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4 DESENVOLVIMENTO

4.3 Processo de biodigestão

4.3.2 Modelos de biodigestores

Os biodigestores são equipamentos utilizados para a biodigestão dos compostos orgânicos e produção de biogás. Segundo Deganutti (2002), o biodigestor consiste em uma câmara fechada onde o material orgânico é colocado em solução aquosa para sofrer decomposição e gerar o biogás, o qual irá se acumular na parte superior da câmara. Atualmente há uma grande gama de modelos de biodigestores, cujo uso varia com a adaptação necessária para cada caso.

No Brasil os biodigestores rurais tiveram maior desenvolvimento na década de 80 quando contaram com grande apoio dos Ministérios da Agricultura e de Minas e Energia (ANDRADE, 2002). Cerca de 8.000 unidades, principalmente os modelos chinês e indiano, além de alguns de plástico tinham sido construídos até 1.988, dos quais 75% estavam funcionando adequadamente (COELHO et al, 2000).

De acordo com Andrade (2002), a difusão da tecnologia dos biodigestores no Brasil enfrenta dificuldades decorrentes de: escassez de recursos financeiros, custo relativamente elevado dos biodigestores, falta de mentalidade relacionada com a importância de um programa de formação de recursos humanos para dar apoio à sua implantação e manutenção e desenvolvimento de tecnologia alternativa quanto ao projeto e materiais de construção a serem utilizados. Os modelos de biodigestores mais empregados hoje no Brasil e no mundo foram

desenvolvidos e aperfeiçoados na China e na Índia (OLIVEIRA, 2009). De acordo com Gaspar (2003), dentre os biodigestores de sistema de abastecimento contínuos mais difundidos no Brasil estão os modelos chinês e indiano. Por isso, alguns dos modelos mais comuns no Brasil continuam sendo o modelo indiano, o chinês e o modelo em batelada quando a disponibilidade de resíduo ocorre em períodos mais longos.

Segundo Deganutti (2002), o modelo indiano consiste em um biodigestor contínuo caracterizado por uma campânula como gasômetro e uma parede central que divide o tanque de fermentação em duas câmaras para que o material circule por todo o interior da câmara de fermentação. De acordo com Deganutti (2002), essa campânula pode estar mergulhada sobre a biomassa em fermentação ou em um selo d’água externo visto que ambos os posicionamentos reduzem as perdas durante o processo de produção de gás.

O modelo indiano é um biodigestor contínuo que trabalha com uma pressão de operação constante, pois o gasômetro tende a se deslocar verticalmente de forma a regular o volume à medida que o volume de gás produzido não é imediatamente consumido, o que mantém a pressão constante de forma similar a um êmbolo.

A concentração de sólidos totais do resíduo utilizado como alimentação do digestor não deve ultrapassar 8% para evitar entupimentos dos canos de entrada e saída do material e também para facilitar o fluxo deste pelo interior da câmara de fermentação. O abastecimento desse resíduo deve ser constante e em meios rurais são utilizados os dejetos de bovinos e/ou suínos, os quais podem prover um fornecimento regular.

A construção deste modelo é fácil, porém o gasômetro metálico encarece o custo final, assim como possíveis distâncias maiores para o transporte da carga de resíduos, o que pode inviabilizar a implantação do modelo.

Na Figura 5, é possível observar maiores detalhes do modelo. E na Figura 6, em seguida, está uma representação tridimensional do modelo indiano.

Figura 5 – Representação em corte da vista frontal de um biodigestor de modelo indiano.

Fonte: Adaptado de Deganutti (2002)

Onde as variáveis demonstradas na figura são definidas por: H - Altura do nível do substrato;

Di - Diâmetro interno do biodigestor; Dg- Diâmetro do gasômetro;

Ds- Diâmetro interno da parede superior; h1- Altura ociosa (reservatório do biogás); h2- Altura útil do gasômetro.

a- Altura da caixa de entrada.

Figura 6 – Representação tridimensional em corte do modelo indiano

Fonte: Deganutti (2002)

O modelo chinês é formado por uma câmara cilíndrica em alvenaria (tijolo) para a fermentação, com teto abobadado, impermeável, destinado ao armazenamento do biogás (DEGANUTTI, 2002).

O funcionamento desse biodigestor tem como base o princípio da prensa hidráulica, ou seja, quando há um aumento da pressão interna devido ao acúmulo de biogás ocorre um deslocamento do efluente da câmara de fermentação para a caixa de saída, assim como acontece o deslocamento em sentido contrário durante uma descompressão.

Este modelo, assim como o indiano, funciona com a alimentação contínua do substrato, cuja concentração de sólidos também não deve ultrapassar 8% para facilitar a circulação do material e evitar possíveis entupimentos do sistema de entrada.

