5.2 DIVISÃO SEXUAL DO TRABALHO
5.2.2 Modelos hegemônicos
Em primeiro lugar, no que diz respeito ao modelo tradicional da divisão sexual do trabalho, podemos dizer que ele, conjuntamente com o modelo de conciliação e de delegação, são hegemônicos, em nossa sociedade. Os integrantes dos grupos pró-vida defendem alguns aspectos destes modelos, enquanto as integrantes dos grupos feministas criticam tais modelos, devido ao fato de irem de encontro a uma sociedade mais igualitária para os gêneros. Ambos os modelos hegemônicos delegam as atividades da esfera privada quase que exclusivamente às mulheres, naturalizando-as, impactando na entrada delas na esfera pública e na entrada dos homens.
Destacamos, inicialmente, a fala de Jorge Ferraz – representante dos grupos pró-vida – a presença de elementos do modelo tradicional da divisão sexual do trabalho; como exemplo, está a consideração que, em determinadas circunstâncias, as mulheres são mais adequadas para realizarem os trabalhos da esfera privada, enquanto os homens o são para realizar os da esfera pública, na promoção do sustento da família, e ainda, exercendo a posição de autoridade familiar, como fica patente nos trechos citados. Diz ele:
O homem é o cara que vai, entra na mina de carvão para prover o sustento da sua família, para sua mulher e seus filhos […] Esse modelo, digamos, tradicional, ele tem a sua razão de ser, ele é plenamente justificado. Agora ele é justificado em algumas condições, que podem ser até as condições de algumas pessoas de classes sociais mais baixas.
E ainda:
É preferível que a mãe fique em casa com os filhos e que quem vá se submeter à violência urbana seja o homem. Por sua natureza... mais... mais... propícia para isso. Ou seja, a mãe faz mais falta ao filho […] do que o pai. Na fala citada abaixo, proferida pelo vigário Lino Duarte, podemos igualmente observar algumas características do modelo tradicional de divisão sexual do trabalho, como a naturalização das habilidades das mulheres para as atividades domésticas (grifo 1); ao mesmo tempo, podemos observar, também, a articulação entre os modelos de divisão do trabalho entre os sexos tradicional e de conciliação (grifo 2). Neste último, embora as mulheres estejam vinculadas ao mercado de trabalho, continuam sendo consideradas mais aptas para as atividades realizadas em âmbito doméstico. Diz ele:
A natureza da mulher tá mais aberta para isso, sente mais apego, é uma coisa bem instintiva, ela se sente bem com isso. […] Então... eu vejo como algo da própria natureza da mulher, ela se sente chamada a cuidar dessas coisas, mas também não é uma coisa radical de que homem tem que tá fora de casa para ganhar dinheiro, para prover as coisas; agora, que a mulher tem que ficar em casa, para se resguardar, cuidar dos filhos, cozinhar, lavar roupas, ai já é demais. Mas eu acho que é uma coisa da natureza esse jeito, bem amoroso, o homem até tenta ajudar, mas muitas vezes não tem muito jeito. Podemos identificar características indicadas no referencial teórico sobre o modelo de conciliação da divisão sexual do trabalho. Nas falas de entrevistados de grupos pró-vida, há uma ênfase sobre as mulheres poderem integrar-se ao mercado de trabalho, mas de forma a sobrepor os trabalhos já realizados com os cuidados com os(as) filhos(as) e a casa; fica clara, no trecho grifado, a responsabilização quase exclusiva das mulheres com esses trabalhos, legitimando o que chamamos de dupla jornada de trabalho. Neste trecho da fala de Jorge Ferraz fica ainda mais explícito:
Porque a nossa, pela mesma razão, a nossa situação de vida hoje em dia, permite que a mulher tenha uma certa liberdade, que ela consiga uma realização profissional, sem que isso implique em um desleixo com a sua prole, com os seus filhos. Então... se você consegue conciliar as duas coisas, o cuidado com os filhos com a realização profissional, eu acho que isso pode... sim, acho que é um modelo bem interessante.
As entrevistadas Paula Viana e Sandra Valongueiro – que representam as ideias dos grupos Feministas nesta pesquisa – criticam o modelo de conciliação quanto à sobreposição das atividades anteriormente realizadas pelas mulheres na esfera doméstica, com as atividades da esfera pública, sem que seja dada a entrada dos homens, de forma significativa, na divisão das atividades da esfera privada. Nas palavras delas:
[...] na divisão sexual do trabalho, tem a questão do trabalho produtivo e reprodutivo, que o nosso não é reconhecido. É o que eu digo para as meninas quando vou fazer oficina. Pegue aí da hora que você acorda até a hora que você vai dormir e bote todas as tarefas e coloque se você fosse pagar isso ai, quanto custava. A questão do trabalho produtivo e reprodutivo é mesquinha para nós mulheres, a dupla jornada de trabalho, e aí essa é uma luta imensa do movimento feminista inclusive.
[...] as mulheres entraram no mercado de trabalho ainda de forma muito desigual […] Então, eu acho que houve um avanço muito grande para as mulheres, mas acho que elas ainda sofrem muito por causa da estrutura, porque as mulheres, elas estão no mercado de trabalho, estão tomando conta da casa, estão tomando conta dos filhos, e em tudo isso tem uma sobrecarga muito grande.
Identificamos também elementos do modelo de delegação, que emergem conjuntamente ao modelo de conciliação, modelo no qual as mulheres de classe social mais alta delegam uma parte das atividades realizadas na esfera produtiva para trabalhadoras domésticas. É claro na fala de Jorge Ferraz sobre o modelo de delegação, que as atividades que não são transferidas a uma trabalhadora doméstica, como, por exemplo, a educação e cuidado com os(as) filhos(as), continuam quase que exclusivamente sob a responsabilidade das mulheres. No primeiro trecho da fala de Jorge Ferraz podemos perceber que ele discorda do modelo de delegação a partir do momento em que os trabalhos relacionados à família são colocados em segundo plano :
Esse eu já discordo, porque eu acho que isso é você, sabe... inverter as prioridades. Eu acho que quando você... quando você... constitui família, você tem que estabelecer uma hierarquia entre a sua família e o seu
trabalho. E eu acho que o trabalho ele deve ser... o trabalho deve ser um veículo para você suprir os gastos da família. Quando você terceiriza os serviços de casa para você poder trabalhar, poder se desenvolver, ai eu já acho que você está vendo seu trabalho como um fim em si mesmo e sem dar valor à sua família. Então, eu acho que isso não é muito interessante. Ainda nas palavras de Jorge Ferraz, é demonstrativo da responsabilização quase que exclusiva das mulheres pelos cuidados com os(as) filhos(as), o trecho em que o entrevistado comenta a respeito de um programa de televisão que traz ao palco as mães e as babás, sendo feitas perguntas com relação às crianças. Ele diz então que, uma parte significativa das vezes, as babás acertam mais as perguntas do que as mães. O entrevistado não menciona em nenhum momento o papel paterno nos cuidados com os filhos. Observe:
Assim, as babás passavam a conhecer mais dos filhos das patroas do que as próprias mães. Eu acho que há alguma coisa errada com isso. [...] eu acho que não é muito normal você deixar que o seu filho seja mais familiar com uma pessoa a qual você tem uma relação profissional, do que uma relação pessoal.