• Nenhum resultado encontrado

Modelos de Desenvolvimento Caboverdiano (1975-2016)

Neste ponto trataremos o modelo de desenvolvimento caboverdiano, particularmente os sucessivos Planos Nacionais de Desenvolvimento (PND), começando pelo primeiro, lançado no ano de 1982. Entre a independência e o lançamento desde primeiro plano, o país rapidamente evoluiu para um modelo MIRAB. Este modelo, particularmente dependente de receitas e exportações de bens e serviços e de transferências unilaterais (Sarmento, 2008:173), é caracterizado por uma crescente taxa de urbanização, consumo decrescente e um ligeiro crescimento da agricultura.

Face a tais debilidades, a resposta governamental e do partido PAICV77, nasce na forma de

um plano, ou estratégia: o 1º Plano Nacional de Desenvolvimento (1982-1985). Este alertava desde logo para as dificuldades que o país enfrentava, não só as que derivam de uma independência recente, como as que advêm de uma localização periférica face ao continente africano, e da dispersão geográfica do arquipélago.

O PND apresentava como medidas concretas a aposta na indústria, primeiro no mercado interno e depois no externo, e tinham como objetivo atuar nas áreas prioritárias identificadas pelo governo, isto é, essencialmente criar condições de base que permitissem escapar ao modelo 77 Partido Africano para a Independência de Cabo Verde.

MIRAB. Contudo, a dependência face à ajuda externa manteve-se como principal, e quase única, fonte de acumulação.

Já o 2ª PND (1986-1990) reunia como principais objetivos criar uma base económica sólida de forma a permitir estabilizar a produção, e, como medidas concretas, apontava já para uma preocupação social clara, com intenções de equidade social, criação de emprego e construção de infraestruturas. Dois modelos que na teoria e na prática seguiam um modelo económico e social pró-soviético isolacionista.

Se entre 1975 e 1991 o Turismo não era um dos eixos prioritários da economia para a classe política, a partir de então, com as primeiras eleições multipartidárias vencidas pelo MpD, esta atividade é encarada como a alavanca ideal para o futuro económico e social do país. Algo que se vê refletido nos vários planos que se foram desenhando, em particular desde o 3º PND (1991-1995). Este demonstra uma aposta no mercado externo, numa dinâmica que procurava inserir o país no mercado global através do incentivo do investimento privado e liberalização da economia.

No 4º PND (1997-2000) assistiu-se a um reforço desta postura de liberalização (através da privatização de empresas públicas, por exemplo) e aposta na economia internacional. Deve-se destacar um terceiro elemento estruturante que é inovador. Falamos da ideia de “desenvolvimento e afirmação da cultura nacional”. Indício da necessidade de potenciar a ideia de identidade, unidade e diversidade nacional, algo que pode acarretar enorme potencial se devidamente aplicado ao turismo e à sua promoção.

Neste, foi aberta a porta para o investimento privado e reduzida a intervenção estatal. Com propostas de 10% das verbas disponíveis a aplicar no Turismo e com a criação da Lei Base do Turismo, este viu ainda criadas, através de Decreto-Lei, a categoria de 'Zonas Turísticas Especiais' (ZTE). Entre estas, as de 'Desenvolvimento Integral' e as de 'Reserva e Protecção Turística' (Sarmento, 2008:258). Estas passam a ser geridas pela 'CV Investimentos e Sociedades de Desenvolvimento Turístico'.

A política liberalizadora acentuou-se com este PND, que apesar de reconhecer alguma falta de controlo e proteção da fauna e da flora, reforçou a aposta no turismo como uma potencial área, destacando como objetivos: a valorização dos recursos turísticos naturais, o desenvolvimento de um turismo de qualidade e o aumento da contribuição do setor para o equilíbrio das contas externas. Todavia, considerando as fraquezas apontadas, a aposta passa pela captação, não de um turismo de massas, mas de um turismo de elite. Para tais objetivos e ambições procurou-se construir novas

infraestruturas, reabilitação do património histórico e cultural, e a promoção de Cabo Verde como destino turístico (Sarmento, 2008).

