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utilizadas para comunicar os conceitos de ácido e base segundo Brønsted-Lowry, Lewis e as forças ácida e básica

1 REPRESENTAÇÕES NA CIÊNCIA

1.2 MODELOS E REPRESENTAÇÕES NA BUSCA DA REALIDADE QUÍMICA

Sendo as representações e os modelos tão presentes na arquitetura dos saberes químicos, bem como na comunicação dos mesmos, convêm- nos buscar algumas definições sobre o significado de tais conceitos, de maneira a compreender o que faz uma determinada imagem ser considerada uma representação de um objeto da realidade científica, bem como a relação desta representação com o modelo científico.

Segundo Abbagnano (2007), o vocábulo representação tem origem medieval e indica imagem ou ideia. O autor coloca que a utilização deste termo foi sugerida pelos escolásticos como sendo ‘algo’ semelhante a um ‘objeto’:

"Representar algo" — dizia S. Tomás de Aquino — "significa conter a semelhança da coisa" [...] Mas foi principalmente no fim da escolástica que esse termo passou a ser mais usado, às vezes para indicar o significado das palavras [...] 2.) Ockham distinguia três significados fundamentais: "Representar tem vários sentidos. Em primeiro lugar, designa-se com este termo aquilo por meio do qual se conhece algo; nesse sentido, o conhecimento é representativo, e representar significa ser aquilo com que se conhece alguma coisa. Em segundo lugar, por representar entende- se conhecer alguma coisa, após cujo conhecimento conhece-se outra coisa; nesse sentido, a imagem representa aquilo de que é imagem, no ato de lembrar. Em terceiro lugar, por representar entende-se causar o conhecimento do mesmo modo como o objeto causa o

conhecimento" (Qiiodl.,IV, q. 3). No primeiro caso, a R. é a ideia no sentido mais geral; no segundo, é a imagem; no terceiro, é o próprio objeto. Esses são, na realidade, todos os possíveis significados do termo, que voltou a ter importância com a noção cartesiana de ideia como "quadro" ou "imagem" da coisa (Aíéd., III) e foi difundido sobretudo por Leibniz, para quem a mônada era uma R. do universo [...] Kant estabeleceu seu significado generalíssimo, considerando-o gênero de todos os atos ou manifestações cognitivas, independentemente de sua natureza de quadro ou semelhança [...] e foi desse modo que o termo passou a ser usado em filosofia. (ABBAGNANO, 2007, p. 854-855). Não só no âmbito das discussões sobre a apreensão de conceitos científicos, mas também nas definições trazidas por Abbagnano (2007), há uma compreensão de representação em pelo menos dois sentidos. Um em relação às representações externas, ou seja, ligadas às imagens, e outro sentido, relacionado às ideias, ao passo que essas podem ser consideradas representações internas. E em especial, na química, compreende-se que por meio das relações estabelecidas entre as representações internas e externas os químicos encontraram um caminho para se compreender e manipular a realidade por meio de modelos (GILBERT, 2005; BODNER; BRIGGS, 2005). Neste contexto, apresenta, mesmo que implicitamente, uma definição de modelo relacionado com a existência de representações, onde um modelo é considerado oriundo da relação entre representações internas e externas. E, ao passo que se considera separadamente apenas uma dessas esferas – internas ou externas – lida-se com representações, mas quando se empreende relações entre as mesmas para um determinado fim, tem-se um modelo.

Melo e Neto (2010) destacam que a utilização de modelos na construção da ciência, bem como no seu ensino, não é algo recente. Sabe-se que desde Galileu são utilizados modelos no processo do pensamento científico, influenciando, consequentemente, o próprio processo de compreensão e aprendizagem da ciência (CARDOSO; MOURA, 2008). Em inúmeros outros fenômenos da realidade científica os modelos científicos são utilizados para fornecer explicações e fazer previsões. As variadas funções e o importante papel dos modelos na ciência destacam-se também no universo da química, ao passo que

possibilitam representar do mundo macro ao mundo submicroscópico. Laszlo (1995) coloca que este tipo de modelo – o “modelo-químico” – permite que seja explicado tanto o visível pelo invisível, quanto o invisível pelo visível.

No contexto químico os modelos ganham destaque quando nos referimos ao processo de compreensão e manipulação do mundo molecular. Isso se justifica pelo fato da química ser considerada uma ciência que tem como base um paradigma funcional-estruturalista em que “as propriedades e transformações dos materiais podem ser satisfatoriamente explicadas pela teoria atômico-molecular” (GIORDAN et al., 2004, p. 50).

