2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.9 Inovação e risco
2.9.2 Modelos de gestão de risco no processo de inovação
Segundo Taran (2011), nota-se uma carência de estudos que contemplem o processo de gestão de riscos na atividade inovativa sob uma perspectiva mais abrangente e integrativa nas empresas. Tal assertiva se justifica pois, de forma geral, a literatura sobre gestão de riscos no processo de inovação está pautada, como ressaltado anteriormente, em áreas como a gestão de projetos e o desenvolvimento de novos produtos.
Um dos principais estudos da área foi proposto por Keizer, Halman e Song (2002), que desenvolveram uma metodologia de diagnóstico e gestão de risco no processo de inovação com base em estudos em empresas como a Unilever e Phillips. A metodologia, denominada Risk Diagnosing Methodology (RDM), tem por objetivo a identificação e análise de riscos provenientes do processo de inovação de produtos.
Segundo Keizer et al. (2002), a análise de risco deve considerar a influência de fatores externos e internos às organizações em relação a quatro aspectos principais:
1. Tecnologia: envolve questões como o design do produto, tecnologias para fabricação e propriedade intelectual;
2. Mercado: refere-se à aceitação do produto por parte dos consumidores de do comércio, como também às potenciais ações dos concorrentes;
3. Finanças: estão relacionadas à viabilidade comercial e geração de fluxo de caixa;
4. Operações: referem-se à organização interna da empresa, à equipe do projeto, ao desenvolvimento do produto, às parcerias externas, bem como à oferta e distribuição.
O processo de gestão de risco expresso pelos autores envolve nove passos, agrupados em três grandes etapas, conforme expresso na Ilustração 17.
Ilustração 17 - Funil de inovação e Risk Diagnosing Methodology Fonte: elaborado pela autora com base em Keizer et al. (2002)
Ressalta-se que, de acordo com Keizer et al. (2002), o processo de gestão de riscos deve ser aplicado ao final da fase de "viabilidade”, momento no qual questões importantes acerca da aceitação do consumidor, da viabilidade comercial, das reações competitivas, das implicações de recursos humanos e de processos são pensadas.
Além disso, segundo a metodologia RDM, a gestão de riscos no processo de inovação de produto deve ser realizada a partir da ajuda de um facilitador de risco, que pode ser uma pessoa interna treinada para tal função, um membro da equipe do projeto de desenvolvimento de novos produtos ou então um consultor externo. A responsabilidade pela gestão do risco, no entanto, dever ser do líder do projeto (KEIZER et al., 2002).
Por fim, Keizer et al. (2002) enfatizam que a gestão do risco deve ser conduzida considerando-se, além dos conhecimentos genéricos expressos na RDM, o contexto
específico do projeto de inovação. Dessa forma, algumas empresas poderão adotar um mecanismo mais formal, usando diversos critérios de decisão, enquanto outras poderão avançar para as próximas fases do processo de inovação por meio do uso de abordagens mais informais.
Outro modelo para gestão de riscos foi desenvolvido por Chapman e Ward (2004). Os autores propuseram um quadro para a incorporação da gestão de riscos em processos de gerenciamento de projetos, denominado SHAMPU (em inglês: share, harness and manage project uncertainty). Chapman e Ward (2004) apontam sete etapas principais para a gestão do risco (definição do objetivo, identificação, estrutura para a gestão de riscos, propriedade dos riscos, estimativa, avaliação e gerenciamento dos riscos) sugerindo que estas devem ser realizadas de forma sucessiva, em um ciclo contínuo, a partir dos quais é possível refinar ou redefinir a base da análise de fontes de incertezas e riscos nos projetos.
Em congruência ao expresso por Keizer et al. (2002), Chapman e Ward (2004) também argumentam que o processo de gestão de riscos deve ocorrer nas fases iniciais de planejamento do projeto, assemelhando-se assim ao modelo do funil de inovação expresso na Ilustração 17.
Keizer e Halman (2007) também propuseram um framework para diagnosticar os riscos nos projetos de inovações radicais. Baseados novamente na Risk Diagnosing Methodology (RDM), os autores concluíram que o sucesso nas inovações radicais pode ser obtido por meio de uma avaliação formal dos riscos inerentes ao processo.
Outros estudos, como o de Ogawa e Piller (2006), ainda sugerem que a integração dos consumidores e clientes ao processo de inovação, conceito denominado pelos autores de “collective customer commitment”, também pode reduzir os riscos inerentes a esta atividade.
