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4. Modelos de gestão de resíduos sólidos

4.2. Modelos de gestão existentes em Portugal

Como já foi referenciado, é da responsabilidade pública assegurar a provisão dos serviços

de abastecimento público de água, de saneamento de águas residuais e da gestão de resíduos

urbanos. Contudo a distinção entre a responsabilidade por assegurar tais serviços e a

responsabilidade de os prestar conduz às figuras de entidade titular dos serviços e entidade gestora,

respetivamente. De seguida serão então apresentados os três modelos de gestão existentes em

Portugal, mediante tais transferências de responsabilidade de assegurar e executar os serviços

públicos de água, saneamento e resíduos sólidos.

4.2.1. Modelo de gestão direta

O modelo de gestão direta caracteriza-se pela coincidência da entidade titular e a entidade

gestora ser a mesma, uma vez que não há transmissão da prestação dos serviços para outra

entidade que a própria responsável por assegurar o serviço. Apesar do Decreto-Lei nº. 92/2013, de

11 de julho, que veio revogar o Decreto-Lei nº 379/93, de 5 de novembro, permitir que os sistemas

multimunicipais sejam geridos diretamente pelo Estado, ainda não existe qualquer tipo de exemplo

deste tipo de gestão. Em termos de municípios abrangidos, este modelo de gestão é assim o mais

utilizado no caso da titularidade municipal.

A gestão direta dos sistemas de titularidade municipal, de acordo com artigo 14º do

Decreto-Lei n.º 194/2009 pode ser efetuada através dos respetivos serviços municipais, pelos serviços

municipalizados ou intermunicipalizados. Neste caso, os diferentes serviços ficam regidos pelo

regime jurídico de funcionamento dos órgãos dos municípios e das freguesias. A diferença entre os

serviços municipais e os serviços municipalizados reside unicamente no grau de autonomia

administrativa e financeira, sendo essa autonomia maior para os serviços municipalizados devido

ao facto de possuírem orçamento próprio. Contudo, em ambos os casos trata-se de serviços

integrados no município e cujas tarifas praticadas são definidas pelos respetivos órgãos. De

qualquer das formas, sem prejuízo das regras orçamentais e de contabilidade aplicáveis aos

serviços da administração local autárquica, serão alvo de apuramento económico-financeiro através

de contabilidade analítica os serviços municipais de águas e resíduos prestados neste modelo de

gestão, gestão direta. Este mesmo decreto veio ainda estabelecer o quadro dos modelos de gestão

aplicáveis aos sistemas de titularidade municipal, no qual veio inserir os serviços de gestão direta

no âmbito da regulação da ERSAR.

4.2.2. Modelo de gestão delegada

No caso da gestão delegada, apesar do Decreto-Lei nº. 92/2013, de 11 de julho não estar

expressamente previsto a existência de modelos de gestão de sistemas de titularidade estatal, em

Portugal existe por razões históricas um modelo deste tipo de gestão. Em 1974, o contrato de

concessão estabelecido entre o Estado e a Companhia das Águas de Lisboa cessou, e, por

conseguinte, foi criada através de Decreto-Lei nº. 553-A/74, de 30 de outubro a Empresa Pública

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das Águas de Lisboa (EPAL), que mais tarde, no ano de 1981, veio a ser redenominada de EPAL –

Empresa Pública das Águas de Lisboa. No ano de 1991 deu-se a transformação desta mesma

empresa numa sociedade anónima de capitais exclusivamente públicos. Apesar da inexistência de

contrato de concessão, a EPAL constituía um modelo de delegação, isto é, o Estado criou uma

empresa que detinha e controlava de forma exclusiva, transferindo para a mesma o exercício de um

conjunto de atividades por tempo incerto. Posteriormente, com a criação do sistema intermunicipal

de Lisboa e Vale do Tejo, o Decreto-Lei nº. 94/2015, de 29 de maio, delegou à EPAL a gestão deste

novo sistema multimunicipal, assim como definiu um regime de uniformidade tarifária com o serviço

de abastecimento de água em alta que já pertencia à EPAL. Foi igualmente este diploma que definiu

as tarifas a praticar pela EPAL num período de cinco anos, sendo que após esse período a EPAL

estaria sujeita à regulação da ERSAR em matéria de regulação económica, nomeadamente a de

regulamentação e aprovação dos tarifários a praticar.

