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Modificações no turismo (décadas de 1980 e 1990)

No documento Turismo e Imobiliário nas Metrópoles (páginas 120-123)

Antes de evidenciar a situação das atividades turísticas nas décadas anteriores – 1980 e 1990 – é necessário abordar uma conceituação básica do que aqui se chamará “turista genérico”. Para os estudos sobre o Turismo, via de regra, a figura principal e fundamental é a capacidade do turista em flexionar os atributos da oferta e demanda dos destinos. O turista genérico é um agente molecular com capacidade ilimitada de deslocamento, alvo das Políticas Públicas e estratégias empresariais do turismo, das pesquisas de demanda e competitividade, que ajustam cada produto turístico-espa- cial (praia, montanha, rio, cidade, centro histórico, ou outro) a um desejo de deslocamento desse turista. Tal desejo envolve diferentes gostos e gastos turísticos, medidos basicamente na ponta do destino, e que são tradu- zidos em gráficos de fluxos de embarques e desembarques. O objetivo primordial do estudo estratégico do turista genérico é compreender sua tipologia para, assim, focalizar na comercialização do produto turístico- espacial, adequando os territórios ao tipo de demanda potencial e latente no mercado emissor.

Para caracterizar esse turista genérico é possível buscar em alguns autores elementos de reflexão sobre as características do turismo e do turista como, por exemplo, no trabalho de Guilherme Lohmann e Alexandre Panosso Netto (2008), com destaque à demanda:

Em turismo, o conceito de demanda compreende os indivíduos cujas necessidades incluem o ‘consumo’ e a experiência dos lugares. Turistas compram suvenires e roupas, usam serviços, tais como meio de hospeda- gens e parques de diversões. No entanto, seus motivos principais geralmente recaem sobre o destino turístico em si, uma vez que um turista em Paris ou em Roma poderá querer experimentar a ‘atmosfera’ que lá existe e se tornar parte da comunidade local. O consumo de lugares turísticos mani- festa-se como a experiência subjetiva do turista (LOHMANN e PANOSSO NETTO, 2008, p. 237).

Existe uma necessidade de ajustar oferta e demanda no turismo, como em qualquer setor econômico. No ajuste, o lugar deve ser transfor- mado, passando de mero recurso para atrativo e, finalmente, produto. É

neste último que se materializa a mercadoria comercializada, disponível ao consumo nacional, regional ou internacional.

Ao final da década de 1970 surgem as primeiras políticas estatais no Brasil de apoio ao setor turístico, por meio de investimentos na transfor- mação dos atrativos em produtos. Dentro de uma política econômica nacional/regional alguns fundos específicos como o Fundo de Investimento do Nordeste (FINOR) passaram a apoiar empreendimentos hoteleiros nas capitais com maiores possibilidades de capturar o turista genérico. A Empresa Brasileira de Turismo (EMBRATUR), órgão estatal de promoção do turismo do Governo Federal, delineava, naquele momento, os eixos dessa política de investimentos, levando aos estados e municípios obras e formas inovadoras (à época) de publicidade e comercialização (BENI, 2006).

Entretanto, segundo Mário Carlos Beni (2006), a EMBRATUR foca- lizou a estratégia de demanda no turista internacional (com hotéis de luxo) em vez do mercado interno. Isso vinha de encontro ao cenário mundial, uma vez que no final da década de 1970 se configurava uma crise econô- mica que frustrou as expectativas do mercado turístico e do Estado. Apesar disso, e por meio de pesados subsídios públicos, ocorreu a instalação em toda a zona costeira nordestina de projetos de grande envergadura funda- mentados na concentração (formação de cluster) do sistema hoteleiro de luxo integrado em trechos da orla marítima, que só vieram a gerar recursos efetivos em meados da década de 1990.

