6 RELAÇÃO ENTRE O CONTEXTO ESTILÍSTICO E A AVALIAÇÃO ESTÉTICA
7.3 FAMILIARIDADE E AVALIAÇÃO DOS MODELOS CROMÁTICOS
7.3.1 Preferência estética dos modelos históricos nos estilos colonial, eclético e
7.3.1.1 Modelos historicamente adequados do estilo colonial
Constatou-se que a apreciação do nível de beleza dos modelos históricos coloniais não foi muito favorável em nenhuma das cidades, concentrando-se, na sua maioria, num limite inferior a 55% das indicações. Somente dois modelos ultrapassaram tal limite: B1, em Bagé, e C1, avaliado em porcentagem superior em todas as cidades, exceto Piratini.
Observou-se, também, que, na avaliação dos modelos, os respondentes de cada cidade realizaram as avaliações em escalas compatíveis, com frequências de indicações mantidas na mesma faixa de valores, porém os resultados apresentaram variação interna de
apreciação da amostra de modelos consideravelmente diferente. Em Jaguarão, por exemplo, observaram-se avaliações equivalentes de quase todos os modelos e, nas demais cidades, foram reveladas estimativas contrastantes com picos de preferências extremas, altas e baixas, como em Pelotas, Piratini e Bagé. Nessas preferências extremas, quase todos os moradores concordaram com o alto grau de beleza do modelo C1, com fundo branco e detalhes em azul, e quase todos igualmente rejeitaram os modelos K1 e S1, com pintura em uma única cor, amarela e branca. A Figura 7.13 ilustra as avaliações particulares realizadas nas cidades, com as frequências das indicações de beleza, e com o Mean Rank (Kruskal-Wallis) atribuído a cada um desses modelos pelos quatro grupos de respondentes.
n° 1 2 3 4 5 6 7 8 m od elos B1 C1 H1 K1 M1 R1 S1 T1 Pl 48,6% (74,41) 68,6% (81,23) 51,4% (84,09) 25,7% (76,31) 45,7% (79,44) 42,9% (71,16) 31,4% (75,54) 45,7% (76,29) Pr 38,9% (69,69) 47,2% (60,74) 44,4% (79,07) 19,4% (61,14) 44,4% (72,50) 33,3% (66,13) 13,9% (67,81) 52,8% (78,50) Jg 38,9% (65,44) 72,2% (80,32) 36,1% (61,61) 41,7% (75,71) 41,7% (66,60) 36,1% (72,14) 36,1% (75,49) 36,1% (67,75) Bg 63,4% (86,74) 63,4% (75,73) 34,1% (73,62) 29,3%( 83,62) 51,2% (78,98) 56,1% (86,78) 29,3% (78,62) 43,9% (75,39) Sig. p=0,100 n·s n·s n·s n·s n·s n·s n·s a)
Legenda 7.13a: valores de cada linha apresentam: 1) a esquerda em %, frequências de avaliação de beleza do modelo com soma de avaliações positivos, bonito e muito bonito e 2) (à direita, entre parênteses) Mean Rank do modelo resultado do teste Kruskal-Wallis;
Identificação das cidades: Pl - Pelotas; Pr - Piratini; Jg - Jaguarão; Bg - Bagé.
Sig. - níveis de significância do teste Kruskal- Wallis: * p ≤ 0,05; ** p ≤ 0,005; *** p ≤0,001; n·s - não significativo;
a porcentagem em negrito e o Mean Rank sublinhado marcam o valor mais alto atribuído para esse modelo entre as quatro cidades (sentido vertical). A célula em cinza destaca a preferência maior evidenciada numa certa cidade pelo modelo cromático (sentido horizontal).
