Quando quase diariamente nas primeiras horas da madruga- da o silêncio tomava conta de tudo. Quando crianças e marido já postos em suas camas e a atmosfera ali ia se fazendo aos poucos quase sensual, Maria Alice emergia. Duas horas contadas, todas as noites – exceto sábados e domingos, que nesses havia o sexo pon- tual, automático – mas um par de horas que era a única liberdade possível dessa mulher.
Misturava-se às sombras, espraiada em seu domínio, naque- la casa, daquele séquito, dois meninos gêmeos de quatro anos, uma menina de dois, o marido que trabalhava das seis da manhã às oito da noite fora: era ali o seu reinado. A ordem, a calma, a paz, o inferno, tudo dependendo ansiosamente da inteireza de Maria Alice para continuar ou não, o dia inteiro, núcleo, para não fazer desmoronar o que se erguia em tijolos, cimento, vidros, lágrimas, algum riso, um bocado de leveza, no entorpecimento das tarefas frenéticas infindáveis – fraldas, o almoço, o jantar, os cafés, os do- ces, a limpeza, os remédios, as compras, a lavação, as roupas. Mas por duas horinhas a dança cessava, despegada de função, só respi- rando, às vezes acendendo furtiva – que o marido detestava – um cigarro, vezenquando abrindo – em esforço de silêncio – uma lata de cerveja, garrafa de vinho. E aquele gosto ácido amargoso de um ou de outro, adstringente, limpando um pigarro constante que tinha amarrando a garganta, cigarro-cerveja-vinho, licenciosidades quase ilícitas naquele cenário. Ficaria inerte, todos os dias, no es- condido, prazer sem muita paz, orgia solitária para, no dia seguin- te, as coisas todas recomeçarem cansativas sem grandes surpre- sas, nenhum impacto, cuidando do marido como de suas crianças: escolhendo e separando roupas em combinações que ele vestiria sem questionamento, no arame apertado do hábito, Maria Alice deixando tudo à mão para que pelo menos em casa a vida prática corresse fluida, sem dificuldades para ele. Que não a abandonasse
36 II Prêmio Ufes de Literatura não, porque apostava, jamais conseguiria caminhar sozinho, longe de seu amparo asfixia, sua mão prestimosa, tudo tão inominado, esse toma lá dá cá que ninguém percebe mas que nele enredado segue para dentro do olho de um furacão que ainda não rodopia.
Uma sensação de gelado contornava-lhe o corpo riscando a espinha, nessas horas em que era totalmente só. Frio do medo que principiava nessa liberdade que não, nunca lhe fora toda nova, mas uma liberdade assim delicada hermética nessas duas horinhas exangues – pavor de ser sempre, dia todo noite inteira livre sem gri- lhão sem amor sem nada. O que faria totalmente solta? Por outra, duas horinhas que traziam o sabor do que se inaugura, como se entrincheirar-se meio sem saber, quase perdida em si mesma, num momentinho roubado, lhe devolvesse singularidade originalidade que no correr cego e longo da semana dos dias anos se desfazia sem pegada.
Cuidar do marido: igual a seguir para a feira, os meninos atrás, escolher tomates maduros e muito vermelhos, imprescindível que não sejam passados, para o molho da macarronada, perfuma- do por manjericão fresco e outros verdes, retirando-lhe a acidez com açúcar, um pouco de pimenta, noz-moscada. Igual a bater ba- tidinha a cebola até que dela não reste mais que o sabor. O marido não suportava pedaços graúdos de cebola – é como mastigar vidro, dizia. E comer junto, num ritual.
Madrugada já alta ultrapassando as duas horas rigidamente estabelecidas, havia, ela observava, os objetos a confirmá-la, asse- gurá-la em território-terra-existência: o cinzeiro imenso em cristal azulando de tão grosso. A Maria Bonita com seu Lampião em argila primitivista pintada. Os CDs de músicas já quase esquecidas – que as crianças podem acordar! –, mas que permaneciam cuidados para a qualquer hora um choro um sorriso uma lembrança ou só o momento. O gato egípcio em matéria dura negra. O castiçal déco em ferro. A foto em preto e branco de Marilyn Monroe, a estereo- tipia, o peso de papel, um sapo de mármore esverdeado, o cartão- -postal de Santorini. A flor seca dentro de um livro. O bilhete que denunciava, no mesmo livro, uma traição fugaz, bateção sistólica no peito, memórias edulcoradas secretas salientadas – melhores, constatava sempre, as memórias do que o ocorrido – vitais para seguir. Havia a polida e quase imperceptível falta de assunto com o marido e um amor intrincado, sobretudo pela ausência, do cor- po de um, da alma da outra. Havia o MTB da jornalista porreta e
inconformada que Maria Alice fora num dia muito longínquo para abandoná-lo depois decepcionada: seu trabalho, sua missão, sua fé na vida seriam então cuidar do outro, os outros – marido filhos. O transe na faculdade – sexo, drogas & rock n’ roll. Amigos que nun- ca mais se encontraram. Existia um pequenino envelope em papel manteiga, ali ao lado do bilhete do postal da flor seca, embrulhan- do uma gilete de fio absurdo para punhos cansados ou assustados em demasia. Punhos que se exaurissem em sangue e drama, num grito desengasgado que fosse interrogação do tipo “o que me tor- nei?” – já que saíra da esfera do “o que fizeram comigo?”, para ao menos assumir-se.
