2.2 CIDADE, COMPLEXIDADE E MODELOS URBANOS
2.2.2 Modelos urbanos e a cidade
Nas abordagens iniciais da teoria urbana, o território foi descrito de forma esquemática e as características específicas de cada local em grande parte ignoradas. O modelo concêntrico de Von Thünen (1826), na Figura 2.3, serviu de base para um conjunto de formulações que buscavam identificar os critérios de localização no espaço de atividades econômicas a partir relações de proximidade em que preços, distâncias e aluguéis explicariam os padrões de ocupação residencial e produtiva.
Figura 2.3 - Modelo concêntrico de Von Thünen
Fonte: Carr, 1997 apud Saraiva (2013, p. 11).
No século XX, a Teoria da Localização recuperou esta formulação para compor modelos de representação da urbanização (LÖSCH et al., 1954; CHRISTALLER, 1966) em que a proximidade ao centro de negócios era fator fundamental e orientava uma hierarquia clara entre atividades e escalas de produção e ocupação do espaço, tanto dentro de uma mesma cidade, como entre cidades e regiões. Deste grupo, certos autores (FEITOSA et al., 2011; BARROS, 2012) têm apresentado a validade das postulações de Hoyt (que pode ser visto na Figura 2.4), cujos setores mais valorizados se desenvolvem a partir de núcleo central, orientados pela ocupação das margens das infraestruturas viárias.
Figura 2.4 - Modelos urbanos concêntricos da Teoria da Localização: a) Christaller, 1933; b) Park e Burgess, 1925; c) Hoyt, 1939
Alonso (1964) e posteriormente Anas (1978) exploraram estas formulações sobre renda da terra, relacionando o movimento migratório da ocupação da cidade com a perenidade do capital investido na forma urbana. Representavam, assim, fenômenos como esvaziamento das áreas centrais e degradação da forma construída baseados em crescimento por anéis concêntricos a um núcleo original. Wheaton (1982) introduziu a durabilidade do capital investido como elemento de inércia na renovação das áreas já edificadas. De forma geral, condicionava a reocupação das áreas urbanizadas à uma tensão entre custos de expansão para áreas não urbanizadas com aumento das distâncias e reurbanização das áreas construídas para aproveitar benefícios de localização.
A representação do espaço nestes modelos, no entanto, era extremamente esquemática, pois ele era considerado como um plano regular e isento de características que diferenciassem o resultado dos processos econômicos que sobre ele atuavam, chamado de plano isotrópico por Nystuen (1963). Ingram (1971), ao introduzir o conceito de acessibilidade como uma medida de relações de proximidade entre custos de transporte e planejamento urbano, também trouxe a descrição do espaço de forma discreta, por elementos euclidianos de linha, ponto e superfície.
A representação da ação social também era extremamente simplificada nestes modelos, reduzida a um conjunto de equações que traduziam as forças sociais em princípios universais de equilíbrio. O aumento da precisão destes modelos, portanto, acarretava crescente sofisticação da representação do espaço e sociedade nestas equações, acrescentando parâmetros, mas mantendo a abstração de formulações matemáticas universais. A dificuldade em tratar estas equações para representar as forças sociais ocasionava que, em nome da simplicidade, estes modelos prescindissem da representação de variações e contradições dos fenômenos espaciais e sociais.
Mesmo décadas depois, os chamados Grandes Modelos (WEGENER, 1994) ainda apresentavam dificuldades em lidar com a diversidade de características e processos que compunham o espaço urbano (LEE JR, 1973). Ao operar a partir do conceito de equilíbrio, estes modelos em grande parte eram baseados em equações diferenciais o que lhes impedia de considerar as qualidades específicas de cada cidade. Buscavam comportamentos prevalentes e universais a todo o sistema urbano e tinham dificuldade em adaptar-se a idiossincrasias locais ou a alterações a não-lineares no tempo e espaço. O aumento da velocidade e da diversidade dos processos de urbanização e a integração crescente desta com dinâmicas econômicas globais tornou a capacidade de descrição destes modelos cada vez menos precisa, diminuindo sua validade e abrindo espaço para outras técnicas (BATTY, 2007a).
As reações a estas abordagens abstratas já ocorriam desde os anos 1960 com as contribuições das vias críticas da geografia (SMITH, 1989). A oposição mais dura vinha especialmente das contribuições marxistas na forma da teoria do desenvolvimento geográfico desigual (WALKER, 1978; SOJA, 1980; HARVEY, 1989); das escolas da regulação e produção global (GIBSON; HORVATH, 1983); da divisão espacial do trabalho (MASSEY, 1979) e da teoria da localização do trabalho (STORPER; WALKER, 1983).
Mesmo tratando a princípio de sistemas econômicos na escala mundial, parte destas abordagens passava a integrar aspectos do sistema produtivo-econômico às realidades locais, visando aproximar as dinâmicas globais das realidades específicas de cada lugar. Produziram avanço fundamental ao incluir as periferias globais no interior dos sistemas produtivos, com papel específico e em grande parte complementar às economias centrais (STORPER; WALKER, 1983; SCOTT, 2000; DAVIS, 2006a), mas não conseguiram integrar a diversidade local em modelos teóricos robustos, mantendo uma dicotomia entre formulações sobre os sistemas globais e as particularidades de cada grupo social (SMITH, 1989).
A partir dos anos 1980, o legado incompleto deixado por estas abordagens passou a ser evidenciado (SOJA, 1980; SMITH, 1989) e as aproximações sistêmicas aos processos sociais urbanos passaram a sugerir uma síntese que integrasse a via baseada nos comportamentos sociais e suas particularidades com os processos espaciais, assim como suas dimensões materiais específicas (PORTUGALI, 2000).
Mais recentemente, a escala intraurbana das periferias também passou a receber esforços importantes para sua compreensão. A simulação de crescimento urbano interno e externo combinados têm oportunizado aproximações às periferias (POLIDORI et al., 2010), enquanto o estudo do fenômeno da periferização (BARROS, 2012) combina elementos das dinâmicas centro-periferia e permite avaliar as suas correlações com a formação de áreas de informalidade de modo a considerar possibilidades de substituição, expansão ou consolidação. Avaliações microeconômicas apontam na mesma direção (ABRAMO, 2007) e evidenciam os mecanismos socioeconômicos de coordenação dos mercados formal e informal com o território.
No âmbito mais geral, a simulação computacional baseada em espaço geográfico23
tem trazido contribuições de campos heterogêneos através do papel central do território, vinculando elementos da ecologia da paisagem, da geografia pós-moderna e da geografia quantitativa para explorar a organização social da sociedade pós-industrial no espaço que ocupa. A reflexão neste sentido ocorre abrigando tanto processos dedutivos, de observação da realidade empírica e da teoria realizada sobre ela, quanto indutivos, questionando a inserção
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do conhecimento geográfico no contexto sociocultural contemporâneo (BUZAI, 1999). Apresentam-se possibilidades de articulação dos processos sociais com o território, incluindo a estruturação de métodos para aproximar as diversas escalas espaciais e temporais que envolvem.