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4 Econometria e modelos de memória

4.3 Modelos de heterocedasticidade condicional

Até esta fase temos estado a ver os modelos comummente usados até ao início da década de 1980, fundamentalmente centrados na descrição da média condicional 𝜇 das séries temporais. A partir de meados desta década abre-se uma nova perspetiva neste campo de investigação, uma vez que com a publicação de Engle (1982) é introduzida a variância na equação descritiva dos dados das séries. O próprio Engle, no seu trabalho conjunto com Bollerslev – Engle e Bollerslev (1986) – faz constar esta realidade nas notas introdutórias daquele paper sobre persistência na variância condicionada:

«In many rational expectation models it is assumed that only the mean of the conditional

distribution affects the decision, however for more general utility functions and risk averse agents, a measure of dispersion will also be of primary importance. Conventional econometric methods have not been responsive to the need to develop quantitative measures of risk and uncertainty59

O aparecimento da variância condicionada na descrição das séries financeiras fica a dever-se sobretudo à constatação empírica de que os instrumentos financeiros tinham comportamentos dinâmicos diferentes ao longo do tempo, i.e., registavam períodos com fortes variações seguidos de outros com variações menos acentuadas (clusters de volatilidade). Como já vimos no capítulo 3, volatilidade é um fenómeno que pode ser captado pela variável estatística desvio padrão, facto que per se justifica a sua introdução nos modelos descritivos das séries financeiras. Outro fator

59 Tradução livre do autor: Em muitos modelos e expectativas racionais é assumido que apenas a média

condicionada da função distribuição afeta a decisão; no entanto, para funções mais generalizadas e agentes com aversão ao risco, uma medida de dispersão pode ser também de importância capital. Os modelos econométricos convencionais não têm dado resposta às necessidades de desenvolvimento das medidas quantitativas do risco e da incerteza.

53 não menos relevante que terá contribuído para o sucesso desta nova variável estatística explicativa, é o facto dos modelos até aí utilizados estarem assentes no MCRL, modelo que preconiza a variância constante dos resíduos (são homocedásticos), divergindo assim de todas as evidências empíricas.

É pois com o modelo seminal ARCH de Engle (1982) que nasce a grande família dos modelos heterocedásticos, colmatando assim as lacunas deixadas pelos modelos lineares auto regressivos de médias móveis (ARMA) e (ARIMA), incapazes de descrever séries estatísticas com níveis de volatilidade significativas e variáveis.

Da longa lista de modelos de heterocedasticidade condicional existentes, propusemo-nos no início deste trabalho descrever 4; os modelos ARCH (p), GARCH (p,q), IGARCH (p,q) e

FIGARCH (p,d,q). Nesta secção §4.3 abordaremos os dois primeiros, reservando os dois últimos

para a secção §4.4, atendendo a que são os adequados para a descrição da persistência das séries.

4.3.1 Modelos

ARCH

e

GARCH

O primeiro e mais simples modelo econométrico que fez uso do desvio padrão como variável explicativa é o modelo ARCH – Auto Regressive Conditional Heterocedasticity – de Engle (1982). Com inspiração no modelo ARIMA, o modelo ARCH faz a descrição da variância condicionada do quadrado dos resíduos através de uma média móvel de observações passadas. Segundo Engle (2004), o “nascimento” dos modelos ARCH, feito numa licença sabática em 1979 no London

School of Economics, teve origem na necessidade de validar a conjetura definida por Friedman

(1977)60, onde a imprevisibilidade da inflação seria uma causa primária dos ciclos económicos. Com efeito, (Friedman, 1977 apud Engle, 2004) defendeu não ser o nível de inflação o elemento causador dos ciclos económicos, mais sim a incerteza induzida nos investidores pela mesma, conduzindo à recessão. Esta conjetura só é possível se os níveis de incerteza forem mudando com o decurso do tempo, fenómeno que só pode ser captado com modelos heterocedásticos.