No que concerne à gestão delegada dos serviços de titularidade municipal, na qual é realizada

a transferência da gestão dos serviços por parte de um município ou associações de municípios

para uma empresa do respetivo setor empresarial local, a mesma é efetuada por via de um contrato

de gestão delegada que corresponde à figura do contrato de gestão prevista no regime do setor

empresarial local, Lei nº. 53-F/2006, de 29 de dezembro. Para além das exigências do regime do

setor empresarial local, os contratos de gestão delegada entre os municípios e as empresas devem

mencionar quais os objetivos a prosseguir pelas empresas, iniciativas, investimentos, e a política de

tarifários a seguir, sendo este mesmo contrato sujeito a revisões periódicas de cinco anos. Esta

exigência foi resultado da entrada em vigor do Decreto-Lei nº. 194/2009, de 20 de agosto, que

estabelece o regime jurídico dos serviços municipais de abastecimento público de água, de

saneamento e de gestão de resíduos urbanos. No caso de parcerias entre municípios e empresas

privadas, o contrato deverá definir o período de permanência mínima do parceiro privado, bem como

opções de compra e venda das respetivas ações, a fim de permitir a saída de uma das partes, ou

seja, por iniciativa do próprio privado ou do município. Este tipo de gestão foi pela primeira vez

consagrado na Lei de setor empresarial local, em 1998, a qual veio a permitir a criação de tais

empresas. Atualmente em vigor, o regime jurídico da atividade empresarial local, e das participações

locais, continua a permitir a criação deste tipo de empresas, que se caracterizam por empresas

locais com natureza municipal, intermunicipal ou metropolitana, assim como preveem que as

mesmas sejam responsáveis pela gestão de serviços de interesse geral, o qual inclui, entre outros,

a gestão de resíduos urbanos.

As delegações a juntas de freguesias, ainda que seja uma delegação que nem sempre tenha

sido devidamente formalizada, a Lei nº. 75/2013, de 12 de setembro, que revogou a Lei nº 159/99,

de 14 de setembro, permite que os municípios possam delegar competências às freguesias,

competências e tarefas essas que devem estar inseridas no âmbito das suas atribuições.

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4.2.3. Modelo de gestão concessionada

As concessões de serviços de titularidade estatal designam-se de concessões

multimunicipais e tais contratos de concessão apenas podem ser celebrados com empresas de

capitais maioritariamente públicos, condição essa imposta pela alteração da Lei de delimitação de

setores, Lei nº. 88-A/97 de 25 de julho. Embora a lei admita a participação minoritária de capitais

privados, até à data esta possibilidade não tem sido recorrida. Este modelo de gestão é criado e

atribuído pelo Estado sob a forma de Decreto-Lei, sendo efetuado de seguida o respetivo contrato

de concessão. Este contrato pode ter uma durabilidade máxima de 50 anos. O Estado assume o

papel de concedente e é representado pelo membro do governo responsável pela área ambiental,

tendo poder de fiscalização, autorização, suspensão e aprovação. Quanto ao controlo

económico-financeiro e à fixação do tarifário a praticar pelos sistemas de titularidade estatal com a entrada em

vigor da Lei nº. 10/2014, de 6 de março, tais competências foram atribuídas à ERSAR. Em termos

de capital, a concessionária tem de possuir maioritariamente capital público, que pode ser detido

pelo Estado e ou pelos municípios servidos pelo sistema, sendo que por regra as participações

estatais deveram ser maioritárias, e o contrário deve verificar-se com as participações privadas que

devem ser minoritárias. Os contratos de concessão dos sistemas multimunicipais permitem ainda a

subconcessão e o trespasse, uma vez autorizado pelo concedente, para uma outra entidade de

capitais maioritariamente públicos. No caso da subconcessão a concessionária mantém os direitos

e obrigações do contrato de concessão, e no caso do trespasse os direitos e obrigações são

transferidos definitivamente para a trespassária.

No caso das concessões de serviços de titularidade municipal as mesmas são atribuídas a

empresas de capital privado no âmbito de procedimentos de contratação pública, à luz do Código

dos Contratos Públicos, aprovado pelo Decreto-Lei nº. 18/2008, de 29 de janeiro, bem como ao

regime do Decreto-Lei nº. 194/2009, de 20 de agosto. O prazo máximo de concessão é de 30 anos.

No contrato de concessão são definidos os direitos e obrigações da concessionária nomeadamente

quanto à prestação do serviço, é estabelecida a fórmula de atualização anual das tarifas, sendo

sujeitas a validação pelo concedente, assim como a definição das condições em que a

concessionária terá direito à reposição do equilíbrio económico-financeiro, no caso de se verificarem

alterações significativas das condições de exploração, por iniciativa do concedente ou por alterações

das normas legais e regulamentares em vigor à data de concessão. A transmissão, seja total ou

parcial, não é permitida nas concessões de sistemas municipais.