Recentemente, novos modelos surgiram visando integrar a gestão de risco ao processo de inovação. A Ilustração 18 apresenta o modelo desenvolvido por Bowers e Khorakian (2014), apoiado no conceito de estágios de desenvolvimento de projetos.
Ilustração 18 - Modelo de gestão de risco no processo de inovação Fonte: Bowers e Khorakian (2014, p. 28)
De acordo com Bowers e Khorakian (2014), cada um dos estágios do processo de inovação pode ser visto como uma oportunidade de obtenção de informações relevantes, adquiridas por meio de testes, protótipos, pesquisas de mercado, opiniões de funcionários, modelagem computacional, dentre outros meios.
Segundo os autores, esse ciclo de informações, análise e ações de gerenciamento podem ser entendidos, por si só, como uma forma de gestão de riscos. Isso porque, ao final de cada etapa do processo é possível decidir acerca da continuidade ou do abandono do processo de inovação. No entanto, os autores ainda sugerem um sistema de gestão de riscos mais explícito e formalizado, de forma a permitir a aplicação de técnicas qualitativas e quantitativas de identificação dos riscos acerca do processo de inovação, bem como a estimativa da probabilidade de alcance do objetivo frente ao processo. Sendo assim, diferentemente dos modelos citados anteriormente, o framework proposto por Bowers e Khorakian (2014) integra as principais concepções de gestão de riscos ao longo de todo o processo de inovação.
Apoiando-se em uma nova perspectiva, Taran et al. (2013) apresentaram um dos poucos modelos que analisa a gestão do risco no processo de inovação com foco no
modelo de negócios. Em contraste à maioria dos estudos, que focalizam a inovação de produto, sob a concepção dos projetos, os autores apresentam um processo genérico que ilustra, de forma sistemática e linear, a possível integração da gestão de risco no processo de inovação no modelo de negócios [Ilustração 19].
Ilustração 19 - Gestão de risco integrada ao processo de inovação no modelo de negócios Fonte: Taran, Boer e Lindgren (2013, p. 45)
O modelo expresso pelos autores está embasado no conceito de estágios sequenciais e gates, amplamente utilizado para ilustrar os projetos de inovação, proposto originalmente por Cooper (1993).
Segundo os autores, o processo de gestão de riscos é composto por quatro etapas principais:
1. Identificação dos riscos: estratégicos, operacionais, culturais, financeiros e de imagem.
2. Análise de cada um dos riscos identificados.
3. Avaliação dos riscos: determinação do nível de risco que a empresa está disposta a aceitar.
4. Tratamento dos riscos: evitar, reduzir, aceitar ou transferir / partilhar os riscos.
No modelo proposto por Taran et al. (2013) as atividades de gestão de risco devem se repetir ao longo dos estágios do processo de inovação, que envolve desde o entendimento do atual modelo do negócio, até a implementação de um novo modelo.
Salienta-se que os gates existentes no processo de inovação têm como finalidade diminuir as limitações, incertezas e complexidade ao longo do processo de inovação do modelo de negócios, bem como fornecer maior segurança para os gestores a respeito do caminho a ser escolhido. É neste momento, portanto, que os riscos devem ser analisados e avaliados.
Nota-se que, assim como Bowers e Khorakian (2014), Taran et al. (2013) também afirmam que o risco deve ser gerenciado ao longo de todo o processo de inovação.
No entanto, o modelo de Taran et al. (2013) não inclui as fases de teste e validação presentes na maioria dos modelos voltados ao processo de inovação de produtos.
Isso se deve, obviamente, à natureza e às características da inovação no modelo de negócios, sendo impossível testar e validar um novo modelo de negócio antes da sua realização, como sugerido nos processos de inovação de produto (COOPER, 1993).
Apesar de apresentar uma nova perspectiva, voltada à inovação no modelo de negócios, o framework apresentado por Taran et al. (2013) ainda considera o processo de inovação como algo linear e isolado de outras atividades organizacionais.
É interessante notar que o sucesso da inovação depende da habilidade da empresa em reconhecer que a incerteza e a complexidade, características inerentes ao processo de inovação, podem gerar novos riscos à organização, que devem ser gerenciados em função das características da empresa.
Além disso, percebe-se, de forma geral, a carência de estudos que lidam com a questão do gerenciamento de riscos no processo de inovação de forma mais abrangente, considerando além de outras tipologias de inovação, o efeito da gestão de riscos na organização como um todo, apoiando-se no conceito de Gestão de Riscos Corporativos (ERM), descrito nos subcapítulos anteriores.