Avaliação de beleza dos modelos históricos
0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% B1 C1 H1 K1 M1 R1 S1 T1
identificação dos modelos
e s c a la d e v a lo re s
Pelotas Piratini Jaguarão Bagé
b)
Figura 7.13: Avaliação das preferências estéticas dos modelos históricos do estilo colonial nas quatro cidades (frequências de indicações de beleza e Mean Rank Kruskal-Wallis)
Foram realizadas as avaliações específicas em cada uma das cidades. Os respondentes de Jaguarão perceberam os modelos históricos adequados às edificações
coloniais de modo muito homogêneo, com preferências estéticas moderadas, entre 41,7% e
36,1% das indicações. Somente um modelo, C1, foi avaliado com grau de beleza expressivamente mais alto (72,2%) e assim se ressaltou entre os outros modelos da amostra. Em conseqüência desse julgamento uniforme, os jaguarenses colocaram-se em oposição aos demais grupos de moradores na avaliação de alguns modelos. Por exemplo, o K1, apontado com preferências mais baixas nas outras cidades, foi valorizado em Jaguarão
de forma desproporcional. O mesmo ocorreu com T1, contrariamente mais favorecido em outros locais, e rejeitado em Jaguarão (Figura 7.13b). Assim, nessa cidade, procedeu-se a uma avaliação indiferente dos modelos, com destaque num único modelo.
Em Bagé, os respondentes apreciaram vários modelos cromáticos positivamente, atribuindo-lhes nível de beleza mais alto do que os outros grupos de respondentes, inclusive entre os modelos menos preferidos, nenhum recebeu indicação abaixo de 29,3%. Os bajeenses destacaram-se marcadamente dos demais respondentes pelas preferências
estéticas nos modelos "coloridos", B1, com janelas em azul, M1, com detalhes em amarelo,
e R1, com esquadrias em verde, que receberam maior valorização nessa cidade (Figura 7.13b).
Em Pelotas, embora tenham sido realizadas avaliações contrastantes da amostra (com alta variação interna), as preferências estéticas dos respondentes, de um modo geral, não se diferenciaram das restantes cidades. Conforme o Mean Rank (Kruskal-Wallis), os pelotenses destacaram-se notavelmente dos outros grupos de respondentes apenas na avaliação do modelo H1, com fundo branco e janelas em vermelho, indicando esse modelo com grau de beleza maior (Figura 7.13b).
Apesar das particularidades demonstradas, as avaliações em todas essas cidades foram parecidas quanto à afinidade maior com os modelos "coloridos", ou seja, com variedade das cores. As discrepâncias, nesse aspecto, ocorreram somente em Piratini.
Os piratinienses realizaram julgamentos estéticos em nível de beleza relativamente baixo em toda a amostra histórica, inclusive demonstraram as frequências de indicações menores entre as quatro cidades nos modelos K1 e S1 (Figura 7.13b). Apontaram, como
mais preferidos, quatro modelos: C1, M1, H1 e T1. Entre essas pinturas históricas, o maior
número de piratinienses (52,8%) destacou a beleza do modelo menos colorido, T1, com fundo branco e esquadrias em marrom. Esse modelo foi indicado em Piratini com frequência representativamente maior do que todos outros modelos do grupo, e também computou o
Mean Rank (Kruskal-Wallis) mais alto entre as quatro cidades.
Esse fato foi, ainda, marcante porque os piratinienses, tendo a propensão (revelada na análise do conjunto completo de vinte modelos), a rejeitar os modelos com complexidade
baixa e afinidade por cores fortes e saturadas (ver Anexo G1, item 1.1.1), superaram essa
predisposição e indicaram o modelo T1 – que representa uma coloração muito simples, em uma cor branca –, como mais bonito da amostra. Tal valorização estética do modelo simples, principalmente entre outras pinturas "coloridas" do grupo histórico, não foi encontrada em nenhuma das outras cidades.