Para um melhor processo de tomada de decisões, à semelhança do imposto para a constituição

de empresas municipais, de sistemas intermunicipais e de parcerias entre os municípios e o Estado,

passou também a exigir-se que a decisão de concessionar fosse procedida de um estudo

económico-financeiro. O mesmo deve demonstrar tal capacidade da concessão e a racionalidade

económico e financeira que este modelo de gestão acresce com a sua aplicação, nomeadamente

quanto aos ganhos expectáveis de eficiência, assim como quanto ao risco transferido para o

concessionário ser melhor gerido.

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A tabela que se apresenta de seguida, Tabela 2, pretende fazer um resumo das diversas

tipologias de entidades gestoras em resultado dos diferentes modelos de gestão passiveis de serem

adotados pelos Municípios e pelo Estado para a prestação de serviços de águas e resíduos.

Tabela 2 - Modelos de gestão, entidade titular e entidades gestoras

Fonte: Adaptado de ERSAR (2012)

Uma vez caracterizados e resumidos os diferentes tipos de modelos de gestão no setor de

gestão de resíduos, e de acordo com o Relatório Anual de Serviços de Águas e Resíduos em

Portugal apresenta-se de seguida a Tabela 3. A mesma apresenta o número e a distribuição de

entidades gestoras para cada modelo de gestão e sistema constituído, no ano de 2017 em Portugal

continental. De acordo com a mesma podemos verificar que, quanto ao tipo de sistema de atividade,

são em maior número as entidades gestoras de atividades em baixa (255) do que as entidades

gestoras de atividades em alta (23). Relativamente aos modelos de gestão praticados pelas

entidades gestoras verifica-se uma predominância do modelo de gestão direta, adotado na

totalidade por 240 entidades gestoras, seguindo-se o modelo da gestão delegada com 26 entidades

gestoras a adotarem-no, e com menor frequência de adoção surge o modelo de gestão

concessionada, com apenas 12 entidades gestoras.

Modelos de gestão, entidade titular e entidades gestoras

Entidade titular Modelo de gestão Entidade gestora

Estado

Gestão direta Estado

Gestão delegada Empresa do setor empresarial do Estado

Gestão concessionada Empresa de capitais maioritariamente

públicos (do Estado ou dos Municípios)

Municípios

Gestão direta Serviços municipais ou municipalizados

Associação de municípios (serviços

municipalizados)

Gestão delegada Empresa do setor empresarial local

Empresas de capitais estatais e

municipais, criada no âmbito de uma

parceria entre os municípios e o Estado

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Número de entidades gestoras prestadoras de serviços de resíduos

urbanos existentes por Modelo de gestão em Portugal continental

Modelo de gestão Sistema

em alta

Sistema

em baixa Total

Modelo de gestão direta 3 237 240

Submodelo

de gestão

Associação de municípios 3 2 5

Serviços municipalizados ou

intermunicipalizados

0 7 7

Serviços municipais 0 228 228

Modelos de gestão delegada 8 18 26

Submodelo

de gestão

Delegações estatais 0 0 0

Parcerias Estado/Municípios 0 0 0

Empresas municipais ou

intermunicipais

8 18 26

Juntas de freguesia 0 0 0

Modelo de gestão concessionada 12 0 12

Submodelo

de gestão

Concessões multimunicipais 12 0 12

Concessões municipais 0 0 0

Total 23 255 278

Tabela 3 – Panorama geral das entidades gestoras que compõem os serviços de gestão de

resíduos urbanos em Portugal no ano de 2017

Fonte: Adaptado de ERSAR (2018)

Observando os dados, e cruzando os sistemas de atividades com os modelos de gestão

adotados, podemos verificar que as entidades gestoras que adotam o modelo de gestão direta

efetuam essencialmente atividades em baixa (98,8%), ao passo que as entidades gestoras que

adotam o modelo de gestão concessionada efetuam exclusivamente atividades em alta. Quanto ao

modelo de gestão delegada, as entidades gestoras dividem-se entre os dois tipos de sistemas ainda

de que uma forma não tão evidente como os dois outros modelos de gestão existentes. Assim, das

entidades gestoras que praticam o modelo de gestão delegada 69,2% das entidades são

responsáveis por atividades em baixa, e 30,8% das entidades realizam atividades em alta.

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