A redescoberta da teologia da Trindade no século 20 levou à tentativa de inter- pretar o campo do aconselhamento pastoral e especialmente os processos de comuni- cação do evangelho entre Deus e as pessoas bem como a comunicação interpessoal a partir da Trindade. O teólogo metodista Holger Eschmann desenvolveu, alguns anos atrás, a doutrina da Trindade como teoria-padrão para o aconselhamento pastoral.38
Ele parte da ideia de que “todas as afi rmações sobre o ser humano e o mundo podem ser relacionadas com a identidade trinitária e com a essência de Deus”39. Se o ser
humano foi criado como “imagem de Deus” (Gn 1.26) e se a doutrina da Trindade enfoca que Deus revelou-se no mundo e não quer ser sem o mundo, que ele criou e reconciliou, podem-se formular correspondências entre o Deus triúno e o ser humano
38 ESCHMANN, Holger. Theologie der Seelsorge. Grundlagen, Konkretionen, Perspektiven. Neukirchen-
-Vluyn: Neukirchener Verlagsanstalt, 2000.
e formular objetivos para o campo de aconselhamento pastoral. Eschmann destaca quatro aspectos importantes:
1. A doutrina da Trindade pode esclarecer a “essência do aconselhamento pas- toral” e oferecer um argumento “que relaciona Deus e o ser humano, o agir de Deus e da pessoa humana sem identifi cá-los”40. Ela leva a uma antropologia da correspondên-
cia. O destino do ser humano é viver em correspondência com o ser de Deus. Confor- me o amor é realizado na permeação mútua das três pessoas da Trindade, os cristãos são chamados para viver como criaturas físicas, sendo irmãos e irmãs de Cristo, bus- car e experimentar perdão, consolação e reconciliação com Deus e o próximo, viver a fé, a esperança e o amor no Espírito Santo. A compreensão teológica da comunicação no aconselhamento pastoral na base da Trindade permite diferenciar e relacionar o agir de Deus e do ser humano na comunicação. Deus pode utilizar a comunicação fragmentária e imperfeita do ser humano para comunicar o seu amor. O ser humano não é responsável pela comunicação de Deus, mas é chamado para correspondê-la por seu agir refl etido no serviço de amor ao próximo.
2. A Trindade ajuda a sistematizar e valorizar o grande número de concepções diferentes de aconselhamento pastoral no século 20 conforme sua afi nidade à dimen- são do Deus criador, ao Deus reconciliador e ao Deus redentor.41
3. Ela oferece um modelo argumentativo para o diálogo com a sociedade pós- -moderna. Frente ao pluralismo e à identidade fragmentada, desenvolve uma “fórmula básica de identidade cristã” que relaciona unidade e pluralidade, a relação com o mun- do, com as pessoas e com a transcendência. Possibilita aceitar a fragmentariedade da vida humana e abre um horizonte amplo de esperança e expectativas de transformação da vida e da sociedade.
4. Ela dá impulsos para o agir no aconselhamento pastoral mesmo. Numa pers- pectiva trinitária, o esquema metodológico da teologia da libertação ver-julgar-agir pode ser considerado como método básico do aconselhamento pastoral: “O ver inclui a percepção ampla e a análise do parceiro de conversa, de sua problemática, de seu contexto e da própria situação do conselheiro ou da conselheira. O julgar acontece como refl exão e avaliação das percepções na base de conhecimentos teológicos e das ciências humanas. O agir corresponde a essa avaliação para ser adequado, competente e efetivo”42.
O modelo trinitário de aconselhamento pastoral consegue conectar os motivos centrais da poimênica da Reforma, a consolação e o perdão com o método da teologia da libertação. Consolação para a consciência afl ita era o foco do aconselhamento de Lutero. O Catecismo de Heidelberg de 1563 explica consolação como o cerne da exis- tência cristã: Qual é o teu único consolo na vida e na morte? “Que pertenço com corpo e alma, na vida e na morte não a mim mesmo, mas ao meu salvador fi el Jesus Cristo.”
40 ESCHMANN, 2000, p. 39. 41 ESCHMANN, 2000, p. 39. 42 ESCHMANN, 2000, p. 255.
Parece que o modelo trinitário de compreender a comunicação do evangelho no aconselhamento pastoral é o mais adequado e equilibrado, pois consegue diferenciar e relacionar o agir divino e o agir humano na comunicação. Consegue estabelecer uma relação entre as dimensões psicológicas, sociais e culturais da comunicação humana com a dimensão da transcendência, a comunicação do amor de Deus. Consegue inte- grar a herança poimênica da Reforma com as descobertas da teologia da libertação. Referências
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Atribuição – NãoComercial – SemDerivados 3.0 Não Adaptada
A
TEOLOGIAEOSOFRIMENTONOCONTEXTOPÓS-
MODERNO:
PISTASPARAOACONSELHAMENTOPASTORAL1
Theology and suffering in the post-modern context: Some clues to pastoral counseling
Aíla Luzia Pinheiro de Andrade2
Resumo: O problema do sofrimento humano representou um grande desafi o para o pensa-
mento bíblico. No Antigo Testamento, foi o movimento sapiencial que, de modo privilegia- do, debruçou-se sobre essa questão. No Novo Testamento, os seguidores de Cristo trataram de enfrentar teologicamente o problema da cruz e do martírio. Na atualidade, a prática do aconselhamento pastoral tem como desafi o ajudar pessoas a encontrarem um sentido para viver e para continuar crendo, mesmo quando a vida parece não ter qualquer sentido e a dúvida se sobrepõe à fé. Neste artigo, partindo dos dados bíblicos e da teologia prática, su- gerimos algumas pistas para o aconselhamento pastoral a pessoas em sofrimento inevitável.