Este tipo de biodigestor libera uma parte do gás para a atmosfera para reduzir parcialmente a pressão interna do gás e, por isso, não é utilizado em instalações de grande porte. Por ser constituído quase que totalmente em alvenaria e dispensar o uso do gasômetro em placa de aço, o modelo chinês tem um custo menor, mas infelizmente também exige maiores cuidados com vedação e impermeabilização da estrutura para evitar problemas de vazamento do biogás.

Na Figura 7 é possível observar os principais elementos de um biodigestor neste modelo vista frontal. Na Figura 8 tem-se a representação tridimensional.

Figura 7 - Representação em corte da vista frontal de um biodigestor no modelo chinês.

Fonte: Adaptado de Deganutti (2002)

Onde as variáveis demonstradas na figura são definidas por: D - é o diâmetro do corpo cilíndrico;

H - é a altura do corpo cilíndrico; hg - é a altura da calota do gasômetro; hf - é a altura da calota do fundo;

Of - é o centro da calota esférica do fundo; Og - é o centro da calota esférica do gasômetro; he - é a altura da caixa de entrada;

De - é o diâmetro da caixa de entrada; hs - é a altura da caixa de saída; Ds - é o diâmetro da caixa de saída; A - é o afundamento do gasômetro;

Figura 8 - Representação tridimensional em corte do modelo chinês.

Fonte: Deganutti (2002)

De acordo com Lucas Júnior (1984), o modelo indiano demonstrou ser ligeiramente mais eficiente na produção de biogás e na redução de sólidos no substrato do que o modelo chinês (Tabela 1), embora os dois modelos contínuos possuam desempenho similar ao operar com esterco bovino. #atualizar?

Tabela 1 - Desempenho de biodigestores modelo Indiano e Chinês, com capacidade de 5,5 m³ de biomassa, operados com esterco bovino.

Biodigestor

Modelo Chinês Modelo Indiano

Redução de Sólidos (%) 37 38

Produção média

(m³.dia-1) 2,7 3,0

Produção média

(L.m-3 de substrato) 489 538

Fonte: Lucas Júnior (1984)

De acordo com Barrera (2003), para as condições climáticas da maior parte do Brasil, a menor capacidade de aproveitamento da produção de gás do modelo chinês é insignificante. O Quadro 3 apresenta uma comparação de características entre os modelos indiano e chinês.

Quadro 3 – Comparação de características entre os modelos contínuos indiano e chinês.

Indiano Chinês

Materiais Tijolo, cimento, pedra, areia, ferro ou alumínio.

Tijolo, cimento, pedra e areia.

Isolamento térmico Tem perdas de calor pela câmara de gás metálica,

difícil de isolar. Menos indicado para climas

frios.

Feito dentro da terra: bom isolamento natural, a temperatura constante

Perda de gás Sem problemas. A parte superior deve ser protegida com materiais

impermeáveis e não porosos; difícil obter construção estanque. Manutenção A câmara de gás deve

ser pintada uma vez ao ano.

Deve ser limpo uma ou duas vezes ao ano.

Produtividade Tempo de digestão 40-60 dias, produção 400 a 600 L/m3/dia. Tempo de digestão 40-60 dias; produção de 150 a 350L por m3 do volume do digestor/dia. Se for perfeitamente estanque

pode produzir até 600 L/m3/dia

Custo Mais caro (depende do custo da campânula).

Razoável se for possível a ajuda mútua

Fonte: Adaptado de Barrera (2003)

O biodigestor em batelada é um sistema simples com pouca exigência operacional, composto por um tanque anaeróbio ou por diversos tanques em série.

Segundo Deganutti (2002), o modelo em batelada é totalmente abastecido e mantido em fermentação por um período conveniente e após o término do período efetivo de produção de biogás o material pode ser descarregado, lavado e reabastecido.

O modelo em batelada atende principalmente as necessidades de propriedades cuja disponibilidade de biomassa ocorre em períodos mais longos, inviabilizando sistemas contínuos como o modelo indiano ou o chinês.

A representação do biodigestor modelo em batelada pode ser observada na Figura 9, seguida também pela representação tridimensional na Figura 10. Figura 9 - Representação em corte da vista frontal de um biodigestor em batelada.

Fonte: Adaptado de Deganutti (2002)

Onde as variáveis (Figura 9) são definidas por: Di é o diâmetro interno do biodigestor;

Ds é o diâmetro interno da parede superior; Dg é o diâmetro do gasômetro

h1 é a altura ociosa do gasômetro; h2 é a altura útil do gasômetro;

h3 é a altura útil para deslocamento do gasômetro;

b é a altura da parede do biodigestor acima do nível do substrato; c é a altura do gasômetro acima da parede do biodigestor.

Figura 10 - Representação tridimensional em corte do modelo em batelada.

Fonte: Deganutti (2002)

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