No último PND, o 5º, e referente ao período 2002-2005, desta feita implementado pelo PAICV que venceria as eleições legislativas de 2003, encontrava-se estruturado sob três pilares, a procura de Equilíbrio Locais, Boa Governação e Ética, e Aspirações Nacionais de Desenvolvimento. Se o último pilar é uma nova aposta nos princípios condutores do PND anterior, a ideia de detetar e desenhar as vantagens e potencial de cada ilha, apostando na erradicação da pobreza e no crescimento económico e social do meio rural, presente no primeiro pilar, é sem dúvida uma abordagem refrescante. Já o segundo pilar prende-se com uma das questões sempre presentes em contextos de poder. Falamos do combate à corrupção, compadrio e outras estratégias que minam o melhor desempenho administrativo e económico do país.

Devemos destacar a intenção de executar os seguintes sub-programas: aumento da eficiência da administração pública; diversificação dos produtos turísticos; formação de recursos humanos para o setor; desenvolvimento do turismo das ilhas da Boa Vista e do Maio78; uma planificação

turística mais eficaz na promoção de investimentos no setor e que assegure um desenvolvimento sustentável do turismo na ilha do Sal e nas ZTE. Ainda de destaque, há que referir a criação de uma Escola de Hotelaria e de um Instituto Superior de Turismo e Hotelaria, para além de intenções expressas para a promoção do eco-turismo, turismo de habitação, entre outras formas de turismo.

Essa preponderância permitiu que em 2007 o turismo atingisse um volume de receitas correspondente a 23% do PIB do país, responsável por 90% dos investimentos externos (CCIT79).

Em 2007 o país recebeu 333 mil turistas, algo a considerar vista a evolução da chegada de hóspedes desde 1990. Nesse ano entraram pouco mais e 21 mil turistas, e dez anos depois já eram 145 mil (INE-CV, 2008)! Esta rápida ascensão demonstra o impacto de uma aposta de fundo no setor. No ano de 2008 os principais emissores de turistas foram o Reino Unido, Itália e Portugal, totalizando os três cerca de 56,7% do total de turistas (INE-CV, 2008). Entre os referidos, o destaque vai para o Reino Unido que desde 2007, e sobretudo com a abertura de ligação aérea direta entre Estados, permitiria um aumento acentuado e a atual hegemonia (cerca de 77 mil turistas, mais 15 mil que os que provêm de Itália, e mais 28 mil que Portugal80).

78 Em 2005 é criada a Sociedade Desenvolvimento das Turístico das Ilhas da Boa Vista e Maio (SDTIBM). 79 Câmara de Comêrcio Indústria e Turismo Portugal Cabo Verde (http://www.portugalcaboverde.com/main.php). 80 INE-CV (2008).

O crescimento e desenvolvimento do país foi e é bandeira política cunhada de sucesso. Basta rever as palavras do Primeiro-ministro de Cabo Verde, José Maria das Neves, quando se dirigiu à sua nação em julho de 2010: “Cabo Verde manteve taxas de crescimento robustas. O PIB cresceu em média 7,3% por ano entre 2006 e 2009. Já em 2006 atingimos a taxa de crescimento de 10,1%. A crise internacional veio contrariar essa expansão. Mesmo assim, continuamos com bons índices de crescimento” (Neves, 2010:2).

A ideia de potenciar a exploração do turismo foi também apontada como desejo e meta a atingir a curto prazo pelo Governo: “a nossa visão é construir um turismo de qualidade e de alto valor acrescentado; desenvolver uma praça financeira; transformar o país num hub no domínio dos transportes aéreos e marítimos, e criar uma base logística de apoio às pescas (Neves 2010:4)”.

Nessa linha, é importante ainda um sublinhar dos pontos-chave do Governo e do seu plano para 2011-2016, presente no documento oficial “Programa do Governo VIII Legislatura 2011- 2016”81. Desde logo, uma continuidade na abertura aos mercados internacionais, o desenvolvimento

do setor privado e reformas no setor público; também, medidas que vão ao encontro das palavras citadas do líder do Governo, como as questões sociais, inclusão e coesão. Ainda, a continuidade na aposta educativa82 e na construção de infraestruturas (saneamento, energia, mas também as que

permitam maior mobilidade entre ilhas e para o exterior, nomeadamente, para os países de onde provém o mercado turístico).