Palavras-chave: Aconselhamento. Sofrimento. Jó. Filipenses. Kénosis.
Abstract: Human suffering has been a great challenge to the biblical thinking. In the
Old Testament, the Sapiential movement, in a privileged way, has faced that question. In the New Testament, the followers of Christ theologically explained the problem of the cross and martyrdom. Currently, the practice of pastoral counseling is challenged to help people to fi nd a sense to live and continue to believe, even when life seems to have no sense and the doubt overlaps the faith. In this article, based on the biblical data and on the practical theology, we suggest some clues to pastoral counseling to people in inevitable suffering.
Keywords: Pastoral counseling. Suffering. Book of Job. Epistle of Philippians. Kenosis.
A
pós-modernidade tem se caracterizado pela efemeridade e fugacidade dasexperiências existenciais. No entanto, muitas pessoas vivenciam expe- riências duradouras de sofrimentos inevitáveis e de vazio de sentido na vida. Cresce
1 O artigo foi recebido em 31 de agosto de 2016 e aprovado em 23 de setembro de 2016 com base nas
avaliações dos pareceristas ad hoc.
2 Doutora em teologia bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofi a e Teologia (FAJE), membro do Programa
de Pós-Graduação em Teologia da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), Recife/PE, Brasil. Contato: [email protected]
assustadoramente o número de casais que têm seus fi lhos jovens mortos pela ação da violência, do uso do álcool e das drogas ou de uma doença incurável. Isso signifi ca que, apesar dos avanços das ciências e do progresso atingidos pela sociedade, o ser humano pós-moderno não deixou de experimentar os mais diversos tipos de sofrimen- to, ao contrário, novas formas de sofrimento estão sendo vivenciadas em nossa época, para as quais as ciências não encontram soluções.
A era das novas tecnologias e dos avanços científi cos em todas as áreas do conhecimento enfrenta o dilema paradoxal do empobrecimento das relações, da ex- periência do vazio existencial, da busca pelo suicídio e, ao mesmo tempo, de uma volta ao sagrado desvinculado das instituições religiosas. Cada vez mais as pessoas se fecham e se isolam em relações virtuais nas redes sociais. Com maior frequência, são absorvidas pelas múltiplas possibilidades de respostas rápidas.
A ideologia pós-moderna tenta mascarar todas as experiências existenciais como fugazes e efêmeras, no entanto o problema do sofrimento humano não é vi- venciado como emoção passageira e superfi cial. Diante dos desafi os impostos pelo processo da globalização cultural e da velocidade tecnológica do mundo virtual, o problema do sofrimento inevitável é uma demanda que exige uma atitude de clareza e de discernimento, válida para as pessoas de todos os segmentos culturais e religiosos da sociedade atual.
Cabe àqueles que exercem o pastoreio nas igrejas ou às pessoas que tenham alguma função de aconselhar grupos, indivíduos ou famílias a difícil tarefa de mostrar para quem vivencia um sofrimento inevitável que, mesmo não sendo possível encon- trar uma solução para suas dores, a vida e a fé merecem uma chance, pois, apesar de tudo, ainda há um sentido que transcende a experiência humana em sua totalidade. Tem aumentado o número de pessoas que buscam as igrejas para um aconselhamen- to pastoral. Isso signifi ca um movimento na contramão do que ocorreu no início do século XX, quando as pessoas passaram a recorrer às clínicas em busca de terapias para conseguir uma solução para seus sofrimentos, culpas e frustações. Apesar de se reconhecer o valor das terapias psicológicas, a teologia prática admite que uma assistência pastoral deva ser providenciada, no âmbito das igrejas, às vítimas de tra- gédias existenciais, que se destine, principalmente, a ajudar pessoas portadoras de sofrimento inevitável a suportar suas mazelas. Essa assistência pastoral, entretanto, não implica uma espécie de rivalidade entre as funções de pastor/a e de terapeuta. O aconselhamento pastoral, por sua função específi ca, pode, em determinados casos e em condições bem precisas, ser ajudado, mas nunca substituído por formas de análise ou de ajuda psicológica.
O aconselhamento pastoral tem como função específi ca auxiliar as pessoas na intensifi cação de suas relações com Deus. Quando o aconselhamento pastoral visa ajudar a pessoa que sofre, trata-se de levá-la a descobrir que, mesmo quando todo o sofrimento, todas as lutas, todos os problemas parecem não ter qualquer sentido,
ainda assim há um sentido perante o qual até mesmo a mais absurda tragédia humana se torna compreensível.3
A teologia entra nesse cenário como refl exão dos fundamentos e do exercício do aconselhamento pastoral, no contexto enigmático da pós-modernidade, acreditan- do que o sentido último da vida humana se encontra na relação que o “Eu” estabelece com o “Tu” (Deus). Tal relação, em última instância, possibilita que o aconselhamen- to pastoral apresente a “vida plena” (Jo 10.10)4 apesar de todo sofrimento. Vida que,
acima de tudo, somente é plena quando é cheia de sentido, apesar de todo sofrimento. Portanto a teologia só poderá oferecer uma refl exão consistente para a prática do aconselhamento pastoral se estiver voltada para os fundamentos de si mesma, a saber, de uma leitura acurada das sagradas Escrituras, onde se mostra, de modo privi- legiado, a relação entre Deus e o ser humano. E se quiser fazer sentido para os sofre- dores de hoje, a refl exão teológica deve ter, igualmente, um olhar atento direcionado ao contexto atual.