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CAPÍTULO 2. A Influência das Mídias na Cognição Humana Durante o Processo Projetual Arquitetônico

2.7. Os Modelos Mentais

2.7.2. Modelos Mentais: Mudança Conceitual e os Sistemas CAD

A pesquisa em modelos mentais descreve as fases pelas quais as pessoas passam enquanto mudam seus conceitos em vários domínios. A aquisição de conhecimento pode ser vista como a reestruturação de modelos baseados em um conhecimento anterior para ajustar- se a uma informação nova. Ocasionalmente, porém, quando estes modelos sintéticos são confrontados com mudanças maiores, eles têm que sofrer uma reestruturação radical antes que possam ajustar-se ao modelo conceitual do mundo real.

A teoria de modelos mentais e mudança conceitual pode ser usada para explicar o que parece estar acontecendo na utilização de sistemas CAD para a projetação arquitetônica. Baseados no modo como os sistemas CAD são descritos e projetados, os usuários poderiam começar formando um modelo mental do sistema CAD como uma mera ferramenta de traçado eletrônica requerendo uma pequena mudança no modo como são executadas as tarefas de desenho. Descrições introdutórias apresentam declarações tais como "CAD é uma expansão

do modo como você desenha” (OBERMEYER, 1987, p. V). O modelo de uma ferramenta de

traçado eletrônica é reforçado por conceitos como ‘desenhos’ e ‘camadas’ que são diretamente conectados aos conceitos do uso de papéis para o desenho manual e o uso da sobreposição de folhas durante o traçado. Seguindo tais introduções, o usuário é exposto aos detalhes do uso dos comandos, principalmente sobre o local destes comandos e o procedimento necessário para executá-los.

Inundado com o conhecimento sobre as ferramentas, mas sem estratégias explícitas para decompor as tarefas para fazer uso dos comandos como ferramenta de projetação, os arquitetos simplesmente ajustam seu modelo de traçado manual para incorporar o novo conhecimento dos comandos. Porém, este ajuste superficial causa problemas porque o modelo conceitual subjacente ainda é o de uma ferramenta de traçado de desenho eletrônica em lugar de um sistema CAD que requer estratégias diferentes, gerando uma subutilização da ferramenta.

Embora a explicação acima apresentada pareça plausível, ela não pode esclarecer porque os usuários dos sistemas CAD não descobrem as estratégias com o passar do tempo e não fazem uma mudança conceitual aprofundada de seus modelos mentais. Os arquitetos, executando projetos complexos, no computador, por muitos anos, têm muitas oportunidades para descobrir, mesmo que por acaso, estratégias mais eficientes. As pesquisas em aquisição de habilidades em muitos domínios mostram que as pessoas com o tempo alcançam um estágio denominado de aprendizagem estratégica. A aprendizagem estratégica é descrita como

"a melhoria que acontece porque as pessoas aprendem um modo ótimo para organizar a solução do problema em um domínio específico” (ANDERSON, 1990, p. 257).

O que acontece com os usuários dos sistemas CAD para que estes não alcancem este nível de aprendizado? Nossa revisão bibliográfica sobre o uso dos sistemas CAD mostra que mesmo após muitos anos de experiência, os arquitetos tendem a usar estratégias ineficientes na execução de tarefas complexas. Adicionalmente, algumas destas estratégias têm uma marcada semelhança com técnicas de traçado manual. Acreditamos que isso se deve ao fato do conhecimento estratégico para usar os sistemas CAD eficientemente não ter sido definido nem explicitamente ensinado. Na falta de uma estratégia bem-formada, os usuários freqüentemente desenvolvem um modelo mental sintético dos sistemas CAD contendo uma mistura dos métodos manuais e computacionais. Como estas estratégias ineficientes, necessariamente, não impedem que os usuários produzam projetos precisos bem como são poucos os mecanismos que fazem uma avaliação sobre o uso ineficiente, estas ineficiências tendem a permanecer não reconhecidas e os usuários têm pouca motivação para desenvolver estratégias melhores. Na verdade, os usuários desenvolvem uma abordagem que é uma mistura dos métodos manuais e computacionais que resultam em uma subutilização das ferramentas CAD. Uma possível forma para reverter esta situação seria aquela em que o conhecimento estratégico para a utilização efetiva dos sistemas CAD fosse explicitado e fornecido no início do aprendizado. Este conhecimento também poderia ser usado para re- projetar a interface com o usuário.

2.8. Conclusão

No capítulo acima, apresentamos o papel da cognição humana no processo projetual arquitetônico, abordando os processos cognitivos básicos e complexos, bem como os recursos e mecanismos cognitivos. Os processos cognitivos considerados básicos são: percepção, memória, raciocínio lógico, raciocínio cotidiano e linguagem. Os processos cognitivos considerados complexos são: resolução de problemas e formação de conceitos. Durante o processo projetual, apesar de nem tudo encontrar-se baseado em uma manipulação consciente

de idéias, diferentes processos de pensamento, recursos e mecanismos cognitivos alternam-se a fim de desenvolver o projeto.

