1.3. Universidade: desenvolvimento e modelos
1.3.1. Modelos de universidade
O modelo francês (napoleônico) buscava a estabilidade política do Estado, marcada pelo elitismo. A concepção geral de educação pressupunha um ensino profissional uniforme, confiado a um grupo de profissionais, e cuja organização obedecia a uma hierarquia administrativa. A concepção de universidade francesa desenvolveu-se na estrutura sócio-política do governo de Napoleão Bonaparte que, em 1806, criou a Universidade Imperial. Esse conceito de universidade estava associado ao serviço público do Estado e ideologicamente subjugado ao poder, assumindo uma função geral de conservação e ordem social. A visão totalitarista de Napoleão, como homem de Estado, afetou significativamente a educação superior francesa, pois a
França, embora tenha sediado uma das primeiras universidades do mundo, foi o país que sofreu a maior descontinuidade na consolidação do ensino superior.
Segundo Drèze;Debelle (1983), concorrendo para a concepção do modelo em questão, Napoleão alimentou um projeto de ver a nação inteira voltada ao culto de sua pessoa e considerou que, pela instrução, se operaria essa espécie de “napoleonização” das consciências. Com esse propósito, a instrução pública representou uma fonte de poder. Assim, a finalidade sócio- política da instrução estava subjugada ao poder e assumiu uma função de conservação e de ordem social pela difusão de uma doutrina comum que se efetivou pela corporação organizada de professores.
De acordo com Drèze;Debelle (1983, p.86), todas as escolas da universidade imperial tomaram por base de seu ensino, os preceitos da religião católica, mas preconizavam a fidelidade ao imperador e a obediência aos estatutos do corpo docente. Isto, na verdade, objetivava a uniformidade da instrução e contribuiu para a formação desejada pelo Estado, de cidadãos ligados à sua religião, aos seus princípios, à sua pátria e à sua família.
A uniformidade que caracterizou esse modelo regulou os programas de curso, sem que tenha havido uma reflexão sobre a missão da universidade no que diz respeito propriamente aos aspectos acadêmicos: todas as faculdades foram consideradas iguais. De acordo com Drèze;Debelle (1983), embora Napoleão soubesse o que esperar do ensino superior, não sabia o que era uma universidade. Esses autores afirmam, ainda, que nos escritos encontrados não foi localizada nenhuma reflexão sobre a vida acadêmica, a ciência e os métodos de ensino. E, neste âmbito, a universidade francesa se centralizou sobre tarefas diretamente úteis ao Estado, na preparação profissional de algumas áreas e na preparação para exames ou concursos que davam acesso a funções públicas ou de caráter público.
O núcleo básico do ensino superior francês constituiu-se de escolas de Direito, Medicina, Farmácia, Letras e Ciências. A Escola Politécnica era destinada à formação dos quadros técnicos e a Escola Normal Superior, responsável pela formação de educadores. No que se refere ao corpo docente, Napoleão aplicou o esquema militar com as prerrogativas de submissão e monopólio do ensino superior.
O modelo francês, no período de 1868-1904, passou por reforma, a fim de que fossem revistos aspectos e problemas oriundos do esquema napoleônico. O centro de interesse recaiu sobre o incentivo à pesquisa e a busca do re-equilíbrio do sistema universitário. Segundo Marback Neto (2007), continuam em pauta as discussões no sentido de se exercer influência sobre o sistema e garantir a qualidade do ensino e a articulação com a pesquisa.
b) O modelo alemão
Concebido e implantado no período de 1830-1840, o modelo alemão procurou separar a universidade do julgo estatal e torná-la um reduto de liberdade acadêmica. A base teórica desse modelo, como afirma Castanho (2007) foi dada pelos filósofos idealistas Kant, Hegel, Schelling, Fichte, Schleiermacher e Humboldt. Tais filósofos tiveram como divergência o papel do estado, embora para todos a principal tarefa da universidade era o resgate dos valores nacionais, a busca pela verdade e a construção do conhecimento, com ênfase no binômio ensino-pesquisa. É preciso destacar que a pesquisa tinha tamanha importância que, em função dela, deveria existir o ensino.
A universidade alemã era reservada à elite e a uma aristocracia intelectual e, segundo os princípios que regem tal concepção, apenas essa minoria seria capaz de conceber atividade intelectual efetivamente interessante.
c) O modelo inglês
O modelo universitário inglês retrata basicamente a realidade de duas universidades do século XIII, Cambridge e Oxford8 que eram inicialmente eclesiásticas, voltadas para uma sociedade aristocrática. Esse modelo baseou- se nas idéias do cardeal John Henry Newman, ex-aluno do Oxford. A herança específica neste modelo dá ênfase à conservação e à transmissão dos conhecimentos, à universalidade do saber e à autonomia da instituição. Para Newman, a conservação e a transmissão do saber intelectual na universidade constituem uma tarefa autônoma, não vinculada a uma atividade de pesquisa
8 Fundada em 1096, devido a problemas internos foi dissolvida em 1209 voltando a funcionar anos
científica, reafirmando assim, o papel da universidade como lugar de ensino. Ainda nessa concepção, considera-se que a aspiração ao saber é natural ao homem.
A propósito, é pertinente destacar que, se por um lado o cardeal Newman concebeu a universidade como um centro de educação e de reprodução de conhecimentos, por outro lado negou a concepção de universidade como um centro de preparação profissional – tarefa relegada a estabelecimentos de níveis mais baixos na Inglaterra. Para Newman, a aquisição de capacidades profissionais e práticas dependem das competências requeridas e das faculdades mentais bem educadas. Para ele, se as faculdades forem adequadamente desenvolvidas, um homem pode tirar partido dos seus próprios conhecimentos.