Aprofundando mais na conceituação sobre modelos, Gilbert (2005) pontua que a utilização dos mesmos – modelos - funciona como uma ponte entre a teoria científica – realidade científica - e o mundo. Para ele os modelos podem auxiliar nas idealizações de uma realidade imaginada – estas com bases nas abstrações das teorias produzidas para compreensão da realidade e empregadas em explicações científicas dos fenômenos, ou seja, a realidade científica.

A relação entre representação e modelo pode ainda ser compreendida com base na teoria bungeana, na qual os modelos não assumem o papel de auxiliares do processo representacional da ciência, mas sim mediadores do processo de apreensão da realidade, que por sua vez, podem ser expressos por meio de representações, que segundo Bunge (1974) são denominadas de modelos icônicos.

Segundo Machado (2009),

uma teoria científica não se aplica diretamente ao objeto real ao qual se refere, mas a uma representação desse objeto real. Essa representação é chamada por Bunge de objeto- modelo [...] Embora seja uma versão idealizada e abstraída do objeto real, concebida de forma a representar apenas parte dos traços do seu referente, a construção dos objetos-modelo envolve operações que não são arbitrárias, mas sim objetivas, isto é, com uma intenção realista. (MACHADO, 2009, p. 29).

Em relação aos objetos-modelos, Bunge (1974) pontua que: a conquista da realidade começa por idealizações: extraem-se os traços comuns de indivíduos

diferentes, agrupando-os em espécies: nasce o objeto modelo ou modelo conceitual de uma coisa ou um fato. Mas se faz necessário inserir este objeto-modelo em uma teoria, isto ocorre atribuindo-lhe propriedades suscetíveis de serem tratadas por teorias. É preciso imaginar um objeto dotado de certas propriedades que, amiúde, não serão sensíveis. O modelo conceitual negligenciará numerosos traços das coisas e afastará as características que individualizam os objetos. (BUNGE, 1974, p. 13-14).

Exemplificando o que seria a relação entre o objeto-modelo, o modelo teórico, e as teorias gerais, Pietrocola (1999) coloca que:

Quando suposições e dados especiais respeitantes a um corpo particular [objeto-modelo] são associados à mecânica clássica e à teoria clássica da gravitação [teorias gerais], produz-se uma teoria especial [modelo teórico] sobre esse corpo. Temos deste modo teorias lunares, teorias sobre Marte, teorias sobre Vênus, e assim por diante (Bunge, 1973, p. 54). Bunge coloca que esse processo teórico objetiva a interpretação de parte da realidade. Por ser sempre complexa, sua aproximação deve então ser obtida inicialmente através de simplificações (idealizações), onde classes de indivíduos equivalentes são elaboradas. Aos elementos pertencentes a essas classes atribui-se propriedades e características, que poderão então ser tratadas pelas teorias. Temos o nascimento dos elementos conceituais (ou objetos- modelo), que serão enxertados em teorias gerais e gerarão teorias específicas sobre o domínio real em foco. (PIETROCOLA, 1999, p.223).

Como pontuado por Pietrocola (2009), objetos-modelos necessitam ser enxertados em uma teoria geral, caso contrário os mesmos nada irão dizer sobre a parte da realidade em questão. O modelo teórico, por sua vez, é a mediação entre a teoria geral e o objeto- modelo – tendo como produto um sistema hipotético dedutivo. Desta forma, Machado (2009) pontua que por meio do modelo teórico é

possível representar tanto o comportamento, quanto os mecanismos internos do objeto-modelo a partir da teoria geral.

A autora ainda coloca que o modelo teórico sempre terá um caráter parcial e aproximativo devido ao “encaixe” do objeto-modelo na teoria geral. Deste modo, o modelo teórico negligenciará alguns aspectos do seu referente real, e empregará abstrações e idealizações em sua estrutura. Neste contexto, é incorreto afirmar que os modelos teóricos estejam inseridos na teoria geral, devido ao fato dos objetos- modelo não estarem contidos na teoria geral. Como o caso das representações moleculares, ao passo que essas representações do tipo visual são consideradas representações físicas constituídas com base em um modelo teórico, pautado em uma teoria específica – teoria atômica- molecular – que por sua vez se estrutura em uma teoria geral - teoria atômica.

1.3 CONSIDERAÇÕES SOBRE AS REPRESENTAÇÕES