E o amaciante mais adequado para as roupinhas finas dos filhos queridos – que nem direito de morrer voluntariamente Maria Alice possuía mais –, o sabão em pó que fosse econômico, mas certeiro para manchas teimosas que seguiam incomodando. E as baratas nojentas subindo pelo encanamento enferrujado de seu apartamento velho, mas charmoso, um três quartos década de 50, cômodos amplos, teto mais alto que aquele convencionado nes- ses apartamentos de hoje, inabitáveis ou purgatório enfim. Os ba- nheiros em vidrilhos madrepérola, metais em cobre desbotado, a banheira de louça e de pés. As baratas escalando em marcha altos andares numa ameaça calada. E o veneno que as fulminasse, duri- nhas, patas para cima, um veneno tão poderoso que pudesse extin- guir rapidamente, pouco sofrimento, uma família inteira, frasco em mãos, Maria Alice.
A madrugada, sentia, ia longe demais. A menininha resmun- gou no quarto, chupeta perdida no travesseiro. Correu a acudi-la. Essa coisa inexplicavelmente visceral, uma amorosidade que não supõe questões aclaradas, afeto que se esquece de si mesmo e que ao amar se completa também em si – era bem assim que Maria Alice se desmanchava do centro das coisas, sumariamente alvejada pelos filhos desde que os vira pela primeira vez, pesando em seu colo exaurido de dores e do esforço de parto. Pelo marido era amor diferente. Apascentado nas regrinhas do dia a dia, ternura sem es- panto, a discretíssima negligência dele em relação às suas emoções também por ele muito disfarçadamente designadas, em fina ironia, como “femininas”. Como se “feminino” fosse adjetivação que fe- chasse discussão ou prolongamentos. Mas tudo bem. Tudo bem, essa a expressão a citá-los em casal.
38 II Prêmio Ufes de Literatura Não que nesse destino Maria Alice se encaixasse perfeita- mente como se o tivesse inventado. Rodava na roda. Mas não se- ria o caso de julgá-la incompetente e vitimada nesse seu destino – como se ela não o desejasse. Acontece que não sentia mais a emergência da vida. Vivia os dias enfileirados, um organizadamen- te atrás do outro esperando o próximo, só ele, cheio de obrigaçõe- zinhas à sua frente. Que isso bastasse portanto.
As pequenas impaciências conjugais, o devir comum se pro- jetando em sonhos de maiores rendimentos, excentricidades de consumo e algum ócio que dificilmente viesse sem culpa, o aparta- mento com “vista para o maior shopping center da América Latina”, até parece que não: mas exatamente essas coisas confortavam-na. Alimentar a família, fazê-la sólida, uma barricada, ver filhos cres- cendo, alargando o vocabulário; o marido, ainda que ligeiramen- te impaciente, meio omisso insosso, nalguns instantes, por lapsos, dono de uma ferocidade muda indecifrável, cuidando para não se deixar vislumbrar na humilhação de uma queda, intimidade quase estranha entre os dois; agradava a Maria Alice vê-lo galgar postos mais altos no trabalho, sempre muito bem (por seu esforço na lida, ela se dava o crédito) apresentado em gabardine, panamá e algodão.
Tudo isso estava, para ela, bom, pensou, lá no fundinho afli- ta, noite estendida, taça de vinho seco cada vez mais frequente en- tre as duas mãos, ensaiando o gesto, qualquer um. Largo, estreito, contido, movimentação. O que acolhe, o que afasta, aquele que se aguarda, ainda que avesso, ao contrário, ou exatamente o mesmo que pensávamos. Escrever uma carta, oferecer o abraço, estar pró- ximo, do lado, esteio. O gesto. Aquele que mata ou faz brotar vida que não se contém.