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Capítulo 3 Materiais e métodos

3.4. O método

O estudo do uso de serviços de saúde na região urbana do Estado do Rio de Janeiro, em função de aspectos sócio-demográficos, foi dividido em três fases: descrição dos dados, modelagem do uso e aplicação de diferentes métodos de estimação de parâmetros.

Na primeira fase deste estudo, os dados foram apresentados descritivamente e foram realizados testes de significância para analisar o perfil das variáveis, observando as diferenças de uso de serviço de saúde em função da restrição de atividades rotineiras por motivo de saúde e do sexo das pessoas estudadas.

Nem sempre é plausível supor independência dos indivíduos dentro dos níveis (família, por exemplo), ou seja, a não relação do risco de um indivíduo adoecer ou fazer uso de serviços de saúde, com os respectivos riscos de um outro indivíduo do mesmo nível (família). A partir da violação deste pressuposto foi incorporada ao objetivo deste estudo a aplicação da técnica de

Modelagem Hierárquica, como uma ferramenta para compensar a violação de independência entre as observações de um mesmo nível de análise (Humphreys e Carr-Hill, 1991; Gatsonis et al., 1993).

Outra característica importante da Modelagem Hierárquica se dá em relação à modelagem de problemas de investigação que incluem variáveis explicativas medidas em diferentes níveis. Sendo assim, os modelos hierárquicos não são desenhados apenas para corrigir o efeito do delineamento, mas para avaliar em um único modelo variáveis medidas em diferentes níveis (Hox, 1995).

Viacava et al. (2001) construíram modelos para as pessoas maiores de 9 anos de idade, residentes no Brasil urbano. Foram feitos modelos separados por restrição de atividades rotineiras por motivo de saúde e por sexo, concluindo que o uso de serviços de saúde no Brasil urbano difere bastante entre as pessoas com e sem restrição, tanto para os homens quanto para as mulheres. Desta forma, o estudo aqui apresentado, focando o uso de serviços de saúde na região urbana do Estado do Rio de Janeiro, considerou a mudança do efeito das variáveis explicativas através de termos de interação de segunda ordem com a restrição de atividades rotineiras e com o sexo.

Na segunda fase deste estudo, a modelagem do uso de serviços de saúde foi feita através de modelos hierárquicos com intercepto aleatório. Nesta fase foi aplicado o método QVP2, que fornece estimativas menos viciadas do que as obtidas pelo método QVM1, com um tempo de processamento computacional maior que o do QVM1 e menor que o do MCMC, considerado na

literatura como o melhor método, apesar do grande tempo de processamento computacional.

Foram estimados modelos separados para cada variável do estudo.

Tais modelos incorporaram os termos de interação das respectivas variáveis em relação à restrição de atividades rotineiras e ao sexo. O objetivo destes modelos foi fazer uma pré-seleção dos termos de interação. Os termos de interação que foram estatisticamente significativos nesta etapa, não incluindo o valor zero no seu intervalo de confiança (95%), foram incluídos em modelos subseqüentes que consideram o efeito de outras variáveis modeladas em conjunto.

Ainda na segunda fase deste estudo, após a pré-seleção dos termos de interação, foram estabelecidas quatro etapas:

 na primeira etapa foram construídos modelos com o intercepto aleatório, modelando o intercepto a partir do intercepto médio e do erro aleatório, não incluindo as variáveis do segundo nível (família), e utilizando apenas variáveis do primeiro nível (indivíduos) e as suas interações;

 na segunda etapa, o intercepto foi modelado por variáveis do segundo nível (família), a partir da inclusão de tais variáveis no modelo;

 na terceira etapa, o intercepto aleatório foi modelado e o coeficiente angular não aleatório da restrição de atividades rotineiras foi controlado pelas variáveis do segundo nível (família).

Tal procedimento foi realizado incluindo no modelo as variáveis do

segundo nível e os seus termos de interação com a restrição de atividades rotineiras;

 na quarta etapa, o intercepto aleatório foi modelado e o coeficiente angular não aleatório do sexo foi controlado pelas variáveis do segundo nível (família). Tal procedimento foi realizado incluindo no modelo as variáveis do segundo nível e os seus termos de interação com o sexo.

A inclusão de variáveis (parte fixa) nos modelos foi testada com o teste de Wald. Também foram realizados testes para a parte aleatória do modelo a partir da aproximação do teste de Wald, disponibilizada no pacote computacional Mlwin versão 1.10.0006.

