• Nenhum resultado encontrado

3.2 Modelagens computacionais

3.2.1 Modelos interativos

Langley (1982) apresenta o AMBER, um MCA em que o aprendiz melhora sua perfor- mance atrav´es de procedimentos para recorrer de erros. O AMBER se caracteriza por ser um sistema de produ¸c˜ao adaptativo, que inicia com a capacidade de produzir enunciados de uma palavra e vai combinando mais palavras na medida em que novas regras s˜ao criadas. O objetivo ´e combinar v´arias palavras e morfemas na ordem correta e sem erros de omiss˜ao ou comiss˜ao1. A aprendizagem se d´a a partir da compara¸c˜ao entre senten¸cas previstas (produzi- das pelo aprendiz) e observadas (produzidas pelo adulto). Sempre que um erro ´e encontrado, o aprendiz produz regras mais conservadoras, contendo mais condi¸c˜oes.

Uma regra n˜ao passa a ser utilizada logo ap´os criada, mas sim ap´os ser hipotetizada um certo n´umero de vezes, o que garante `a regra a “for¸ca” necess´aria para entrar na produ¸c˜ao de senten¸cas. Com isso, o AMBER aprende gradualmente, passando por est´agios contendo cada vez mais palavras e morfemas e consegue mimificar em parte a ordem de aquisi¸c˜ao de alguns morfemas do inglˆes (por exemplo, adquirindo o progressivo antes dos auxiliares). O modelo distingue entre palavras de “conte´udo” e funcionais, utilizando informa¸c˜oes sobre pausa (codificadas nos dados de entrada) para determinar os limites dos sintagmas e, assim, identificar a quais palavras correspondem certos morfemas, simulando o papel da informa¸c˜ao pros´odica na aquisi¸c˜ao.

As limita¸c˜oes do modelo incluem a ausˆencia de aquisi¸c˜ao lexical (palavras e significados)

1 Erros de omiss˜ao s˜ao aqueles em que o aprendiz deixa de responder (ou produzir) algo que deveria, enquanto erros de comiss˜ao, ao contr´ario, s˜ao aquelas situa¸c˜oes em que o aprendiz produz algo que n˜ao deveria produzir.

e a incapacidade de lidar com formas irregulares. O conhecimento adquirido consiste de senten¸cas declarativas, contendo ou n˜ao auxiliares e com algumas varia¸c˜oes, como verbos no progressivo. O modelo converge com um corpus relativamente pequeno de senten¸cas, adquirindo os auxiliares (o ´ultimo est´agio do modelo) por volta dos 300 exemplos. Antes do est´agio final, o aprendiz atinge uma MLU igual `a 7 ap´os 70 exemplos e a taxa de erros de omiss˜ao e comiss˜ao cai para zero ap´os 80 exemplos.

Embora consiga mimificar aspectos da aquisi¸c˜ao, o AMBER carece de uma base formal linguisticamente relevante para a representa¸c˜ao do conhecimento gramatical, que no modelo consiste basicamente em ordenar (linearmente) sintagmas e os morfemas contidos nestes. As senten¸cas n˜ao apresentam estrutura hier´arquica e os sintagmas (que a´ı s˜ao apenas sequˆencias de palavras e morfemas) est˜ao correlacionados com pap´eis tem´aticos b´asicos, como agente, objeto e a¸c˜ao). Portanto, a aquisi¸c˜ao no AMBER est´a mais para aprender a repetir o que ouve, do que adquirir de fato um sistema lingu´ıstico mais rico e capaz de interpretar e produzir exemplos in´editos.

Selfridge (1986) apresenta o CHILD, um modelo que tamb´em pressup˜oe a intera¸c˜ao entre um adulto e a crian¸ca e ´e capaz tanto de interpretar, quanto de produzir enunciados. A partir do retorno do adulto para as express˜oes produzidas por ele, o aprendiz faz ajustes na sua gram´atica at´e atingir a forma correta. O CHILD tenta dar conta de seis fatos da aquisi¸c˜ao pela crian¸ca, a saber: (i) que a compreens˜ao precede a produ¸c˜ao, (ii) que a taxa de crescimento do vocabul´ario cresce inicialmente e depois diminui, (iii) que o tamanho dos enunciados aumenta, (iv) que palavras irregulares s˜ao regularizadas, (v) que enunciados semanticamente improv´aveis s˜ao mal-compreendidos, e (vi) que passivas revers´ıveis s˜ao mal- compreendidas.

