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Modelos de democracia

No documento Valéria Cristina Castanho de Almeida (páginas 34-41)

2. DEMOCRACIA, REPRESENTAÇÃO E PARLAMENTO

2.1 DEMOCRACIA: BASES CONCEPTUAIS E TIPOS

2.1.2 Modelos de democracia

Existem diferentes modelos de democracia, conforme a época, as doutrinas e o nível de representatividade. Uma parte considerável dos autores define democracia em três categorias:

democracia direta, indireta e semidireta, esta última sendo uma combinação das duas primeiras. Mas David Held (1987), no clássico livro Models of democracy, optou por adotar somente duas categorias mais amplas, de acordo com o nível de participação ou intervenção do cidadão nas decisões políticas:

democracia direta ou participativa e liberal ou representativa.

O autor descreve a democracia direta ou participativa como “um sistema de tomada de decisões sobre assuntos públicos no qual os cidadãos estão diretamente envolvidos” e a democracia liberal ou representativa como “um sistema de governo que envolve 'oficiais’ eleitos que tomam para si a tarefa de ‘representar’ os interesses e/ou pontos de vista dos cidadãos dentro do quadro de referência do ‘governo de lei’" (Held, 1987, pp. 4-5).

O primeiro dos conceitos está historicamente relacionado com a Grécia antiga, especialmente com o sistema político implantado em Atenas, como será visto mais adiante. Na sociedade contemporânea, em geral, a democracia participativa é garantida por meio de dispositivos constitucionais, como são exemplo o voto, a iniciativa popular, o referendo e o plebiscito, que permitem ao cidadão participar no processo político para além da eleição. Na democracia liberal ou representativa, os representantes são eleitos para tomar decisões em nome daqueles que os elegeram para os representar. Nesse sistema, a participação do povo é limitada, porque os negócios políticos ficam a cargo dos profissionais eleitos para um mandato por tempo determinado.

Em relação à participação política, a diferença básica entre os dois sistemas é que, em síntese, na democracia liberal, o cidadão tem a participação limitada à seleção dos representantes no período eleitoral, enquanto no modelo participativo, a participação vai além do sufrágio universal, implicando o envolvimento dos indivíduos também noutras decisões políticas.

Percebe-se que Held (1987), ao classificar apenas dois modelos principais, em vez de três, como é usualmente abordado na literatura, exclui o modelo semidireto como categoria, mas inclui-o na definição do modelo direto (povo), ao lado do indireto (representativo). Dessa forma, o autor reconhece, logo à partida, ao contrário de outros autores (que o fazem em outros momentos), que o modelo semidireto acaba por ser o modelo direto possível, devido à impossibilidade de existência de um modelo puramente direto. Assim, a divisão em apenas dois modelos demonstra ser mais racional, pois já define os modelos direto e participativo como sinónimos, reconhecendo, de antemão, que o modelo

direto é impossível de se realizar no formato idealizado pelo filósofo Jean-Jacques Rousseau (1762/2002), em que cada cidadão deveria representar-se a si mesmo, sem intermediários.

Mesmo no ambiente legislativo, instituição que representa a vontade do povo, o ideal democrático de auto-governo direto pela sociedade torna-se inexequível devido à impossibilidade de que cada indivíduo possa, isoladamente e de forma autónoma, participar da tomada de decisão política. A representação política, dessa forma, é o meio viável possível de expressão da vontade do povo.

Embora, para efeitos desta tese, o que mais interessa sejam os dois modelos mais amplos de democracia, Held (1987) destaca, no seu livro, que o objetivo central da obra não é tratar, especificamente, dos modelos diretos e liberal, mas de um abrangente leque de oito modelos construídos a partir desses dois principais. Essas oito categorias são divididas, pelo autor, em dois períodos históricos: clássico e contemporâneo, cada um com quatro modelos.

Os quatro modelos clássicos são divididos em: a democracia da antiga Antenas, dois modelos liberais (democracia protetora e democracia desenvolvimentista) e o conceito marxista de democracia direta. Dentro dos modelos contemporâneos, encontram-se a democracia competitiva elitista, o pluralismo, a democracia legal e a democracia participativa, que são, conforme destaca Held (1987), os que geram “intensas discussões e conflitos políticos” (p. 4)

O autor explica porque divide as duas categorias principais (direta e liberal) em oito, em vez de, simplesmente, se restringir a essas duas principais:

Há muito ainda a se aprender, por exemplo, sobre as diferenças entre a democracia clássica, a democracia desenvolvimentista radical, a democracia direta e a democracia participativa, ainda que elas todas possam ser rotuladas como um tipo de ‘democracia direta’. Concentrar-se nelas meramente como forma desta última é correr o risco de não perceber divergências significativas entre elas, divergências que justificam um sistema classificatório mais complexo. Um argumento similar pode ser usado acerca das “variantes” da democracia liberal. O contexto de sua utilização deverá esclarecer quaisquer ambiguidades sobre o tipo de democracia que for o tema da discussão e as similaridades e diferenças entre elas. (Held, 1987, p. 5)

Para melhor entender o sistema democrático, a representatividade e a participação política na sociedade contemporânea, é preciso reportar-se aos valores democráticos da antiga Grécia, geralmente referenciada na literatura clássica como o berço da democracia. No modelo democrático ateniense, todos os cidadãos tinham igual direito de discutir e decidir sobre assuntos públicos. Eram

necessários 40 encontros por ano e um quórum mínimo de 6 mil cidadãos para que a reunião, em praça pública (ágora) tivesse início (Held, 1987).

Embora a democracia direta seja o termo mais amplamente utilizado para definir aquelas reuniões, a igualdade política estava ligada a um conceito muito restrito de cidadão, que considerava somente homens brancos atenienses com mais de 20 anos. Mulheres, vassalos15, imigrantes e escravos, que somavam a maioria da população ateniense, não tinham qualquer direito à participação.

Para se ter uma ideia do que a exclusão dessas categorias significa, calcula-se que havia, na época, cerca de 80 a 100 mil escravos em Atenas, numa proporção de dois escravos para cada três cidadãos (Held, 1987). Portanto, o modelo grego de democracia direta, em que os cidadãos votavam de mãos levantadas, nas antigas ágoras, só pode ser reconhecido como tal conforme os padrões específicos de sociedade daquela época. Também é importante ressaltar, conforme bem lembra Manin (1997), que já naquela época existia um sistema representativo com forte poder de decisão, até mesmo acima das deliberações da assembleia de cidadãos.

Mesmo além dos magistrados, três outras instituições além da Assembleia, nomeadamente o Conselho, os tribunais, e os nomothetai, exerciam uma função política de grande importância. Os tribunais populares e o Conselho merecem particular atenção. Ambas as instituições desempenharam um papel fundamental em toda a história da democracia ateniense. Certos poderes dos tribunais eram considerados como decisivos (Kyriori), notadamente na capacidade de anular decisões da Assembleia. (Manin, 1997, p. 24)

Pode-se concluir, a partir do exposto, que a democracia ateniense, ainda hoje citada como exemplo de um sistema no qual todos tinham direitos iguais, não tinha, na verdade, poder decisório, pressuposto necessário para a existência de uma democracia direta. Por esse motivo, ainda hoje é discutível se Atenas pode ser realmente considerada uma democracia, mas “inquestionavelmente, a política da antiga Atenas repousava sobre uma base altamente democrática” (Held, 1987, p. 23).

Na democracia liberal protetora, as instituições democráticas eleitas assumiam o papel de proteção e defesa dos interesses dos cidadãos, que ficavam livres para se dedicarem às suas atividades privadas. Cabia ao Estado, segundo Held, garantir uma estrutura de governo para assegurar a proteção dos cidadãos, e, em relação aos representantes, fiscalizar o cumprimento dos deveres do Poder Executivo. Portanto, pode-se concluir que a política era uma esfera separada da sociedade.

15 Vassalo foi um termo que existiu durante a Idade Média para designar um indivíduo que se tornava devedor de um nobre superior que tenha lhe concedido algum tipo de benefício. Em troca do favor, o vassalo tornava-se subordinado do soberano, fazendo-lhe um juramento de absoluta fidelidade e prometendo cumprir as ordens impostas.

Na democracia liberal desenvolvimentista, o cidadão não devia deixar o Poder Público totalmente nas mãos dos governantes. Cabia ao indivíduo informar-se e envolver-se mais diretamente na política para garantir o comprometimento dos representantes eleitos com os assuntos públicos, com foco no desenvolvimento da sociedade. Essa corrente defendia uma interferência mínima do Estado e a emancipação política das mulheres para que também pudessem participar na discussão de temas de interesse público.

A quarta modalidade de democracia clássica, a direta marxista, que Held (1987) denominava como “o fim da política”, previa o desenvolvimento de uma estrutura sem distinções entre classes sociais e exploração do trabalhador. Esse modelo defendia uma revolução, que se iniciaria com a implantação do socialismo, mas que depois se concretizaria como comunismo, rompendo totalmente com as tradições anteriores.

