Receptores Nucleares com a h´ elice 12 aberta
5.1 Modelos de PPARγ com a h´ elice 12 aberta
O modelo da ratoeira sugere um mecanismo de entrada e sa´ıda do ligante no s´ıtio do LBD. Nesse modelo, a h´elice 12 encontra-se estendida em rela¸c˜ao `a superf´ıcie do LBD na ausˆencia do ligante, permitindo a entrada deste. Entretanto, n˜ao existem estruturas cristalogr´aficas de PPARγ com a H12 adotando tal conforma¸c˜ao. Desse forma, para verificar o comportamento da curva de anisotropia em fun¸c˜ao do tempo para essa configura¸c˜ao constru´ımos um modelo para apo-PPARγ com a h´elice 12 em uma conforma¸c˜ao aberta, como proposto pelo modelo da ratoeira. Esse modelo foi constru´ıdo a partir da estrutura de holo-PPARγ (PDB: 2PRG) e utilizando simula¸c˜oes de SMD (Steered Molecular Dynamics).
5.1.1
Steered Molecular Dynamics
Importantes eventos biol´ogicos, como a associa¸c˜ao e dissocia¸c˜ao de ligantes envolvem a transi¸c˜ao de um estado de equil´ıbrio para outro. Entretanto eventos que envolvem o cruza- mento de grandes barreiras de potencial ainda s˜ao dif´ıceis de serem reproduzidos em simula¸c˜oes convencionais de dinˆamica molecular, uma vez que envolvem escalas de tempo muito longas. Dessa forma, o uso de for¸cas externas pode ser utilizado para guiar o sistema de sistema de equil´ıbrio para outro, acelerando o processo de transi¸c˜ao. Nesse contexto, simula¸c˜ao de SMD s˜ao uma importante ferramenta no estudo de eventos que envolvem transi¸c˜oes.
78 5 Receptores Nucleares com a h´elice 12 aberta t0 t1 t2 t3 t4 vt1 vt2 vt3 vt4 (a) (b)
Figura 5.1 – (a) SMD com velocidade constante em uma dimens˜ao. Em vermelho est´a representado
o ´atomo virtual e em azul o ´atomo SMD. A medida que o ´atomo virtual se move com velocidade constante, o ´atomo SMD experimenta uma for¸ca que depende linearmente da separa¸c˜ao entre os dois ´atomos. (b) Sobreposi¸c˜ao da conforma¸c˜ao adotada pela H12 no inicio (vermelho) e no final (azul) da simula¸c˜ao de SMD.
´atomos, chamados de ´atomos SMD e manter fixos outro conjunto de ´atomos para estudar o comportamento da prote´ına em diferentes condi¸c˜oes. Neste trabalho foram realizadas si- mula¸c˜oes de SMD com velocidade constante. Nesse tipo de simula¸c˜ao, aos ´atomos SMD ´e aplicada uma for¸ca que corresponde ao deslocamento de uma mola no espa¸co na dire¸c˜ao de- sejada, com velocidade constante (figura 5.1(a) ). A for¸ca externa que atua sobre os ´atomos SMD ´a dada por:
~
F = k [~vt − (~r − ~r0) · ~n] (5.1.1)
onde k ´e a constante de mola, v a velocidade com que os ´atomos s˜ao puxados, ~r a posi¸c˜ao dos ´atomos SMD no instante t, ~r0 a posi¸c˜ao inicial dos ´atomos SMD e ~n a dire¸c˜ao da for¸ca
aplicada (49).
Para construir o modelo de PPARγ com a h´elice 12 aberta, os ´atomos da h´elice 12 fo- ram selecionado como ´atomos SMD e foram puxados para fora, no sentido de formar uma conforma¸c˜ao com a h´elice 12 aberta (figura 5.1(b)). Duas simula¸c˜oes de SMD foram reali- zadas utilizando diferentes dire¸c˜oes para a for¸ca. Cada simula¸c˜ao foi realizada durante 10 ns, utilizando a velocidade de puxamento igual a 3 ˚A/ns e com uma constante de mola igual a 4 kcal mol−1˚A−1.
5.1 Modelos de PPARγ com a h´elice 12 aberta 79
(a) (b)
Figura 5.2 – Estruturas para apo-PPARγ com a H12 aberta obtidas a partir de simula¸c˜oes de SMD.
aberta (5.2). A mol´ecula de cys-fluor foi ent˜ao acoplada `as estruturas finais. O complexo foi submetido a uma simula¸c˜ao em v´acuo e a alta temperatura para gerar diferentes configura¸c˜oes iniciais para as simula¸c˜oes de c´alculo da fun¸c˜ao de correla¸c˜ao, assim como descrito na se¸c˜ao anterior. Das simula¸c˜oes a temperatura elevada foram obtidas 10 configura¸c˜oes iniciais que passaram pelo mesmo procedimento descrito na se¸c˜ao 4.3.2.1.