Na terceira fase deste estudo, foram comparadas as estimativas dos parâmetros do modelo, usando o modelo logístico tradicional e hierárquico, o último através dos métodos clássicos (QVM1 e QVP2) e Bayesiano (MCMC) de estimação dos parâmetros.

Para aplicar o método MCMC, com priores vagas, foram geradas 1000 amostras iniciais que não foram usadas para descrever a distribuição a posteriori (usadas apenas para iniciar a cadeia de Markov). Foram geradas 200000 amostras após as 1000 primeiras amostras descartadas. Destas 200000 amostras foram selecionadas 40000 amostras com uma freqüência de sorteio de 5 amostras, ou seja, a cada 5 amostras geradas uma amostra foi sorteada. Estas 40000 amostras descreveram a distribuição a posteriori dos parâmetros do modelo.

A interpretação dos parâmetros do modelo final foi realizada com base nas estimativas obtidas através do método Bayesiano, pois, segundo Rasbash et al. (1995), tal método proporciona estimativas mais fidedignas. Foi utilizada a medida de razão de chances para a interpretação dos parâmetros do modelo final. Quando a razão de chances assume o valor um para a categoria (variável indicadora) de uma variável com duas ou mais categorias, significa que não há associação entre esta categoria em relação à categoria de referência desta variável. Quando a razão de chances é superior a um, significa que há uma associação positiva da determinada categoria em relação à categoria de referência; quando a razão de chances é inferior a um, significa que há uma associação negativa da determinada categoria em relação à categoria de referência. A razão de chances é uma medida muito usada na área médica e mais detalhes sobre sua aplicação e interpretação podem ser obtidos em Hennekens e Buring (1987), Kleinbaum (1994), Hosmer & Lemeshow (1989) e Rodrigues & Werneck (2002).

O coeficiente de correlação intraclasse foi obtido através de expansão de Taylor (método 1), de simulação (método 2), do modelo contínuo (método 3) e da definição da variância do primeiro nível a partir da distribuição logística padrão (método 4). Todos os métodos foram comparados por Goldstein, Browne & Rasbash (2000) e citados com mais detalhes no item 2.3.

Capítulo 4

Resultados

4.1. Descrição dos dados

A seguir serão apresentadas as variáveis utilizadas neste trabalho de forma descritiva.

A tabela 4.1 descreve que 13,3% das pessoas usaram os serviços de saúde e 4,8% tiveram restrição de suas atividades rotineiras por motivo de saúde. Entre os indivíduos estudados, 52,6% são do sexo feminino. A faixa etária de 25 a 49 anos contém a maioria dos indivíduos estudados (37,6%). A proporção de pessoas que definiu a sua própria raça como branca na variável raça auto-referida é de 61,3%.

Tabela 4.1: Descrição das variáveis do nível do indivíduo

Variáveis n %

Uso de serviços de saúde Não usou 20433 86,7

Usou 3122 13,3

Restrição ativ. rot. Sem restrição 22428 95,2

Com restrição 1127 4,8

Sexo Masculino 11172 47,4

Feminino 12383 52,6

Faixa etária (anos)

4 ou menos 1904 8,1

5 – 9 1915 8,1

10 – 14 2002 8,5

15 – 24 4034 17,1

25 – 49 8868 37,6

50 – 64 3012 12,8

65 ou mais 1820 7,7

Raça auto-referida Não branca 9105 38,7

Branca 14450 61,3

Total 23555 100

A tabela 4.2 descreve que a maioria (59%) das famílias estudadas possui de 3 a 5 pessoas e que 21,5% das famílias têm uma renda familiar per capita menor ou igual a 0,77 salário mínimo (S. M.). A maioria dos chefes das famílias é: do sexo masculino (71,1%), da faixa etária de 35 a 44 anos (24,8%), com escolaridade fundamental (30,9%) e empregado no mercado de trabalho formal (66,2%).

Tabela 4.2: Descrição das variáveis do nível da família

Variáveis n %

Tamanho da família

1 pessoa 881 11,5

2 pessoas 1911 25,0

3 a 5 pessoas 4516 59,0

6 ou mais pessoas 342 4,5

Renda familiar per capita (S.M.)

