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Modelos de acesso lexical em multilíngues

2.4 Hipóteses para o acesso lexical

2.4.2 Modelos de acesso lexical em multilíngues

Nesta seção, discutiremos dois modelos de acesso lexical elaborados para a pesquisa com multilíngues. Incialmente, trataremos do Multilingual Processing Model, desenvolvido por De Bot, em 2004. Em seguida, abordaremos o Dynamic

Model of Multilingualism criado porHerdina e Jessner, em 2002.

O Multilingual Processing Model (MPM) desenvolvido por De Bot, em 2004, objetiva ser um modelo de processamento de vários idiomas (não visa apenas ao processamento em multilíngues, também, pode ser utilizado em pesquisas com bilíngues). Segundo o pesquisador, ainda existem muitas questões sem respostas no que tange à compreensão de como realmente as línguas interagem entre si e entre os componentes do modelo (p. 17).

Além disso, o autor defende a visão de que o acesso lexical é não-seletivo, rechaçando a ideia “localista” de que línguas diferentes seriam armazenadas em caixas diferentes. Segundo De Bot (2004), essa perspectiva não é condizente com a concepção da Psicolinguística, em que todas as línguas são ativadas simultaneamente em paralelo. A fim de confirmar a HSNE das línguas, De Bot (2004) lista uma série de experimentos que corroboram esse ponto de vista como, por exemplo, Neighbourhood effects in word recognition (DIJKSTRA et al., 2002), The

processing of cognates and interlingual homophones / homographs (DIJKSTRA et al., 2000), Eye-tracking studies (MARIAN et al. 2003), entre outros. De Bot (2004) ressalta que: “quando uma língua específica é acionada, o nó de linguagem informa todos os elementos (sintáticos, fonéticos, fonológicos, etc.) referentes ao item a ser ativado” (p. 28), reforçando o postulado de que o acesso não é seletivo.

Segundo De Bot (2004), como as línguas não são completamente desligadas, pode haver uma competição entre os idiomas. Todavia, o autor salienta que nem todas as palavras ativadas têm a mesma chance de sucesso. As línguas de maior frequência e em que os indivíduos apresentam maior grau de proficiência são mais fortemente ativadas, fazendo com que as palavras dessa língua prevaleçam. Faz-se vantajoso destacar que essa concepção propostas por De Bot (2004) corrobora o MCU proposto por MacWhinney (2002, 2005, 2007) e que neste trabalho partimos desse pressuposto. Além disso, De Bot (2004) destaca que os nós de linguagem são capazes de converter a informação acerca da língua selecionada em níveis conceituais. A informação pode ser acumulada e passa a agir como um dispositivo de monitoramento e então determina qual das línguas é o idioma-alvo.

O autor divide o modelo em três: características conceituais, propriedades sintáticas e forma dos elementos (sons, sílabas ou gestos). Dentro de cada um desses compartimentos existem subconjuntos específicos da linguagem. Nesses subconjuntos percebem-se sobreposições das similaridades entre as línguas envolvidas. De Bot (2004) explica que é o nó de linguagem que controla os vários componentes de processamento em relação à língua a ser acessada. A intenção de usar uma língua específica se origina no nível de intenção conceitual e é transmitida para o sistema e ao nó de linguagem. Em seguida, a informação sobre a língua a ser acessada vem de duas fontes: através dos conceitos lexicais e diretamente do nó de linguagem. Desta forma, quando um idioma específico precisa ser acessado, o nó de linguagem fica encarregado de informar todos os componentes relevantes para a seleção do idioma, os componentes nos quais a informação sintática ou as informações a serem selecionadas se encontram. Por fim, a maior ativação levará à seleção de elementos do idioma correto (p. 28-30). O esquema simplificado do MPM pode ser visto na Figura 16.

Figura 16 – Multilingual Processing Model. Fonte: De Bot, 2004

De Bot (2004) encerra suas considerações acerca do MPM afirmando que, apesar dos esforços que já foram feitos, o processo de acesso lexical em multilíngues está longe de ser completamente desvendado. Para que se possa, realmente, conhecer a relação entre as línguas, futuros experimentos deverão ser feitos com participantes falantes de idiomas diversos, que tenham níveis de proficiência bastante variados. O autor acredita que com o auxílio das pesquisas com neuroimagem será possível compreender mais sobre os fenômenos multilíngues.

O segundo modelo para o acesso lexical em multilíngues tem como base a TSD. O Dynamic Model of Multilingualism (DMM) foi desenvolvido por Herdina e Jessner em 2002. Nesse modelo, a aprendizagem de uma língua é vista como turbulenta, irregular e imprevisível (HERDINA e JESSNER, 2002, p. 78). Bastante influenciada pelos postulados de Gleick (1987), considerado o pai da Teoria do Caos, os autores buscaram suas bases científicas nos estudos da Biologia e da Psicologia Cognitiva.

Tendo como uma de suas principais características a mudança, o DMM rebate a ideia de que a mudança é algo que acontece naturalmente através do amadurecimento dos conteúdos mentais predeterminados. Para os criadores do DMM, os sistemas dinâmicos são evolucionários, ou seja, se desenvolvem a partir

dos processos de interação entre o sistema e o ambiente. Herdina e Jessner (2002), também, explicam que a não-linearidade do sistema é um traço bastante importante quando se leva em consideração a aprendizagem de línguas à luz do que propõe a TSD.

Apesar da natureza instável apresentada nos sistemas dinâmicos, Herdina e Jessner (2002) afirmam que, eventualmente, o sistema atinge um estado de equilíbrio, já que a energia que o movimenta vai aos pouco se extinguindo. O caos será novamente instaurado quando uma nova energia entrar no sistema. Um exemplo prático da perda de energia dá-se quando um aprendiz não investe tempo suficiente em determinada tarefa ou atividade relacionada à aprendizagem da língua. Ainda, os autores chamam a atenção para o fato de os sistemas serem interdependentes, ou seja, de as línguas não serem completamente autônomas.

Na próxima seção, apresentaremos o efeito de priming, de forma a esclarecer quais são os mecanismos imbricados nessa metodologia. Também, abordaremos as questões relacionadas à influência das supostas semelhanças grafo-fônico- fonológica e os graus de proficiência.

2.5 Relação entre o acesso lexical através do efeito de priming grafo-fônico-