condicionamento e controlo de estímulos. Na supervisão de contingências ocorrem consequências positivas (reforço) ou negativas (punição) ao sujeito pela adopção ou não de um comportamento menos problemático, respectivamente. O processo mediado pela ajuda envolve o suporte social, cujo objectivo é facilitar a mudança. No contra condicionamento o objectivo é substituir o comportamento actual, por comportamentos mais saudáveis. Por fim, no controlo de estímulos procura-se que o sujeito elimine do ambiente todos os estímulos associados ao comportamento de risco (Patten et al., 2000; Velicer et al., 1998).
Baseada na Teoria de auto-eficácia de Bandura (1977), o modelo de Prochaska e DiClemente (1983), demonstra que as percepções acerca das capacidades pessoais determinam a mudança de comportamentos (Tober & Raistrick, 2007). Ou seja, uma melhor avaliação pessoal conduz a etapas de mudança mais elevadas, por exemplo da fase de contemplação para a fase de preparação (Kraft, Sutton & Reynolds, 1999). Além disso, existe ainda uma associação inversa entre auto-eficácia e tentação. Isto significa, que quanto
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mais o sujeito se sentir tentado num comportamento não recomendável, pior será a sua auto-eficácia, sendo o inverso também verdade. Desta forma, nas primeiras etapas de mudança existe um maior nível de tentação, e um menor nível de auto-eficácia. No final dos estágios, na fase de manutenção, a auto- eficácia sobrepõem-se à tentação. Apenas na fase de acção, encontramos níveis semelhantes entre as duas (Fallon & Hausenblas, 2004).
Em termos de poder de decisão, este modelo suporta a ideia, que todas as decisões do sujeito são baseadas na avaliação dos prós e contras da mudança do comportamento, bem como na avaliação dos custos implicados. Os estudos demonstram, que estes julgamentos variam ao longo das diferentes etapas e por isso é um bom instrumento no progresso terapêutico (Prochaska, DiClemente, Velicer, Ginpil & Norcross, 1985). Assim sendo, na fase de pré- contemplação o indivíduo avalia quantitativamente mais os contras, comparativamente aos prós.