0,77 ou menos 1646 21,5

(0,77; 1,26] 1424 18,6

(1,26; 2,04] 1535 20,1

(2,04; 4] 1518 19,8

4 ou mais 1527 20,0

Sexo do chefe Masculino 5442 71,1

Feminino 2208 28,9

Idade do chefe (anos)

24 ou menos 388 5,1

25 – 34 1408 18,4

35 – 44 1894 24,8

45 – 54 1607 21,0

55 – 64 1132 14,8

65 ou mais 1221 16,0

Escolaridade do chefe

Sem instrução 731 9,6

Fundamental básico 2083 27,2

Fundamental 2362 30,9

2° grau 1414 18,5

Nível Superior ou mais 1060 13,9 Mercado do chefe

Empregado 5063 66,2

Desempregado 328 4,3

Fora da população ativa 2259 29,5 Foram observadas 7650 famílias

A tabela 4.3 e a figura 4.1 descrevem o uso de serviços de saúde em função das variáveis do nível do indivíduo. O uso difere de forma estatisticamente significativa (p-valor < 1%) para todas as variáveis do nível do indivíduo. O alto percentual de utilização (68,3%) entre as pessoas com restrição de atividades rotineiras mostra a importância da necessidade de saúde, captada por esta variável para o uso de serviços de saúde. Em relação à idade nota-se uma curva de uso em formato de “J”, onde as pessoas mais idosas usam mais os serviços de saúde.

Tabela 4.3: Distribuição de freqüência da utilização de serviços de saúde segundo as variáveis do nível do indivíduo

Variáveis

Utilização de serviço de

saúde Total

Não usou Usou

n % n % n %

Restrição ativ. rot.** Sem restrição 20076 89,5 2352 10,5 22428 100

Com restrição 357 31,7 770 68,3 1127 100

Sexo** Masculino 10007 89,6 1165 10,4 11172 100

Feminino 10426 84,2 1957 15,8 12383 100

Faixa etária (anos)**

4 ou menos 1529 80,3 375 19,7 1904 100

5 – 9 1703 88,9 212 11,1 1915 100

10 – 14 1837 91,8 165 8,2 2002 100

15 – 24 3721 92,2 313 7,8 4034 100

25 – 49 7830 88,3 1038 11,7 8868 100

50 – 64 2479 82,3 533 17,7 3012 100

65 ou mais 1334 73,3 486 26,7 1820 100

Raça auto-referida** Não branca 7999 87,9 1106 12,1 9105 100

Branca 12434 86,0 2016 14,0 14450 100

** P-valor  0,01 P-valor obtido por qui-quadrado (2)

Figura 4.1: Proporção de uso de serviços de saúde segundo as variáveis do nível do indivíduo

A tabela 4.4 e a figura 4.2 descrevem o uso de serviços de saúde em função das variáveis do nível da família. O uso difere de forma estatisticamente significativa (p-valor < 1%) para todas as variáveis de família. O tamanho da

10,5%

68,3%

10,4%

15,8%

19,7%

11,1%

8,2%

7,8%

11,7%

17,7%

26,7%

12,1%

14,0%

Sem restrição

Com restrição

Masculino

Feminino

4 ou menos

5 – 9

10 – 14

15 – 24

25 – 49

50 – 64

65 ou mais

Não branca

Branca

Restrão ativ. rot.SexoFaixa eria (anos)Raça auto-referida

família apresenta um gradiente negativo em relação ao uso e as faixas de renda familiar per capita mais elevadas possuem um maior percentual de uso.

Membros de famílias cujos chefes são do sexo masculino usam mais os serviços de saúde. A idade do chefe da família tem uma curva em forma de “J”

para o uso dos serviços de saúde. Membros de famílias cujos chefes tem nível superior de ensino ou está fora da população ativa no mercado de trabalho usam mais os serviços de saúde.

Tabela 4.4: Distribuição de freqüência da utilização de serviços de saúde segundo as variáveis do nível da família

Variáveis

Utilização de serviço de saúde

Total

2 pessoas 3120 81,8 695 18,2 3815 100

3 a 5 pessoas 14592 87,8 2027 12,2 16619 100

6 ou mais pessoas 2051 91,6 189 8,4 2240 100

Renda familiar

Feminino 15809 87,2 2317 12,8 18126 100

Idade do chefe**

Fundamental básico 5805 87,4 834 12,6 6639 100

Fundamental 6565 87,9 904 12,1 7469 100

2° grau 3713 86,4 582 13,6 4295 100

Nível Superior ou mais 2528 82,8 525 17,2 3053 100 Mercado de

trabalho do chefe**

Empregado 14664 87,9 2025 12,1 16689 100

Desempregado 855 86,6 132 13,4 987 100

Fora da população ativa 4914 83,6 965 16,4 5879 100

** P-valor  0,01 P-valor obtido por qui-quadrado (2)

Figura 4.2: Proporção de uso de serviços de saúde segundo as variáveis do nível da família