5.1.2
Anisotropia de fluorescˆencia para o apo-PPARγ com a H12
aberta
A partir das estruturas geradas por SMD calculamos as curvas de anisotropia para as 10 configura¸c˜oes iniciais constru´ıdas. Na figura5.3est˜ao mostradas as 10 curvas obtidas (laranja). Assim como para as simula¸c˜oes de PPARγ nativo, nota-se um comportamento diversificado para a dinˆamica reorientacional do cys-fluor nesse modelo. Entretanto, de forma geral, s˜ao observadas curvas com decaimentos mais r´apido que os obtidos nas simula¸c˜oes anteriores e, principalmente, que os experimentais.
O objetivo dessas simula¸c˜oes foi mostrar que uma estrutura para apo-PPARγ como pro- posto pelo modelo da ratoeira, ou seja, com a H12 desprendida da superf´ıcie do LBD, n˜ao ´e capaz de reproduzir os resultados experimentais. Dessa forma, nossos resultados sugerem que mesmo na ausˆencia de ligantes, a h´elice 12 deve interagir com a superf´ıcie do dom´ınio. Esses resultados n˜ao contradizem o fato de que para apo receptores a H12 ´e mais m´ovel que para
80 5 Receptores Nucleares com a h´elice 12 aberta
holo receptores, por´em indicam que a varia¸c˜ao conformacional da h´elice 12 deve ocorrer em torno em de uma estrutura onde a h´elice permanece interagindo com a superf´ıcie do LBD. Se existentes, estruturas que apresentam a H12 aberta devem ser fracamente populadas e n˜ao de- vem apresentar nenhuma fun¸c˜ao no associa¸c˜ao ou dissocia¸c˜ao de ligantes ou no recrutamento de correguladores.
0
1
Tempo(ns)2
3
4
5
0.0
0.2
0.4
0.6
0.8
1.0
r(t
)
Experimental Holo-PPAR Experimental Apo-PPAR Holo-PPAR Apo-PPARFigura 5.3 – Compara¸c˜ao entre as curvas de anisotropia para o PPARγ: em cinza est˜ao representa-
das as 35 curvas obtidas para o holo-PPARγ nativo, em laranja as 10 curvas para os modelos de apo-PPARγ com a H12 aberta; em azul e vermelho as curvas experimentais para o PPARγ na presen¸ca e na ausˆencia de ligante, respectivamente.
Na figura 5.3 ´e observada a existˆencia de uma curva de anisotropia para o modelo de PPARγ com a h´elice 12 aberta com um decaimento mais lento que as demais curvas ob- tidas para esse modelo. Ao observar o comportamento da sonda nota-se que esta se en- contra durante toda simula¸c˜ao dobrada sobre a h´elice 12, como mostrado na figura 5.4(a), sofrendo apenas pequenas altera¸c˜oes conformacionais em torno dessa estrutura e justificando o decaimento observado. Em geral, para as demais simula¸c˜oes, o cys-fluor percorre diferen- tes conforma¸c˜oes em torno da H12, resultando em curvas de anisotropia com decaimentos r´apidos (figura 5.4(b)). Essa curva com decaimento mais lento poderia sugerir que com uma maior amostragem, ou seja, um n´umero maior de simula¸c˜oes, seria possivel observar outras configura¸c˜oes que apresentem decaimentos similares, entretanto, ao avaliar a posi¸c˜ao adotada pela sonda durante a simula¸c˜ao, ve-se que esse ´e um caso extremo, onde a sonda possui uma dinˆamica reorientacional bastante limitada. Dessa forma, mesmo com um n´umero maior de simula¸c˜oes n˜ao devem ser obtidas curvas com decaimentos mais lentos e, principalmente, n˜ao
5.1 Modelos de PPARγ com a h´elice 12 aberta 81
(a) (b)
Figura 5.4 – Sobreposi¸c˜ao de algumas conforma¸c˜oes adotadas pela mol´ecula de cys-fluor na si- mula¸c˜ao correspondente a curva de anisotropia com o decaimento mais lento (a) e com decaimento mais r´apido (b) para o modelo de PPARγ com a H12 aberta.
devem ser obtidas curvas com decaimentos que justifiquem as observa¸c˜oes experimentais. Embora o cys-fluor adote uma conforma¸c˜ao mais r´ıgida, conferindo um tempo de decai- mento maior para a curva de anisotropia dessa simula¸c˜ao, a h´elice 12 apresenta um com- portamento bastante similar ao observado para as demais simula¸c˜oes para esse modelo. Ao comparar a evolu¸c˜ao temporal do RMSD para essa simula¸c˜ao (Simula¸c˜ao 1 da figura 5.5) e para outra associada a uma curva de anisotropia com decaimento mais r´apido (Simula¸c˜ao 2 da figura 5.5), observa-se que ambas apresentam desvios significativos em rela¸c˜ao a estrutura inicial, mostrando que a h´elice 12 ´e bastante m´ovel nos dois casos. Portanto, n˜ao ´e a mo- bilidade da H12 que afeta o decaimento da anisotropia, mas principalmente a capacidade da sonda de interagir com a prote´ına. O decaimento mais r´apido experimental em apo-PPAR n˜ao pode, portanto, ser diretamente interpretado como um reflexo da maior mobilidade da H12.
Tempo )s) RM S D (Å )
Figura 5.5 – Evolu¸c˜ao temporal do RMSD da h´elice 12 para as simula¸c˜oes com decaimento mais
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