3. Fadiga Oncológica, Auto-Regulação do Comportamento e Coping
3.3. Modelos de Base: Auto Regulação do Comportamento e Coping
Os modelos teóricos em Psicologia da Saúde procuram estabelecer relações entre comportamento, saúde e doenças. Organizam e integram o conhecimento da especialidade e guiam a investigação, relacionando promoção e protecção da saúde com prevenção e
tratamento de doenças. Os modelos teóricos em Psicologia da Saúde relacionam promoção da QoL com alterações comportamentais, realçando o papel das crenças individuais sobre a saúde, na adopção e práctica de comportamentos relacionados com a saúde e a doença. São os modelos que estabelecem e explicam a relação entre pensamento e comportamento quer em contextos de saúde quer em contextos de doença, interligando-se várias variáveis como modificação e controlo dos comportamentos, crenças, atitudes e valores individuais e colectivos.
De maneira a compreender a FO, este estudo baseia-se em 2 modelos teóricos: o modelo de auto-regulação do comportamento de doença (Leventhal et al., 1980; Leventhal, Prochaska, & Hirschman, 1985; Leventhal et al., 1997; Leventhal et al., 2001) assente no princípio de que perante a perda de equilíbrio o sujeito procura recuperá-lo, de forma a manter o status-quo pela adopção de estratégias de coping após confrontar-se e interpretar a situação de perigo; e o modelo de Moos e Schaefer (1984) assente no princípio de que o sujeito avalia cognitivamente a situação crítica, adopta tarefas adaptativas e competências de coping de forma a obter resultados concordantes com a superação da crise (Lazarus & Folkman, 1984; Lazarus, 1992).
Sustentadamente a investigação (Leventhal et al., 1980; Leventhal et al., 1985; Leventhal et al., 1997; Leventhal et al., 2001) defende o princípio que perante a perda de equilíbrio, ou sua possibilidade (e entenda-se que a situação de fadiga oncológica remete para a perda de equilíbrio), o sujeito procura recuperá-lo, em nome da manutenção do status quo e da regulação do self, passando por 3 fases. Numa primeira fase (Interpretação) o sujeito confronta-se com um perigo (pode ser a doença oncológica com tratamento em radioterapia) que procura interpretar emocionalmente e através de 5 dimensões de crenças (identidade, diagnóstico e percepção de sintomas; causa percepcionada da doença; dimensão temporal da doença; consequências; e possibilidade de cura e controlo da situação crise). Estas 5 dimensões influenciam a percepção dos factos e formam-se com base em mensagens sociais absorvidas (o que se ouve da parte de técnicos de saúde e do sistema leigo de referências que cerca o sujeito), com base em estímulos internos (resposta emocional e funcionamento corporal) e ambientais. Igualmente, as 5 dimensões permitem um esquema para o coping baseado na compreensão da doença. Numa segunda fase (Passagem à Acção) o sujeito adopta estratégias que, de acordo com a anterior interpretação subjectiva dos factos, lhe parecem alcançar o equilíbrio desejado: elege estratégias de coping de aproximação (ex: submete-se à radioterapia) ou estratégias de coping de evitamento (ex: nega o estado actual e recusa o tratamento).Numa terceira fase (Reflexão Avaliativa) o sujeito avalia o resultado da estratégia de coping adoptada (sua eficácia) e caso verifique ineficácia regressa à fase primeira.
Moos e Schaefer (1984) ao explicar como lidam os pacientes com a crise (passam à acção) referem que primeiramente há a avaliação cognitiva da gravidade e do significado da doença, da informação obtida, da experiência anterior e do apoio social disponível, integrando cognições sobre a situação crise. Após essa avaliação o sujeito elege tarefas adaptativas (que passam pelo lidar com a dor e outros sintomas; lidar com ambiente hospitalar e procedimentos médicos; manter a relação com os profissionais de saúde, familiares e amigos; manter o equilíbrio emocional, a auto imagem e competências; lidar com um futuro incerto (Ogden, 2004) e consequentemente recorre a competências de coping (que pode ser uma estratégia de ajustamento focada na compreensão da doença e busca de significado; um ajustamento focado no problema e sua resolução; um ajustamento focado no controlo emocional). Assim, todo o processo de doença oncológica e tratamento por radioterapia pode ser entendido pelo paciente como uma situação de crise perante a qual há uma avaliação cognitiva geradora de tarefas adaptativas (específicas à doença e ao tratamento e mais generalizadas) e de competências de
coping quer focadas na avaliação do problema, quer focadas nas emoções. O coping reflete a
estratégia usada pelo paciente para facilitar a gestão do processo oncológico, sendo que existem, essencialmente, 2 estratégias de coping: um focado no problema e outro nas emoções. No coping focado no problema o paciente procura activa e directamente eliminar/controlar/gerir o problema procurando informação e fixando objectivos, refere-se à capacidade do indivíduo reduzir e controlar as exigências da situação stressante e expandir os seus recursos para a enfrentar. Este coping parece ser mais eficaz quando as circunstâncias são controláveis, sendo normalmente adoptado em fases iniciais da doença. No coping focado nas emoções o paciente foca-se nas suas reacções ao problema (pensamento positivo, aceitação, negação e supressão de emoções), refere-se ao controlo que o indivíduo possui sobre a resposta emocional desencadeada pela situação stressante. Esta estratégia parece ser mais eficaz quando a situação é incontrolável e normalmente é adoptada em fases paliativas.
Segundo Lazarus e Folkman (1984) o coping é definido como o conjunto de esforços, cognitivos e comportamentais, empreendidos pelo sujeito no sentido de resolver, tolerar, reduzir ou minimizar as exigências externas ou internas com as quais o sujeito se confronta e que excedem os seus recursos pessoais.
A avaliação que o sujeito faz da situação permite-lhe escolher a estratégia de coping a adoptar, não havendo um padrão específico pois a avaliação que o sujeito faz do momento pode ir mudando ao longo do tempo. Várias estratégias de coping são referidas pela literatura (Felgueiras, 2008): negação e evitamento; ajuda/apoio e esperança; espírito de luta; ansiedade e depressão; aceitação e fatalismo estóico; estratégias de coping focalizadas no problema; estratégias de coping focalizadas nas emoções; a busca de apoio e suporte social.
Os modelos de auto-regulação do comportamento de doença (Leventhal et al., 1980; Leventhal et al., 1984; Leventhal et al., 1997; Leventhal et al., 2001) e o modelo de Moos e Schaefer (1984) auxiliarão neste estudo, contribuindo para melhor compreender o ajustamento, de pacientes com e sem FO, ao processo de tratamento por radioterapia, tendo por base a presença ou ausência da Intervenção em Gestão do Stress Cognitivo- Comportamental. Ou seja, através da análise e avaliação das estratégias de coping usadas por cada grupo em estudo, compreender-se-á como é que cada grupo de pacientes gere a discrepância entre as exigências da situação doença oncológica/tratamento e os recursos pessoais para a enfrentar: como a ela se ajusta.
Tal como afirma Bennett (2002) continua a ser pertinente investir nas intervenções psico-oncológicos que visam melhorar as estratégias de ajustamento e adaptação à doença, beneficiando as respostas de sistemas fisiológicos responsáveis pelo stress e que parecem ter particular relevância na sobrevivência dos doentes oncológicos.