Sexo do chefeIdade do chefe (anos)Escolaridade do chefe

Mercado do chefe

Analisando o uso de serviços de saúde separadamente para as pessoas com e sem restrição (tabelas 4.5 e 4.6), observa-se que, entre as pessoas sem restrição de atividades rotineiras, existe uma diferença estatisticamente significativa (p-valor  0,05), obtida através do teste de qui-quadrado (2), em relação ao uso de serviços de saúde para todas as variáveis do nível do indivíduo e da família. Entre as pessoas com restrição de atividades rotineiras, existe uma diferença estatisticamente significativa em relação ao uso de serviços de saúde apenas para a renda familiar per capita.

Tabela 4.5: Distribuição de freqüência da utilização de serviços de saúde segundo a restrição de atividades rotineiras e as demais variáveis do nível do indivíduo

Variáveis

Sem restrição (SR) Com restrição (CR)

Não usou Usou Total parcial Não usou Usou Total parcial

n % n % n % n % n % n %

Sexo

SR** CRNS

Masculino 9864 92,2 840 7,8 10704 100 143 30,6 325 69,4 468 100 Feminino 10212 87,1 1512 12,9 11724 100 214 32,5 445 67,5 659 100

Faixa etária (anos)

SR** CRNS

4 ou menos 1505 83,6 296 16,4 1801 100 24 23,3 79 76,7 103 100 5 – 9 1684 91,5 156 8,5 1840 100 19 25,3 56 74,7 75 100 10 – 14 1829 93,3 131 6,7 1960 100 8 19,0 34 81,0 42 100 15 – 24 3687 93,7 248 6,3 3935 100 34 34,3 65 65,7 99 100 25 – 49 7716 90,5 810 9,5 8526 100 114 33,3 228 66,7 342 100 50 – 64 2401 86,2 383 13,8 2784 100 78 34,2 150 65,8 228 100 65 ou mais 1254 79,3 328 20,7 1582 100 80 33,6 158 66,4 238 100 Raça

SR** CRNS

Não branca 7854 90,7 805 9,3** 8659 100 145 32,5 301 67,5 446 100 Branca 12222 88,8 1547 11,2 13769 100 212 31,1 469 68,9 681 100

** P-valor 0,01 * 0,01 P-valor 0,05 NC P-valor 0,05

Tabela 4.6: Distribuição de freqüência da utilização de serviços de saúde segundo a restrição de atividades rotineiras e as variáveis do nível da família

Variáveis

Sem restrição (SR) Com restrição (CR)

Não usou Usou Total parcial Não usou Usou Total parcial

n % n % n % n % n % n %

Tamanho da família SR** CRNS

1 pessoa 643 82,0 141 18,0 784 100 27 27,8 70 72,2 97 100

Escolaridade do chefe SR** CRNS

Sem instrução 1779 90,2 194 9,8 1973 100 43 34,1 83 65,9 126 100

Analisando, separadamente, o uso de serviços de saúde, por sexo (tabelas 4.7 e 4.8), observa-se que, entre as pessoas do sexo masculino, a raça e o sexo do chefe foram as únicas variáveis que não foram estatisticamente significativas (p-valor > 0,05), através do teste de qui-quadrado (2), em relação ao uso de serviços de saúde. Entre as pessoas do sexo feminino, existe diferença estatisticamente significativa (p-valor  0,05) em relação ao uso de serviços de saúde para todas as variáveis.

Tabela 4.7: Distribuição de freqüência da utilização de serviços de saúde segundo o sexo e as demais variáveis do nível do indivíduo

Variáveis

Masculino (M) Feminino (F)

Não usou Usou Total parcial Não usou Usou Total parcial

n % n % n % n % n % n %

Restrição ativ. rot.