Para isso, o CHILD se configura tamb´em como uma teoria tanto da aprendizagem quanto do conhecimento gramatical da crian¸ca, conhecimento este que – em rela¸c˜ao `a sin- taxe – se distingue fortemente das teorias propostas pela gram´atica gerativa e assumidas

nesta pesquisa, pois n˜ao assume nem categorias, nem regras para constru¸c˜ao da estrutura hier´arquica. No CHILD, a sintaxe se restringe `a especifica¸c˜ao de rela¸c˜oes de ordem linear envolvendo os elementos correlacionados a pap´eis tem´aticos (5a), semelhante ao AMBER, portanto. Parte dos enunciados s˜ao acompanhados da representa¸c˜ao semˆantica (a entrada “visual”) que especifica predicados, pap´eis tem´aticos (no caso de verbos) e modificadores envolvidos, como em (5b-d).

(5) a. Sintaxe: (ACTOR): precedes “give,” (OBJECT), (TO VAL)

b. give, (ATRANS ACTOR (NIL) OBJECT (NIL) TO (POSS VAL (NIL))) c. ball,(BALL1 REF (NIL))

d. the,(DEF)

Quando o enunciado n˜ao vem acompanhado da representa¸c˜ao semˆantica, o aprendiz conta com um procedimento para inferir o sentido, que escolhe o melhor candidato (em caso de haver ambiguidade) e o submete ao “usu´ario” (do programa) para que dˆe um retorno sobre a escolha. Se negativa, o aprendiz repete o processo e escolhe o “pr´oximo melhor” candidato. A aquisi¸c˜ao lexical no CHILD ´e trans-situacional, isto ´e, o sentido de uma palavra ´e obtido atrav´es da compara¸c˜ao dos contextos em que ela ocorre, de modo a obter a parte do sentido que lhe correspondente unicamente (sem tratamento de homon´ımia ou polissemia). A aquisi¸c˜ao sint´atica ocorre na medida em que mais de uma palavra ´e reconhecida e rela¸c˜oes de ordem podem ser estabelecidas entre elas. Durante a aquisi¸c˜ao, o aprendiz atravessa oito est´agios.

No est´agio um, sem nenhum conhecimento de palavras e sintaxe, o aprendiz apenas ouve os enunciados e responde (ao adulto) com “hum”. No est´agio dois, ele come¸ca a convergir para os sentidos de algumas palavras e a produzir enunciados de uma palavra. No est´agio trˆes, come¸ca a aprender a ordem b´asica entre sujeito, objeto e verbo. No est´agio quatro, palavras come¸cam a ser adquiridas numa ´unica exposi¸c˜ao, enunciados come¸cam a apresentar de 3 a 5 palavras e a interpreta¸c˜ao dos pap´eis dos elementos do enunciado ´e baseada em

preferˆencias semˆanticas. No est´agio cinco, o aprendiz come¸ca a regularizar verbos irregulares, processo que termina no est´agio seis. No est´agio sete, senten¸cas ativas j´a s˜ao compreendidas com base no conhecimento sint´atico, sendo as passivas revers´ıveis ainda mal-compreendidas. No est´agio oito, enfim, passivas come¸cam a ser interpretadas corretamente com base no conhecimento sint´atico.

N˜ao h´a informa¸c˜oes quantitativas sobre a modelagem, tais como a extens˜ao do corpus ou o ritmo do aprendizado. Em termos gerais, o modelo parece mimificar relativamente bem certos aspectos da aquisi¸c˜ao. Por´em, assim como no AMBER, o CHILD carece de uma re- presenta¸c˜ao mais adequada do conhecimento sint´atico, que aqui tamb´em ´e visto basicamente como ordena¸c˜ao linear de palavras e sequˆencias de palavras (sintagmas). Como dito acima com respeito ao AMBER, isto impede que o aprendiz seja capaz de refletir a criatividade de um falante t´ıpico.

No que tange `a interpreta¸c˜ao de ativas e passivas, o modelo me pareceu bastante problem´atico, pois depende de duas propriedades bastante artificiais: um pr´e-conhecimento do aprendiz sobre preferˆencias semˆanticas (p.e., para cada verbo, que tipo de elemento costuma ser o agente ou o paciente) e a supress˜ao artificial de sua capacidade de inferˆencia por um certo per´ıodo de tempo. Portanto, o CHILD ´e um modelo que mimifica certos est´agios da aquisi¸c˜ao, por´em o faz com base em mecanismos extra-lingu´ısticos espec´ıficos e n˜ao em fun¸c˜ao de poss´ıveis propriedades do pr´oprio conhecimento sendo adquirido. Isto o torna menos interessante do ponto de vista te´orico.