Nesse tipo de democracia, explica Held (1987), a sociedade viveria numa espécie de cooperativa autorregulada e sem a existência de um poder político organizado; ou seja, do Executivo, Legislativo e Judiciário. Os defensores dessa ideologia não acreditavam que o sistema capitalista fosse compatível com um governo democrático, porque a estrutura de classes privilegiava somente a classe dominante e/ou governante. Do outro lado, a classe subordinada era explorada por não deter o controle dos meios de produção, poder político e económico.

Na civilização moderna e industrial de massas do início do século XX, alguns autores com visões mais negativas da sociedade e do desenvolvimento tecnológico não viam muito espaço para o desenvolvimento coletivo e a participação democrática defendidos pelo modelo marxista. A democracia direta arquitetada pelo Marxismo e implantada numa sociedade altamente heterogénea poderia levar, nas palavras de Held (1987), “a uma administração ineficaz e a uma ineficiência indesejada, à instabilidade política, e em última instância, a um aumento radical na possibilidade do governo opressivo de minorias” (p. 136).

Para evitar a ocorrência dessas possibilidades, surgiu o “elitismo competitivo16”, que defendia, conforme Held (1987), a legitimidade do Estado no Capitalismo, por meio de partidos rivais e competitivos, e a eleição de um parlamento constituído por uma elite treinada tecnicamente para lidar com o cargo e o poder. O cidadão, nesse modelo, é retratado como isolado e vulnerável ao poder da elite.

Com a centralidade do poder nas mãos da elite e sem uma sociedade organizada, o modelo de democracia pluralista surge como proposta de um poder descentralizado e disperso numa enorme variedade de grupos de interesses e status económicos e/ou sociais distintos, todos convivendo com base em direitos garantidos constitucionalmente. Esse modelo opõe-se a qualquer tipo de monopólio de poder e centralização da decisão política, os quais restringem a atuação do cidadão ao momento eleitoral, de acordo com um formato vertical de poder. Na proposta pluralista, o poder dá-se, conforme explica Held (1987), através de um processo de negociação entre os mais variados grupos de interesses, num modelo político saudável e horizontal, que estimula o empenho e o envolvimento dos cidadãos em associações e organizações da sociedade civil.

Nesse modelo, a sociedade, por meio de partidos políticos, associações de estudantes, associações feministas, sindicatos, organizações comercias, templos religiosos e diversas categorias profissionais diferentes são impulsionados a colaborarem entre si na resolução de problemas, reduzindo, dessa forma, o poder centralizador do governo. Embora essa corrente procure assegurar um governo das minorias, por outro lado, conforme explica Held (1987), também propicia uma distribuição inadequada do poder, em especial porque, com tantos grupos e opiniões diferentes, torna-se difícil que o governo atenda a todos.

A democracia legal, também chamada modelo da Nova Direita, surge, conforme define Held (1987), como proposta para restaurar a ordem liberal. Trata-se do modelo clássico de democracia liberal com governo representativo. As premissas dessa corrente são baseadas nas regras da lei, que deve limitar a atuação tanto do Estado quanto da sociedade, com o objetivo de garantir a liberdade e as iniciativas individuais na área política e económica. O governo deve ser o da maioria, com interferência mínima do Estado; e os grupos de interesse, que ganham poder na corrente pluralista, passam, com base nesta visão, a ter um papel minimizado, com redução também de qualquer tipo de ameaça advinda do coletivismo.

Em oposição ao modelo de democracia legal da Nova Direita, surge a democracia participativa, da Nova Esquerda, que reduz a participação nos movimentos socias e limita a participação política ao período eleitoral, pois é o que a lei prevê. O modelo participativo defende que a liberdade e a igualdade reivindicadas pela sociedade só poderiam ser conquistadas por meio de uma sociedade que conhece o processo político e dele participa diretamente.

Nesse modelo experimental, o Estado deve cumprir, conforme explica Held (1987), o papel de estimular a participação política no processo de tomada de decisão e na regulamentação de instituições-chave da sociedade, disponibilizando recursos efetivos para garantir o acesso de

oportunidades iguais para todos. Com esse objetivo, um dos focos da corrente em questão é a garantia de sistemas responsáveis por acolher e cuidar das crianças, para que as mulheres tenham oportunidades iguais às dos homens de participar na política.

Ao comparar os dois últimos modelos, Held (1987) explica que o liberalismo, ao defender o individualismo e a participação política limitada ao período eleitoral, é radicalmente oposto ao modelo participativo, que defende o envolvimento coletivo no processo político. No entanto, têm em comum a luta contra o arbítrio e o excesso de regulamentação do Estado.