M** F**

Com

restrição 9864 92,2 840 7,8 10704 100 10212 87,1 1512 12,9 11724 100 Sem

restrição 143 30,6 325 69,4 468 100 214 32,5 445 67,5 659 100

Faixa etária (anos)

M** F**

4 ou menos 787 79,6 202 20,4 989 100 742 81,1 173 18,9 915 100 5 – 9 888 89,1 109 10,9 997 100 815 88,8 103 11,2 918 100 10 – 14 905 91,6 83 8,4 988 100 932 91,9 82 8,1 1014 100 15 – 24 1873 94,4 111 5,6 1984 100 1848 90,1 202 9,9 2050 100 25 – 49 3789 92,5 306 7,5 4095 100 4041 84,7 732 15,3 4773 100 50 – 64 1199 86,4 189 13,6 1388 100 1280 78,8 344 21,2 1624 100 65 ou mais 566 77,4 165 22,6 731 100 768 70,5 321 29,5 1089 100 Raça

MNS F**

Não branca 3962 90,2 429 9,8 4391 100 4037 85,6 677 14,4 4714 100 Branca 6045 89,1 736 10,9 6781 100 6389 83,3 1280 16,7 7669 100

** P-valor 0,01 * 0,01 P-valor 0,05 NC P-valor 0,05

Tabela 4.8: Distribuição de freqüência da utilização de serviços de saúde segundo o sexo e as variáveis do nível da família

Variáveis

Masculino (M) Feminino (F)

Não usou Usou Total parcial Não usou Usou Total parcial

Escolaridade do chefe M** F**

Sem instrução 874 90,0 97 10,0 971 100 948 84,0 180 16,0 1128 100

A observação dos aspectos sócio-demográficos entre as pessoas com e sem restrição é pertinente para a compreensão do uso, pois pode haver uma mudança na proporção de uso entre as categorias das variáveis sócio-demográficas, quando comparado o grupo de pessoas que têm restrição com o grupo sem restrição, revelando comportamentos diferentes entre os dois grupos de pessoas. Esta mudança de efeito também pode ser observada entre os sexos. Tal fato é introduzido no campo da modelagem estatística através de termos de interação. A apresentação descritiva da mudança na proporção de uso para um determinado aspecto indica preliminarmente a necessidade de investigar a significância estatística dos termos de interação durante o processo de modelagem. O efeito da necessidade de saúde no uso não parece ser modificado pela raça e pelo sexo do chefe da família (figuras 4.5 e 4.8). As figuras 4.3, 4.4, 4.6, 4.7, 4.9, 4.10 e 4.11 sugerem a necessidade de analisar os termos de interação entre a restrição de atividades e as respectivas variáveis:

sexo, faixa etária, tamanho da família, renda familiar per capita, faixa etária do chefe da família, escolaridade do chefe da família e mercado de trabalho do chefe da família.

Figura 4.3: Proporção de uso de serviços de saúde por restrição de atividade rotineira e sexo

Figura 4.4: Proporção de uso de serviços de saúde por restrição de atividade rotineira e faixa etária

0%

Sem restrição Com restrição

Masculino

Sem restrição Com restrição

4 ou menos

Figura 4.5: Proporção de uso de serviços de saúde por restrição de atividade rotineira e raça auto-referida

Figura 4.6: Proporção de uso de serviços de saúde por restrição de atividade rotineira e tamanho da família

Figura 4.7: Proporção de uso de serviços de saúde por restrição de atividade rotineira e renda familiar per capita

Figura 4.8: Proporção de uso de serviços de saúde por restrição de atividade rotineira e sexo do chefe da família

Figura 4.9: Proporção de uso de serviços de saúde por restrição de atividade rotineira e faixa etária do chefe da família

Figura 4.10: Proporção de uso de serviços de saúde por restrição de atividade rotineira e escolaridade do chefe da família

0%

Sem restrição Com restrição

1 pessoa

Sem restrição Com restrição

0.77 ou menos

Sem restrição Com restrição

Masculino

Sem restrição Com restrição

24 ou menos

Sem restrição Com restrição

Não branca

Sem restrição Com restrição

Sem instrução

Figura 4.11: Proporção de uso de serviços de saúde por restrição de atividade rotineira e mercado de trabalho do chefe da família

As figuras 4.12, 4.13, 4.14, 4.15, 4.16, 4.17, 4.18 e 4.19 mostram descritivamente que o efeito do sexo no uso de serviços de saúde é modificado pelas variáveis: faixa etária, raça, tamanho da família, renda familiar per capita, sexo do chefe da família, idade do chefe da família, escolaridade do chefe da família e mercado de trabalho do chefe da família. Entretanto, a raça e o mercado de trabalho do chefe da família fizeram pequenas modificações no efeito do sexo no uso de serviços de saúde.

