4. Concordância nominal numa perspectiva psicolinguística: aquisição e
4.2. Modelos de processamento da concordância 63
A ideia de que a concordância configura-se como uma relação de dependência entre dois ou mais itens do léxico em uma sentença é bastante consensual na literatura. No entanto, no tocante ao processamento, vários modelos têm sido propostos com o intuito de explicar como se realizaria a computação de tais relações.
De acordo com o modelo de cópia de traços, também chamado de percolação de
traços, inicialmente formulado por Kempen e Hoenkamp (1987), a relação de
concordância se daria entre dois elementos, sendo um deles a fonte, também chamado de “controlador” e o outro um alvo. A fonte seria o elemento que possui as características gramaticais a serem copiadas e o alvo seria o elemento que herdaria essas características da fonte. É nesse sentido que advém a ideia de cópia: o alvo copiaria as características da fonte. De modo geral, tem sido proposto que a fonte corresponde ao argumento, e o alvo à sua função na estrutura semântica da sentença (GAZDAR et al., 1985 apud VIGLIOCCO et al., 1996). Nesse sentido, a concordância poderia ser interpretada como uma relação de redundância – baseada numa função de identidade – que vigora entre a fonte nominal completamente especificada e o alvo, como esquematizado na figura (6). Na relação sujeito-verbo, por exemplo, a função da concordância seria garantir que o alvo – o verbo – fosse especificado com os mesmos traços da fonte – o sujeito. Já no tocante à construção dos NPs, Kempen e Hoenkamp (1987) defendem que a informação de número e gênero seria transferida do núcleo nominal para os modificadores e o artigo. O modelo de cópia de traços, entretanto, não parece compatível com ocorrências de concordância nominal variável como os discutidos no nosso trabalho. Como vimos no Capítulo 3, no caso da concordância nominal, no PB o traço de número parece ser especificado em D e, nesse sentido, encontramos que o artigo apresenta marca de plural, podendo a mesma ser omitida em N e nos eventuais modificadores do NP.
Figura 6: Concordância sujeito-verbo como resultado de um processo de cópia de traços (extraído de Rodrigues 2005, p.285).
O modelo de unificação de traços, proposto por Vigliocco et al. (1996), surge como uma versão modificada do modelo computacional de codificação gramatical proposto por Kempen e Hoenkamp (1987). Para aqueles, sujeito e predicado passariam por um processo para que lhes sejam atribuídos determinados traços. Após atribuição de
Caso, aconteceria uma checagem a fim de verificar se os conjuntos de traços no sujeito
e no predicado são compatíveis entre si. Diferentemente do modelo de cópia, no modelo de unificação, os dois elementos que participam da relação de concordância especificam informações parciais sobre um objeto linguístico. Nesse sentido, a ideia de unificação envolve a concatenação de informações alocadas em duas estruturas compatíveis. Por essa razão, defende-se que os traços não são copiados ou transportados de um elemento para outro – como se defendia no modelo de cópia –, e sim unificados de modo a serem compartilhados por elementos de diferentes “galhos” da estrutura arbórea da sentença. Em termos mais concretos, poderíamos dizer que o sujeito não é mais considerado o responsável por determinar os traços do verbo. Vale ressaltar a existência de uma hipótese implícita no modelo de unificação, a qual prevê que a representação lexical para o verbo conteria informações concernentes tanto ao seu significado e fonologia, quanto sobre as estruturas com as quais o verbo poderia se combinar. Nesse sentido, seria possível explicar o caráter não direcional do processo de unificação de traços. Mancini et al. (2011), por exemplo, defendem que o caráter não direcional do processo de concordância pode ser justificado em função de ocorrências de regras de não concordância. Os referidos autores fundamentam sua hipótese em exemplos extraídos do espanhol (36) e (37), cuja gramaticalidade, de acordo com os autores, estaria condicionada à dependência estabelecida entre as pessoas do nome e do verbo.
(36) Los cocineros cocinamos un pescado muy rico. The cooks3.pl. cooked 1pl. a very tasty fish.
‘Nós cozinheiros cozinhamos um peixe muito saboroso.’
(37) Los cocineros cocináis un pescado muy rico. The cooks3.pl. cooked 2pl. a very tasty fish.
‘Vocês cozinheiros cozinharam um peixe muito saboroso.’
Em outros termos, nos casos de não concordância – neste caso específico, de pessoa –, o mecanismo aconteceria por meio da transferência do valor do traço do verbo para o sujeito. Afinal, como apontam Mancini et al. (2011), tanto numa configuração de concordância padrão ou tomado isoladamente, um sujeito como “los cocineros” (os cozinheiros) representa a terceira pessoa, embora lhe seja lícito adquirir uma leitura de primeira ou segunda pessoa a depender do traço de pessoa representado no verbo. Cabe ressaltar que os autores não falam explicitamente em modelo de unificação de traços, mas pensamos que seus exemplos e ideia de não direcionamento do processo sejam compatíveis com o postulado por tal modelo.
Figura 7: Concordância sujeito-verbo como resultado de um processo de unificação de traços (extraído de RODRIGUES, 2005, p.286).
No intuito de traçar um paralelo dessas propostas em termos de processamento e a teoria linguística de orientação gerativista, Rodrigues (2006) estabelece uma comparação entre o modelo de cópia e a análise de valoração de traços (CHOMSKY, 1999), bem como entre o modelo de unificação e a análise de checagem de traços (CHOMSKY, 1995). A autora atenta ainda para o fato de que cada um desses
mecanismos (checagem e valoração) é adotado em versões distintas do Programa Minimalista e, portanto, tem implicações específicas para o curso da derivação sintática. Com base nos modelos apresentados até aqui, discutiremos na próxima seção, alguns trabalhos realizados com vista a explorar o processamento de informação de número variável, tanto no que tange à aquisição da linguagem quanto ao processamento adulto.