Embora se diga favorável à participação política no processo de tomada de decisões em várias áreas, Held (1987) garante não ser adepto de nenhum dos modelos existentes, porque não acredita que algum deles garanta, isoladamente, as condições necessárias para o desenvolvimento de um sistema realmente democrático. “Parte do meu enfoque no acesso dos ‘modelos de democracia’

envolve considerar não apenas o que a democracia tem sido e é, mas também o que ela poderia ser”

(p. 7).

Não satisfeito com as categorias apresentadas, o autor em análise arrisca-se a formular um modelo próprio, com base nas aspirações em comum da democracia legal e da participativa e no

“princípio de autonomia17” e “independência”. No modelo heldiano, todos os cidadãos possuem igual direito de participar nos assuntos públicos, mas é preciso respeitar também os que não desejam participar. “O liberalismo e o marxismo podem ter dado prioridade à ‘autonomia’, mas diferem radicalmente sobre como assegurá-la e, portanto, interpretá-la18” (Held, 1987, p. 246). Para o pensador, nenhuma das duas correntes conseguiu explicar as barreiras impostas, para que a participação na vida democrática fosse plena.

Com o objetivo de concretizar um princípio de autonomia capaz de garantir um governo democrático, Held (1987) propõe um processo de “dupla democratização”, ou seja, uma transformação interdependente do Estado e da sociedade, de forma a que ambos se tornem a condição para o desenvolvimento democrático um do outro. Nesse processo, os cidadãos teriam obrigações uns com os outros, e o Estado teria responsabilidade para com a coletividade, em geral.

Para que isso ocorresse, seria necessário, conforme especifica Held (1987), que a justiça, observando

17 Held (1987, p. 244) define autonomia como a capacidade dos seres humanos de razão autoconsciente serem autorreflexivos e autodeterminantes. Este conceito envolve a capacidade de deliberar, escolher e agir de acordo com diferentes linhas de ação, tanto na vida privada quanto na pública.

18 Segundo Held “Se a falha central do liberalismo é ver os mercados como mecanismos ‘sem poder’ de coordenação e, portanto, negligenciar – como

a lei, fosse igual para todos, garantindo aos cidadãos condições para agir contra o Estado quando fossem impedidos de exercer a liberdade.

A atuação do princípio de autonomia, ao redor de um processo de “dupla democratização”, produz um modelo de Estado e de sociedade que eu gostaria de chamar de “autonomia democrática” (ou “socialismo liberal”). [...] O modelo consiste de algumas propostas que, juntas, poderiam criar as condições para a defesa e desenvolvimento da democracia nas circunstâncias contemporâneas.

(Held, 1987, p. 260)

Nesse modelo, segundo Held (1987), seria necessário repensar o conceito de igualdade para estabelecer condições iguais para todos, porque as desigualdades impedem ou limitam uma adequada tomada de decisões. Para ele, a igualdade política não é possível sem uma justiça distributiva e a redução dos privilégios, com restrições claras à propriedade privada, um dos requisitos necessários para o funcionamento desse novo sistema.

A diferença entre o modelo proposto e os demais já existentes, explica Held, “é um compromisso fundamental com o princípio de que a liberdade de alguns indivíduos não deve ser permitida às custas de outros, onde os outros são, frequentemente, a maioria dos cidadãos” (Held, 1987, p. 267). O modelo da “autonomia democrática” permite que todos tenham o direito de se dedicarem à política, com base numa sociedade que preze o respeito das leis e da autoridade.

Na prática, o que existe hoje, em grande parte do globo, é uma democracia representativa, e, dependendo do sistema de governo (parlamentar, presidencialista ou ditador), algumas atividades mais participativas; ou seja, de participação cidadã para além das eleições. Em sistemas puramente ditatoriais, pelo contrário, o povo nem sequer tem direito ao voto e, embora existam sistemas representativos, na prática funcionam apenas como um poder figurativo, criado para chancelar os atos do ditador.

Esta breve descrição dos oito modelos de democracia, com base na visão de Held (1987), foi realizada com a finalidade principal de demonstrar o quão abrangente e difícil pode ser a definição de sistema democrático, motivo pelo qual nunca foi possível obter um conceito exato para o vocábulo.

Nesta tese, no entanto, a preocupação não é com as diversas tipologias que podem surgir a partir do termo democracia, mas sim estudar a participação política online com base nos dois principais modelos: a democracia participativa (que, aqui, se entende como a democracia direta possível, embora seja necessário reconhecer que há controvérsias a respeito de ser ou não considerada como direta) e a democracia liberal ou representativa. Não se pretende tratar esses dois amplos modelos como excludentes, mas como complementares, como será apontado no decorrer desta tese.

No documento Valéria Cristina Castanho de Almeida (páginas 34-41)