Naturalmente que o desenho de um programa não determina nem pressupõe a sua realização. É antes uma declaração de intenções e desejos teoricamente realizáveis. Comprovado o compromisso político numa sociedade e economia mais sustentável, através da catapulta turística, devemos olhar agora as medidas concretas desenhadas para potenciar essa atividade de 'alto valor':

Primeiro, como passar do turismo de massa para o turismo de elevado valor acrescentado. Segundo, torna-se imperativo aumentar a sua contribuição para a economia nacional. Neste sentido, será importante que o turismo tenha uma ligação muito maior com a economia nacional e assegure uma participação cabo-verdiana mais alargada no sector. A chave é assegurar-se de que, com o decorrer do tempo, um novo sector de turismo apareça, em que o conteúdo e impacto económicos locais sejam muito mais elevados do que os de hoje. A agenda é construir um sector de turismo que seja muito bem integrado na economia cabo-verdiana. Tal tem sido difícil e exigirá uma reorientação das políticas e dos incentivos. Coloca-se, ainda, a necessidade de diversificar as ofertas, de implementar uma promoção turística sofisticada e eficiente e de assegurar que todas as ilhas participem no desenvolvimento do sector. O Governo procurará 81 Ofício de 14 de Junho de 2011.

82 “Será revisto o quadro institucional do sector para uma melhor racionalização das instituições existentes e para reforçar a capacidade de coordenação, planeamento e gestão do desenvolvimento do sector do turismo. Iremos igualmente melhorar a qualidade dos serviços prestados, investindo na formação e especialização da mão de obra directa e indirectamente vinculada às actividades turísticas” (Programa do Governo, 2011:29).

criar novas rotas aéreas e atrair turistas oriundos de novos mercados.(Programa do Governo, 2011:28-29) Dado que esta investigação decorre até ao ano de 2014, importa introduzir as conclusões do Plano Estratégico para o Desenvolvimento do Turismo em Cabo Verde 2010/2013; um relatório elaborado pelo Ministério da Economia, Crescimento e Competitividade, mormente, a Direção Geral do Turismo de Cabo Verde, com o propósito de realizar um diagnóstico do turismo nacional. Algumas das principais conclusões desse diagnóstico revelaram as deficiências do processo de desenvolvimento do turismo, a insuficiência de recursos e infraestruturas (ou mesmo inexistência) e a inflação dos preços.

Este auto-diagnóstico é importante também na perspetiva de demonstrar a preocupação e o interesse que oficialmente o governo caboverdiano tem no turismo, e, sobretudo, demonstra ainda, como o turismo é a grande, ou única, aposta governamental às difíceis condições, constrangimentos que assolam o país. Em resposta a este cenário, o relatório sugere todo um conjunto de ações e atividades que pretendem um turismo sustentável e de alto valor acrescentado, capaz de maximizar os efeitos multiplicadores, com elevado nível de competitividade, diversificado e de qualidade (PEDTCV, 2009). Nas suas conclusões destaca-se ainda o reconhecimento do papel determinante da sociedade civil na implementação e melhoria do plano estratégico.

Em síntese, temos de destacar as infraestruturas de base que existem atualmente e que são originárias do investimento e aposta no turismo, desde aeroportos, estradas, saneamento, eletricidade, transportes, formação e qualificação de pessoas, etc.; e, claro, os dados sociais e económicos que sugerem uma melhoria profunda quando comparados com os de 1975, ou mesmo de 2000.

Hoje, Cabo Verde é um país de Médio Desenvolvimento, de acordo com o índice as Nações Unidas. Para tal, o país fez enormes progressos ao nível económico mas também social. A esperança média de vida à entrada no século XXI era pouco superior a 69 anos e hoje é de 74 anos. A taxa de fertilidade atingiu em 2013 os 2,3 filhos por mulher, demonstrando uma tendência de declínio da natalidade, também esta acompanhada pela de mortalidade. Ainda assim, Cabo Verde tem uma população jovem com uma média de idade a rondar os 27 anos de idade. Os avanços nas áreas de saúde e educação mostram os progressos realizados pelo país que, para tudo isto alcançar, sacrificou muitos milhões de euros de dívida pública, hoje várias vezes superior à de 2000.