A maior limitação imposta pelo sistema cognitivo durante o processo projetual é a pequena capacidade da memória de curto prazo. O projetista não consegue representar inteiramente na mente todos os condicionantes de um projeto arquitetônico, dependendo da memória externa na forma de esboços. Portanto, o esboço é um modo de processamento das imagens mentais, produzindo um registro dos esforços mentais. Isto nos alivia da difícil tarefa de pensar sobre os nossos próprios pensamentos, corporificando nossos pensamentos e intenções em uma forma mais acessível aos nossos esforços reflexivos. Os esboços melhoram o desempenho de um arquiteto ao aumentar efetivamente sua memória e facilitando a avaliação de suas idéias.

Outra importante habilidade cognitiva do arquiteto é a capacidade de, durante a projetação, manter linhas paralelas de pensamento. Os arquitetos são capazes de pensar sobre uma edificação de muitos modos distintos ao mesmo tempo: como espaços, como componentes (paredes, pisos, tetos etc.), como sistemas (estrutural, revestimento, serviços, meio-ambiente, circulação etc.) como superfícies e assim por diante. E esta habilidade de manter várias linhas paralelas de pensamento por algum tempo, sem preocupar-se em reconciliá-las, ou seja, sem pressa em fazer os pensamentos convergirem, é central ao ato criativo de projetar.

Além de considerarmos o Processo Projetual como um ato criativo, também podemos considerá-lo como um processo de resolução de problemas. A resolução de problemas é um processo que envolve a identificação ou a definição do espaço do problema; depois a geração

de alternativas em um espaço de soluções na busca por uma solução.

Ao abordamos a criatividade na projetação verificamos a existência de dois principais tipos de pensamento criativo: o convergente (racional e lógico) e o divergente (intuitivo e imaginativo). No pensamento convergente (associado às Ciências) existe uma conclusão ou resposta única considerada correta. O pensamento divergente (associado às Artes), por outro lado, é caracterizado pela procura de alternativas, podendo existir diversas soluções para o mesmo problema, não há apenas uma resposta correta. Os projetistas são considerados mais divergentes que convergentes e a criatividade na projetação é bastante associada ao pensamento divergente. No entanto, há de se ter cuidado para não se confundir criatividade com pensamento divergente já que existem excelentes trabalhos artísticos e arquitetônicos fundamentalmente associados ao pensamento convergente.

A atividade projetual pode ser considerada como uma atividade divergente, já que raramente pode-se conceber que exista apenas uma resposta correta para um projeto. Esta apresenta, no entanto, inúmeras tarefas convergentes ao longo do processo. Portanto, a projetação usa tanto o pensamento convergente quanto o divergente.

Apresentamos os aspectos relevantes da teoria dos modelos mentais para o nosso projeto de pesquisa, evidenciando a dimensão figurativa do raciocínio. Os modelos mentais são representações psicológicas geradas por nossas mentes de situações reais ou imaginárias utilizadas para se compreender fenômenos específicos. Estes são formados pelos indivíduos para ajudá-los a compreender, explicar e predizer o mundo complexo de uma maneira simplificada. A grande importância dos modelos está no fato deles facilitarem a visualização de idéias, objetos, eventos, processos ou sistemas complexos, a partir da simplificação dos mesmos.

Quando tratamos sobre a Teoria dos Modelos Mentais destacamos o papel fundamental da mídia como fator que acarreta mudanças nos processos cognitivos dos indivíduos durante a projetação. Tentamos, a partir da mesma, também explicar o porquê da subutilização das ferramentas CAD para a projetação arquitetônica, já que mesmo após anos de experiência, os arquitetos não alcançam um nível de aprendizado estratégico, tendendo a usar estratégias ineficientes e semelhantes às técnicas de traçado manual. Acreditamos que isso se deve ao fato do conhecimento para usar os sistemas CAD eficientemente não ter sido definido nem ensinado levando os usuários a desenvolverem um modelo mental sintético dos sistemas CAD contendo uma mistura dos métodos manuais e computacionais. Como estas estratégias ineficientes não impedem que os usuários produzam projetos precisos bem como são poucos os mecanismos avaliativos sobre este uso ineficiente, estas ineficiências tendem a permanecer não reconhecidas e os usuários têm pouca motivação para desenvolver estratégias melhores, resultando em uma subutilização das ferramentas CAD.

Ao concluirmos o presente capítulo constatamos a grande importância da cognição humana no Processo Projetual Arquitetônico. No próximo capítulo, a fim de complementarmos nossos campos temáticos, analisaremos a influência das mídias neste processo.

CAPÍTULO 3. Lápis X Computador no Processo Projetual