É pertinente a análise dos termos de interação entre o sexo e as variáveis representadas nas figuras 4.12, 4.13, 4.14, 4.15, 4.16, 4.17, 4.18 e 4.19, pois a análise descritiva dá indícios de que estas variáveis modificam o efeito do sexo no uso dos serviços de saúde.

0%

10%

20%

30%

40%

50%

60%

70%

80%

Sem restrição Com restrição

Empregado Desempregado Fora da população ativa

Figura 4.12: Proporção de uso de serviços de saúde por sexo e faixa etária

Figura 4.13: Proporção de uso de serviços de saúde por sexo e raça auto-referida

Figura 4.14: Proporção de uso de serviços de saúde por sexo e tamanho da família

Figura 4.15: Proporção de uso de serviços de saúde por sexo e renda familiar per capita

Figura 4.16: Proporção de uso de serviços de saúde por sexo e sexo do chefe da família

Figura 4.17: Proporção de uso de serviços de saúde por sexo e faixa etária do chefe familiar

0%

Figura 4.18: Proporção de uso de serviços de saúde por sexo e escolaridade do chefe familiar.

Figura 4.19: Proporção de uso de serviços de saúde por sexo e mercado de trabalho do chefe da família.

4.2. Aplicação do modelo hierárquico logístico

A primeira parte do capítulo 4 apresenta, de forma descritiva, a relação entre as variáveis do estudo e o uso de serviços de saúde, desconsiderando a dependência entre as observações no nível da família. A partir de agora, o nível da família será considerado através de modelos hierárquicos.

Os modelos apresentados nesta seção foram construídos assumindo que o uso de serviços de saúde (Yij) tem distribuição binomial, tal que Yij ~ Bin (1, Pij) com média e variância dadas por E(Yij) = Pij e Var(Yij) = Pij (1- Pij).

No quadro 1, estão representados os modelos construídos durante as etapas da fase de modelagem do uso dos serviços de saúde. As variáveis e interações gradativamente acrescentadas aos modelos foram identificadas neste quadro, assim como os coeficientes estatisticamente significativos (X) e os não significativos (-). As estimativas dos coeficientes dos modelos com os seus intervalos de confiança (95%), utilizados para definir a significância estatística destes coeficientes, estão nas tabelas do Apêndice A. Os intervalos que excluem o valor zero foram considerados estatisticamente significativos com um nível de significância () de 5%.

Os modelos foram comparados utilizando o teste de Wald para a parte fixa (tabela 4.9) e aleatória (tabela 4.10) dos modelos.

O modelo 1 (quadro 1) introduz a restrição de atividades rotineiras, que é uma variável estatisticamente significativa.

Durante a pré-seleção dos termos de interação, foram construídos modelos hierárquicos (intercepto aleatório) separados para cada variável do estudo. Os modelos 2 a 10 incorporaram os termos de interação das respectivas variáveis em relação à restrição de atividades rotineiras e ao sexo.

As interações pré-selecionadas, com pelo menos um coeficiente estatisticamente significativo no quadro 1 ou com um p-valor  0,05 na tabela 4.9, são: restrição de ativ. rot. X sexo do indivíduo (modelo 2); restrição de ativ.

rot. X faixa etária (modelo 3); sexo do indivíduo X faixa etária (modelo 3);

restrição de ativ. rot. X tamanho da família (modelo 5); sexo do indivíduo X renda familiar per capita (modelo 6); restrição de ativ. rot. X idade do chefe da família (modelo 8); sexo do indivíduo X idade do chefe da família (modelo 8);

restrição de ativ. rot. X mercado de trabalho do chefe da família (modelo 10). A interação entre o sexo do indivíduo e a renda familiar per capita também foi pré-selecionada para seguir nas etapas da modelagem do uso, apesar do seu p-valor (tabela 4.9) ser igual a 0.056.

As duas variáveis que compõem os termos de interação de segunda ordem estatisticamente significativos foram incorporadas aos modelos, independente da significância das respectivas variáveis isoladas. Esta abordagem está presente em Kleinbaum (1994) como o princípio de hierarquia, no qual, se um certo termo de interação é significativo, os componentes de

menor ordem não podem ser excluídos do modelo. Tal princípio é distinto do conceito de modelo hierárquico.

A partir de agora foram acrescentadas mais variáveis aos modelos. Na primeira etapa da modelagem (quadro 1), foram construídos os modelos 11,

A partir de agora foram acrescentadas mais variáveis aos modelos. Na primeira etapa da modelagem (quadro 1), foram construídos os modelos 11,

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