Montgomery [et. al.] (2008) definem um processo ARCH da seguinte forma:

54  Considere-se um processo auto regressivo AR(p) como apresentado em (4.4), com 𝑒𝑡

não correlacionado e representando as inovações, média de ruído igual a zero e variância igual a 𝜎𝑎2

𝑦𝑡 = 𝛿 + 𝜙1𝑦𝑡−1+ 𝜙2𝑦𝑡−2+ ⋯ + 𝜙𝑝𝑦𝑡−𝑝+ 𝑒𝑡 (4.4)

Uma vez que nestes modelos é permitida que a variância seja não constante, uma aproximação de modelização de variância pode também ser traduzida por um modelo AR(k) como em (4.5)

𝑒𝑡2 = 𝜉

0+ 𝜉1𝑒𝑡−12 + 𝜉2𝑒𝑡−22 + ⋯ + 𝜉𝑘𝑒𝑡−𝑘2 + 𝑎𝑘 (4.5)

Com:

𝑎𝑘 WN (0,𝜎2)

Com a notação de (4.5) diz-se que 𝑒𝑡 segue um processo auto regressivo de heterocedasticidade

condicionada de ordem (k), ARCH(k).

Existem diversas outras formas de definir um modelo ARCH. A que deixamos apresentada em (4.6), sugerida em Daly (2008), servirá de charneira para a generalização que faremos de seguida aos modelos GARCH. Assumamos que se pretende estimar 𝑦𝑡, rendibilidade de um ativo

determinado, usando o seguinte modelo de regressão linear:

𝑦𝑡 = 𝑥𝑡𝜉 + 𝜀

𝑡 (4.6)

onde 𝑥𝑡é um 𝐾 × 1 vetor de variáveis exógenas e 𝜉 é um 𝐾 × 1 vetor de parâmetros regressivos.

Para Engle (1982), o racional do modelo seria estabelecer a variância condicionada dos erros 𝜀𝑡

em função de (i) os erros desfasados, (ii) do tempo, (iii) parâmetros e (iv) variáveis pré- determinadas, conforme notação seguinte 𝜎𝑡2 = 𝜎2(𝜀𝑡−1, 𝜀𝑡−2, … 𝑡, 𝜉, 𝑏). Sendo 𝜀𝑡= 𝜎2𝑍𝑡,

55

𝜎𝑡2 = 𝜔 + ∑𝑝𝑖=1𝛼𝑖𝜀𝑡−12 (4.7)

Onde:

𝜔, {𝛼𝑖}, 𝑝 constantes não negativas

Nos modelos GARCH, a grande inovação trazida por Bollerslev (1986) foi a de propor que a variância condicional dos modelos não fosse apenas descrita pelo quadrado dos erros 𝜀𝑡2,

introduzindo um termo adicional que melhorasse a capacidade preditiva da variância futura. Esse termo introduzido foi a própria variância condicional passada. Assim sendo, (4.7) é rescrito conforme notação (4.8), quando o novo termo descritivo passa a fazer parte da equação da variância.

𝜎𝑡2 = 𝜔 + ∑𝑝𝑖=1𝛼𝑖𝜀𝑡−12 + ∑𝑞𝑖=1𝛽𝑖𝜎𝑡−𝑖2 (4.8)

Com este novo modelo, a variância condicionada passa a ser explicada por duas variáveis, ambas desfasadas, uma (i) do quadrado dos resíduos passados para capturar efeitos voláteis de alta frequência, e outra (ii) da própria variância passada para capturar efeitos mais distantes.

Wang (2008) demonstra a estacionaridade dos modelos ARCH (q) e GARCH (p,q) dependem de serem verificadas as condições ∑𝑞𝑖=1𝛼𝑖 < 1 e ∑𝑞𝑖=1𝛼𝑖 + ∑𝑝𝑖=1𝛽𝑖 < 1, respetivamente.