A definição do conceito do bem-estar possui em sua base alguns referenciais teóricos que norteiam a estrutura do constructo e orientam o sentido da influência entre bem-estar e acontecimentos de vida. Dentre as principais teorias, estão as abordagens Base-Topo (Bottom
Up) e Topo-Base (Top Down).
A abordagem Base-Topo sugere que a satisfação imediata de necessidades tende a produzir o bem-estar, ao passo que a persistência de necessidades por satisfazer possa causar o mal- estar (Galinha & Pais-Ribeiro, 2005c). Os momentos positivos e negativos vivenciados pela pessoa são internalizados e produzem a experiência de bem-estar. De acordo com este ponto de vista, quanto mais eventos positivos a pessoa vivenciar, maiores níveis de BES reportará (Diener & Ryan, 2009).
A percepção do bem-estar como a soma de vários pequenos prazeres oriundos dos diversos domínios está assente na teoria do bottom-up. Destarte, a análise da satisfação global e do bem-estar passa pela avaliação dos momentos, que são percebidos como positivos ou negativos. Quando o indivíduo percebe que a frequência de momentos felizes é maior, a tendência é que ele denote satisfação e bem-estar (Diener, 2009). Durante o processo de
construção da avaliação global os domínios são ponderados e os resultados deste julgamento são agregados em uma avaliação integral de bem-estar (Schimmack, Diener, & Oishi, 2009), sendo esse processo intermediado pelos afetos (Lucas & Diener 2009).
Já a abordagem top-down preconiza que o grau de satisfação necessário para desencadear o bem-estar depende da adaptação ou do nível de aspiração, influenciados pelas experiências do passado, pelas comparações com outros, pelos valores pessoais e por outros fatores (Galinha & Pais-Ribeiro, 2005c). Desta maneira, a pessoa tem uma propensão inerente ao experimentar o mundo e isso que vai afetar suas interações. Um indivíduo com estado de mente mais positivo deve experimentar um evento como algo mais feliz do que uma pessoa com ponto de vista negativo. Assim, a atitude positiva, e não os eventos, seria o fator causal do bem-estar (Diener & Ryan, 2009).
A interpretação subjetiva dos eventos é que primariamente influencia o bem-estar subjetivo, e não o contrário (Giacomoni, 2004). Assim, a pessoa demonstra uma propensão a avaliar os momentos de maneira positiva porque é feliz, e nota-se que a personalidade tende a influenciar o tom afetivo que a pessoa utiliza ao avaliar as experiências, (Diener, 2009), tendência esta que permeia todos os elementos da sua vida (Lucas & Diener, 2009).
Em termos de sentido da influência ou predição entre as variáveis, a proposta de que as mudanças na satisfação com os domínios (e.g., um aumento na satisfação com o trabalho ou com as finanças) produzem alterações nos níveis de satisfação com a vida é presente somente na teoria bottom-up. As demais teorias partem da predisposição de que as mudanças na satisfação com os domínios não possuem nenhuma consequência na avaliação de satisfação com a vida feita pelos indivíduos (Schimmack, 2008).
Há, no entanto, outras teorias que explicam os fatores que antecedem o bem-estar. Dentre elas, podemos citar: influências disposicionais, metas e objetivos, cultura, comparações sociais e adaptação e coping (Lucas & Diener, 2008). Segundo os autores, as influências disposicionais sugerem a presença de elementos emocionais estáveis, que interferem na maneira como as pessoas respondem aos eventos e circunstâncias. Embora as respostas possam ser semelhantes, sua duração e intensidade tendem a ser moldadas pela personalidade.
As metas podem ser de origem biológica, psicológica ou consciente, sendo que o sucesso no atingimento pode influenciar o afeto positivo e as suas características podem afetar a felicidade. Os fatores culturais também podem interferir nas metas e objetivos, pois cada cultura possui seus próprios valores, bem como podem influenciar o peso dado a diferentes fontes de prazer e dor. Os autores sugerem que as pessoas que vivem em culturas individualistas tendem a valorizar o self como autônomo e autossuficiente, deste modo, as emoções e sentimentos podem ser fortes determinantes do comportamento. Já nas culturas
coletivistas, a harmonia entre trabalho, família e amigos importa mais que a autonomia. Assim, as emoções possuem maior impacto no BES ao considerarmos culturas individualistas.
As pessoas tendem a se comparar com as outras utilizando como referencial os padrões que estabeleceram para si mesmas. As comparações sociais são apontadas como fonte de bem- estar na medida em que o indivíduo percebe que excedeu os resultados em relação às suas referências. Os autores ressaltam que a escolha do referencial de comparação, o tipo de informação a ser comparada e a maneira como a pessoa usa esta informação podem ser um resultado, e não necessariamente uma causa do BES.
O modelo da adaptação partia do pressuposto de que as pessoas retornavam a um estado de neutralidade hedônica após vivenciarem experiências que suscitavam o afeto positivo ou negativo. Assim, ao atingir um objetivo a pessoa vivenciaria um estado de bem-estar, mas logo seu afeto retornaria a um estado neutro, o que faria com que ela novamente partisse em busca de novos objetivos, em um processo repetitivo. Entretanto, Diener, Lucas e Scollon (2006) avaliaram este modelo e propuseram cinco revisões acerca do processo de adaptação. Primeiro, o ponto de estabilidade afetivo não seria neutro, e sim positivo. Segundo, as pessoas possuem diferentes pontos de estabilidade, o que pode ser devido, parcialmente, a influências de personalidade. O terceiro ponto é que a adaptação ocorre de maneira diferente entre os componentes do BES, assim, o afeto positivo pode diminuir após o evento, embora seja possível que o nível de satisfação global não se altere. O quarto ponto é que nem sempre a adaptação ocorre, já que um evento pode alterar o BES permanentemente. Por fim, os indivíduos diferem na maneira em que se adaptam aos eventos.