Na comparação do ranking da amostra dos modelos históricos, organizado em sequências decrescentes, notaram-se também algumas discrepâncias entre os respondentes na contribuição dos atributos cromáticos (Figura 7.14, adiante). Os moradores
de Bagé e Piratini, por exemplo, valorizaram mais os modelos com componentes em azul, C1 e B1. E os de Pelotas e Jaguarão apreciaram ainda os modelos em cor amarela. Cumpre lembrar que, nessas cidades, na avaliação dos conjuntos completos, dois componentes, tanto o azul quanto o amarelo, potencializaram a avaliação estética dos modelos. Isso evidenciou que as tendências gerais de apreciação foram mantidas na avaliação dos modelos históricos nas quatro cidades.
Pelotas Piratini Jaguarão Bagé
Valor CC TE NC M.R. CC TE NC M.R. CC TE NC M.R. CC TE NC M.R. ≥12 C1 ■ m 13,70 C1 ■ m 11,90 C1 ■ m 13,72 C1 ■ m 13,13 M1 ■ m 11,91 B1 □ m 11,63 R1 ■ m 10,83 B1 □ m 12,73 H1 ■ m 11,56 M1 ■ m 11,61 M1 ■ m 10,63 R1 ■ m 12,24 ≥11 T1 ● b 11,44 T1 ● b 11,56 B1 □ m 10,49 M1 ■ m 11,78 B1 □ m 11,36 H1 ■ m 11,38 T1 ● b 10,46 T1 ● b 10,87 ≥10 R1 ■ m 10,21 R1 ■ m 10,07 S1 ● b 10,06 H1 ■ m 9,83 <10 S1 ● b 9,34 S1 ● b 8,44 K1 ● b 9,26 S1 ● b 9,32 K1 ● b 8,79 K1 ● b 7,18 H1 ■ m 8,81 K1 ● b 9,01 Figura 7.14: Sequências ordenadas dos modelos cromáticos historicamente adequados às edificações coloniais, conforme avaliação de beleza nas quatro cidades
Legenda: CC - identificação de modelos com componentes cromáticos diferentes: azul, amarelo, cor-de-rosa e cinza; TE - identificação de tipos de estruturação das cores nos modelos: ● - uma única cor; □ - detalhes claros; ■ - detalhes escuros; NC - identificação do nível de complexidade da composição cromática: a - alta; b - baixa; m - moderada; M.R- Mean Rank da amostra de modelos computado em cada cidade através do teste Kendall W. Obs.: Cada modelo histórico recebeu Mean
Rank (Kendall W) dentro da amostra total dos modelos.
As sequências de ordenamento evidenciam ainda que, na avaliação efetuada em Jaguarão, a maioria dos modelos, exceto o C1, obteve um Mean Rank (Kendall W) significativamente mais baixo em comparação com os valores obtidos em Piratini para as mesmas tipologias. Os jaguarenses demonstraram também estimativa bastante inferior do modelo H1, com esquadrias em vermelho (ver comentários no Anexo G1, item 3.1.1).
Assim, o estudo demonstrou que a avaliação estética dos modelos cromáticos
historicamente adequados às edificações coloniais diferencia-se nas quatro cidades. Os
grupos de respondentes não demonstram um padrão uniforme de julgamento, pois discordaram quanto ao tipo de modelos mais e menos preferidos e à intensidade das indicações de beleza.
Os moradores de três cidades, Pelotas, Jaguarão e Bagé, assemelharam-se na apreciação de beleza dos modelos cromáticos com componentes "coloridos", mas os moradores de Piratini apontaram, como mais bonito, o tradicional exemplo da coloração da edificação colonial "menos colorido". As evidências permitem inferir que essa postura foi influenciada pela familiaridade com o contexto estilístico – edificações do estilo colonial – presentes e mantidas como patrimônio histórico da cidade – e com o possível conhecimento da pintura antiga, discreta, dessas edificações. A familiaridade com o contexto estilístico (edificações específicas) interferiu na resposta estética sobre os atributos de tais edificações, afetando deliberadamente a avaliação dos modelos cromáticos (exemplo H1).