• Nenhum resultado encontrado

A aplicação pragmática desta procura por novos padrões de modos de vida e novas normas, são muitas vezes, fundamentados em modelos de base comunitária. O conceito de comunidade é variável e não obedece a uma definição estanque, uma vez que existem características geográficas, históricas, económicas, sociais e culturais que tipificam e distinguem cada “comunidade”. Deste modo, o conceito de comunidade deve ser sempre complementado com a descrição do tipo de comunidade a que se refere a análise e às suas características específicas (Mayo, 1994).

A análise do conceito de comunidade tem vindo a sofrer mudanças nas suas configurações, ao longo da história. Fung e Wright (2003) consideram que existiram três apropriações distintas do uso do conceito de comunidade: numa primeira fase, a partir do século XVI, o conceito de comunidade remetia para algo que era partilhado e ao qual se associava uma identidade comum; no século XIX, a comunidade representava um ideal de classe média ao serviço dos pobres; no século XX, depois da Segunda Guerra Mundial, o conceito de comunidade ganha força, no sentido em que se levanta a importância de um desenvolvimento que seja comunitário e que apele à união dos povos.

As contribuições clássicas de Tönnies e Durkheim são fundamentais na análise do conceito de comunidade. A perspetiva teórica deTönnies baseia-se na criação de uma tipologia de dois conceitos fundamentais: Gemeinschaft2 e Gesellschaft3. Gesellschaft remete para um tipo de relação social caracterizada pelo individualismo, pela impessoalidade e pelo contratualismo (Mayo, 1994). Por outro lado, o Gemeinschaft remete para os estados afetivos, para os hábitos e para as tradições que são partilhadas (Mayo, 1994). Segundo o sociólogo alemão, as primeiras fases do desenvolvimento social caracterizavam-se pela escala reduzida em que se manifestavam as relações, e os laços comunitários eram fundamentados e perpetuados pelas famílias e pelas tradições das comunidades (Mayo, 1994). Desde a

2Comunidade

25

Revolução Industrial, as sociedades industrializadas foram assumindo um carácter individualista e contratualista (Mayo, 1994), típicos do sistema económico capitalista.

Na sua obra “Da Divisão do Trabalho Social”, o sociólogo distingue dois princípios básicos para a análise do conceito de comunidade: a solidariedade orgânica e a solidariedade mecânica (Durkheim, 1999). A solidariedade mecânica é um tipo de estrutura social que implica uma certa homogeneidade social e que se verifica maioritariamente, em comunidades de pequena dimensão. É um tipo de solidariedade dominada pela consciência coletiva, em que as normas, o pensamento e os comportamentos são determinados pela comunidade (Durkheim, 1999). A solidariedade orgânica começa a surgir como uma consequência da divisão social do trabalho, dado que uma vez que os indivíduos começam a realizar funções, está construída a base que permite a emergência do individualismo (Durkheim, 1999). Nesta perspetiva, o individualismo4 e a heterogeneidade vieram substituir o comunitarismo e a homogeneidade dos sistemas sociais.

As análises clássicas de Tönnies e Durkheim defendem que existiu uma passagem da comunidade e da prevalência da consciência coletiva para formas mais individualistas e heterogéneas de viver. No entanto, as abordagens mais recentes dos modelos comunitários expõem o conceito como uma certa apropriação de alguns pontos abordados em ambas as teorias clássicas. As abordagens que se seguem mostram uma proposta de modelo comunitário, mais adequada ao contexto contemporâneo e mais integrada na sua essência. Deste modo, o conceito de comunidade não deve obedecer a uma definição estanque e isolada na história, mas deve ser articulado com o contexto económico, social e político em que se insere. A análise dos modelos comunitários deve incluir três dimensões fundamentais de análise: o território onde se insere a comunidade, uma vez que uma comunidade representa um conjunto de indivíduos que vivem num espaço geográfico determinado; as interações - a comunidade é um produto das interações constantes mantidas entre as pessoas e o espaço; e o sentimento de pertença que define a identidade dos membros pertencentes e perpetua a identidade da comunidade (Liftin, 2009). A figura II.1 mostra os pontos de confluência entre as abordagens clássicas e as mais recentes.

26

Figura II.1 – Proposta Integrada do Conceito de Comunidade

Fonte: Elaboração própria

A comunidade, de acordo com as teorias mais recentes, é uma forma de organização intencional comunitária para a criação de modelos societais em micro escala, é um agrupamento de indivíduos relacionados entre si, que partilham, não só recursos físicos, mas também recursos inerentes à relação social que estabelecem, como o conhecimento ou as tradições (Ware, 1986). Os modelos comunitários de vida implicam uma totalidade orgânica em permanente evolução, em que cada indivíduo desempenha uma função específica, e onde o objetivo final de evolução da comunidade é partilhado pelo grupo (Ware, 1986). Esta visão sistémica é defendida também por Joubert e Alfred (2007), que defendem que uma comunidade funciona organicamente, onde os seus membros funcionam ao nível da interdependência e onde se sublinha a importância do papel individual das partes para o funcionamento do todo. Neste sentido, a comunidade e o individual não são opostos, não devem ser segmentados em compartimentos estanques, mas sim operar numa lógica de confluência (Joubert e Alfred, 2007). No fun

A comunidade é fundamentalmente um modo de relação social, é um modelo de ação intersubjetivo construído sobre o afeto e a incontestável esperança da lealdade e da reciprocidade; a comunidade é um exemplo do tipo ideal de ação social, uma construção teórica da própria realidade, que costuma ser algo mais sentido do que conhecido, mais emocional do que racional (Fuertes, 1988:13)

Num contexto de hegemonia do mercado em que o grande regulador social é o mercado, os velhos mecanismos deixam de ser eficazes. A ação comunitária como a expressão da cidadania ativa ganha (Mayo, 1994) e os modelos comunitários de vida, que nascem da vontade

Modelos Simples - Comunidade - Pequenos grupos / Sociedade tradicional

-Tönnies: Gemeinschaft (Hábitos e tradições partilhadas) e Durkheim: Solidariedade Mecânica (Homogeneidade e consciência coletiva)

Modelos Complexos - Sociedade - Grupos maiores e mais complexos /

Sociedade Moderna

- Tönnies: Gesellschaft (Individualismo e contratualismo) e Durkheim:

Solidariedade Orgânica (heterogeneidade e funcionamento sistémico)

Pequenos Grupos em Contextos Complexos - Comunidade contemporânea

- Visão sistémica

- Comunhão entre o individual e o coletivo - Totalidade orgânica

- Objetivos comuns

27

intencional de um determinado grupo de agentes sociais, ganham visibilidade, surgindo como possíveis modelos complementares, e como uma resposta à construção de uma modernidade e de um modelo de desenvolvimento ético (Bates, 2003). Estas novas formas de viver representam um modelo profusamente aplicável no planeamento e reorganização dos ajustamentos humanos no século XXI, compatíveis com o bem-estar comunitário e o meio envolvente (Bang, 2005).

Documentos relacionados