De acordo com Marback Neto (2007), durante muito tempo a universidade inglesa, regida pelas idéias do cardeal Newman, não considerou a pesquisa como relevante, o que veio a ocorrer só quando Cambridge instituiu uma cátedra denominada investigação científica. Ainda, segundo o autor, com o tempo, e o desenvolvimento da pesquisa na Alemanha, a Inglaterra viu-se obrigada a modificar seu sistema, instituindo a investigação e a estratificação de cursos e universidades.
d) O modelo norte-americano
Objetivando o progresso, o modelo norte-americano tinha como concepção geral de educação a pressuposição da simbiose da pesquisa e do ensino a serviço da imaginação criadora. Como organização era constituída de um corpo docente criador e de estudantes capazes de aplicar alguns princípios gerais. Implantada no século XVII, a universidade nos Estados Unidos cresceu vertiginosamente entre os séculos XVIII e XIX, quando o país atingiu o apogeu com mais de trezentas universidades. Marback Neto (2007) afirma que esse crescimento se deveu à forma democrática de administração feita pelo Estado – com a descentralização e autonomia de cada unidade federativa, assim como da aspiração da sociedade ao progresso.
O principal mentor do modelo norte-americano foi Alfred North Whitehead, inglês radicado nos Estados Unidos. Filósofo e matemático,
Whitehead lecionou em Harvard e sua presença na área da educação foi marcada fortemente pelo pensamento utilitarista, como a de todos os escola- novistas. Ele concebia a universidade como o centro do progresso, da utilidade, responsável pela preparação de cidadãos ativos e empenhados no progresso da nação, e não dedicada a uma preparação considerada como fim em si mesma. A pesquisa e o ensino constituíam-se, nessa concepção, os motores do progresso.
De acordo com Marback Neto (2007), apesar do sucesso internacional da universidade estadunidense, tais características, concebidas por Whitehead, sofreram muitas críticas pela ênfase que dava à pesquisa aplicada. Para os cientistas, a pesquisa pura é a única que tem validade, que expressa a verdadeira produção intelectual e que contribui para o crescimento e desenvolvimento social de um povo. O modelo norte-americano pressupõe o desenvolvimento da pesquisa em nível de excelência e se encontra, nos dias de hoje, apoiado pelo governo federal, pois, ao contrário do que se pensa, a participação da indústria é pouco significativa. Outra característica do modelo desde o seu início é a flexibilidade permitida aos estudantes de fazer combinações de disciplinas.
De modo bastante sintético e contundente, Kerr (1982) definiu a universidade americana moderna como um exemplo de instituição superior para todo o mundo, pois mesmo sendo mais nova, ela se recusa a copiar outros modelos: é ela própria que servirá de modelo para universidades de outras partes do globo terrestre porque os imperativos que a moldaram estão atuantes no mundo inteiro.
e) O modelo russo
O modelo russo tinha como principal finalidade a edificação da sociedade comunista. Como concepção geral considera a universidade como instrumento funcional de formação profissional e política. A organização está centrada na manipulação controlada da oferta de diplomados (apelo a todas as forças produtivas) e seu principal mentor foi o Conselho dos Ministros da então União Soviética.
O modelo socialista de universidade esteve calcado na doutrina do marxismo-leninismo. Tal doutrina teve como fundamento a contribuição para a edificação da sociedade comunista. A educação superior, nesse modelo, teve uma finalidade que ultrapassou o objetivo de desenvolver a competência de especialistas, embora essa competência estivesse explicitamente declarada na formação de quadros altamente instruídos. A formação também dizia respeito à compreensão e à difusão das idéias políticas do regime, de modo que todos os membros pudessem desenvolver aptidões físicas e intelectuais, permitindo a cada um tomar parte ativa no progresso social e na edificação da sociedade comunista. Assim, o quadro ideológico do ensino e da pesquisa moveu-se com finalidade social e política bem definida.
O modelo socialista permitiu, que aflorassem aspectos como: a pesquisa pedagógica, a formação de professores de qualidade e a elaboração de materiais didáticos. Os princípios pedagógicos estiveram norteados pelo favorecimento de tendências criativas, para ensinar, aprender e criar a tecnologia do amanhã. A direção e a organização da universidade soviética eram totalitárias, conforme explicitado por Drèze;Debelle (1983).
O marco histórico do modelo socialista ocorreu após a Grande Revolução Socialista, quando o Estado soviético inaugurou uma série de instituições de ensino superior, criando condições para o largo acesso dos filhos de operários e de camponeses às escolas técnicas. A gratuidade da educação superior e o oferecimento de laboratório, assistência médica, instalações esportivas, instrumentos de música e material escolar – somados ao reduzido preço de alimentação e de hospedagem – fizeram com que, segundo Drèze;Debelle (1983), no período de 1914 a 1960, o número de estudantes no ensino superior saltasse de 130 mil para 2,4 milhões.
De acordo com Marback Neto (2007), no início da década de 1990, uma grande mudança se deu na educação superior da antiga União Soviética devido às reformas políticas e à busca de uma maior autonomia nas relações universitárias. O autor realça, ainda, que nos últimos treze anos foram instaladas mais de duzentas instituições privadas, com mais de 60 mil estudantes. O ensino passou a ser pago, exceto para estudantes aprovados no exame de seleção, cujo número total deve ser adequado ao orçamento do
Estado. A verba para a educação, ao longo dos anos, tornou-se escassa levando muitas instituições a fecharem suas portas.