No Rio Grande do Norte, um exemplo desse período foi a implan- tação pelo governo do Estado, a partir de 1980, do megaprojeto Parque das Dunas e Via Costeira – PD/VC. A Via Costeira ocupou fração do litoral do município de Natal, consistindo na disposição de hotéis paralelos à linha de praia e ao cordão dunar. O modo de viabilização do Projeto PD/VC foi dirigido pelo governo do Estado do Rio Grande do Norte, com a forma- lização de Unidades Turísticas a partir da desapropriação dos terrenos e da redação de termos de concessão, além dos financiamentos à iniciativa privada que, desse modo, entrou como aplicador dos recursos públicos. Somente em meados da década de 1980 se iniciou a construção de equi- pamentos hoteleiros, e até o presente momento (2009) não se alcançou a totalidade do que estava previsto. Em contrapartida, no litoral sul (municí- pios de Nísia Floresta e Parnamirim), as residências de uso ocasional para

moradores de Natal foram construídas mais intensamente nas décadas de 1980 e 1990, com a ausência ou a pouca eficiência, no entanto, de instru- mentos de controle e planejamento municipal ou estadual. No caso do RN, o PRODETUR/NE-I possui um papel de ampliar a capacidade de desloca- mento pelo litoral sul, além de inserir nos municípios costeiros um novo fluxo de visitantes nacionais e estrangeiros modificando, assim, o perfil do turismo estadual a partir de 1999.

Na Bahia, o destaque foi o Projeto Linha Verde (rodovia BA-099), concluído em 1993, ligando a Região Metropolitana de Salvador com os municípios do litoral norte do Estado (Mata de São João, Entre Rios, Espla- nada, Conde e Jandaíra). A Linha Verde viabilizou, em 2000, o megaprojeto Costa do Sauípe, marco na implantação de resorts do tipo all inclusive na região . O litoral norte da Bahia, até a década de 1980, havia sofrido pouca pressão do turismo sobre suas áreas ambientais naturais. Entretanto, com a melhoria do acesso viário pela BA-099, um movimento de construção de residências secundárias intensifica-se a partir de meados da década de 1990. A Linha Verde e a Costa do Sauípe foram fundamentais para a configuração do Polo Costa dos Coqueiros, definido pelo PRODETUR/NE-I, inclusive por se constituir na maior “âncora turística” do litoral norte da Bahia.

Já em Pernambuco, o início da ocupação litorânea sul não foi devido aos grandes projetos turísticos, mas, sim, à produção intensiva do mercado imobiliário de lotes e casas destinadas a moradores ocasionais, da metrópole recifense, notadamente em Ipojuca. Esse modo de integração ao turismo será responsável por drásticas modificações socioambientais no litoral até a consolidação do Polo Costa Dourada e dos investimentos do PRODETUR/ NE-I a partir de 1995 (ANJOS, 2005).

No Ceará, desde 1982 o Plano de Metas Governamentais estadual destaca o turismo como importante fonte de investimentos, principal- mente internacionais. Entretanto, como aponta Cleide Bernal (2004, p. 72), apenas em 1990 ocorre a dinamização do turismo em Fortaleza, e de 1995 em diante nas diversas áreas costeiras, com a implantação das ações do PRODETUR/NE-I.

Nesse quadro geral das políticas de turismo para a região, pode-se observar que o turismo no Nordeste brasileiro, como setor econômico repre- sentativo, é ainda recente e a urbanização da orla, de forma mais intensa,

por segundas residências data de pouco mais de 25 anos. A fragilidade dos estudos e das pesquisas antes de 1990 sobre o perfil do turista e a falta de infor- mação são fatores que contribuíram para a pouca estruturação do mercado nas décadas anteriores. A forte presença do poder público na elaboração de políticas, projetos e implantação de infraestrutura constituiu-se uma marca relevante no cenário de ampliação do turismo nos municípios das regiões metropolitanas do . Assim, o Estado apresenta um papel protagonista no apoio ao trade turístico nas áreas estudadas e o investimento privado bastante dependente das linhas de financiamento e das decisões do governo federal, estadual e, em menor grau, o municipal.

Entretanto, cabe destacar uma transição (a partir de 1990) no turismo nordestino marcada pela entrada de novas formas de hospedagens extra- hoteleiras. Isso não significa a superação da tipologia “quarto de hotel” (Unidades Hoteleiras – UHs), pelo contrário, coloca a implantação de projetos de uso misto, articulando residências secundárias, formas de partilha e fracionamento de UHs e até mesmo a comercialização de lotes, chalés e apartamentos integrados em um mesmo complexo turístico e de lazer. Estudo do Ministério do Turismo e da Fundação Getúlio Vargas aponta que em 2005 foram lançados , no segmento de segundas residên- cias, 10.003 unidades contra 16.446 em 2007. Para o Nordeste, o estudo apontou que cerca de 40% do estoque produzido é vendido para turistas estrangeiros que se tornam proprietários (MTUR/FGV, 2008, p. 24).

No documento Turismo e Imobiliário nas Metrópoles (páginas 120-123)