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É interessante observar que mesmo a analítica do discurso – balizada em um referencial foucaultiano – não prescinde de organização e sistematicidade, recorrendo aos pólos cronológicos de pré-análise, à exploração do material e ao tratamento crítico dos achados. Portanto, nesse ponto, não difere das demais investigações operadas a partir de outros referenciais teóricos com seus possíveis e respectivos métodos de análise. Posso, assim, iniciar argumentando que o material empírico foi organizado em um corpo documental, que sofreu leituras e re-leituras, de modo a garantir dados significativos e representativos para o alcance dos objetivos propostos e conseqüente apresentação do resultado final. (FISCHER, 1996; RAMOS, 2002). Prontamente indago: o que muda, então, em um referencial de análise foucaultiana? Nessa perspectiva de análise, qual é o “melhor” modo de falar daquilo que falo? É disso que trato a seguir.

Assumir que tanto os artigos selecionados como as entrevistas realizadas com os(as) enfermeiros(as) que atuam no contexto da terapia intensiva constituiram-se em material substantivo para a análise empreendida – podendo, inclusive, desdobrar-se em duas, três teses – gerou duas tensões imediatas. Uma delas reporta à questão da revisão bibliográfica, propriamente dita, pois na medida em que 113 artigos fizeram parte do meu corpus de análise, o viés da revisão bibliográfica foi, de certa maneira, “amputado”. Não construí um capítulo, ou uma seção, ou ainda um artigo em que constasse uma revisão sistemática do que a enfermagem no Brasil vem escrevendo acerca da bioética articulada à tecnobiomedicina e terapia intensiva. Em suma, esse “impossibilitado” artigo desdobrou-se a partir do capítulo 3 e dos três artigos produzidos nesta tese, além, é claro, de ainda restar material empírico para outros artigos a serem produzidos.

A outra tensão anda na direção do referencial teórico adotado por mim. A análise do discurso na perspectiva foucaultiana evidencia uma maneira de tratar os documentos a serem analisados de forma que problematiza um necessário volume de dados. Portanto, qual seria o processo de escrita, de análise a partir de tanto material? Entretanto, com baliza em Foucault, estava ciente de que a quantidade de material não era o mais importante. O que deveria

priorizar, aqui, era o trabalho operativo de descrever os discursos a partir de seus menores enunciados, recolhidos na sua realidade dispersa, captando nesses lugares as diferentes práticas a que um determinado discurso se associa. Desse modo, foi, justamente, esse entendimento que acabou por me “tranqüilizar”, pois, ao manipular exaustivamente tanto material empírico (artigos e entrevistas), buscava de maneira repetitiva já extrair enunciados diretamente da simples leitura contínua, tentando conferir-lhes de imediato uma sistematização provisória, o que, por vezes, rapidamente trocava por outra. Logo, tal como Foucault, não tratava de explicar textos, mas de inscrevê-los no interior de uma visão de conjunto sempre em movimento.

Assim, principalmente com relação aos artigos, construir um panorama geral ajudou- me a orientar a re-leitura dos textos, e possíveis alterações nos modos de reagrupá-los, uma vez que minhas re-leituras conduziram a reconfigurações do que seria analisado inicialmente. Ou seja, os focos de análise foram constituídos e organizados por mim depois de eu ler, reler e perceber na interação com todo o conjunto de artigos e entrevistas realizadas com os(as) enfermeiros(as) que eles apresentavam algumas regularidades a respeito dos significados que produziam. Nesse percurso, coube a mim realizar agrupamentos temáticos, dando-lhes significados a partir do referencial pensado para a análise. Digo aqui, coube a mim, pois se outro sujeito investigador fizesse esse trabalho operativo, inclusive com o mesmo referencial teórico, certamente poderia oferecer outros caminhos de análise, outros agrupamentos. Logo, desde já estou ciente do não “esgotamento” temático nesta tese. Enfim, uma análise nessa perspectiva metodológica deveria assumir a feição mais de um laboratório vivo do que um balanço rígido e totalizante. Mesmo assim, selecionados os agrupamentos temáticos, a tese deveria ganhar em clareza analítica e a elucidação teria que ser extrema no detalhe.

Tal como apontado por Fischer (1996), adotei a proposição de explorar minuciosamente textos, “coisas ditas, visibilidades (técnicas e procedimentos gerados institucionalmente), aceitando a precariedade desses mesmos ditos e ao mesmo tempo multiplicando-os relacionalmente e organizando-os em unidades provisórias” (ibid., p. 49). Entendia, pois, que uma analítica foucaultiana permitir-me-ia operar com o que de produtivo poderia extrair das fontes documentais e dos ditos e não-ditos dos sujeitos selecionados para material de análise com cada um dos conceitos com que trabalhava e, assim, problematizar, promover estratégias de estranhamento e visibilizar um modo de conduzir-se, levando-se em consideração a articulação bioética e enfermagem. Isso significa escapar da fácil interpretação daquilo que está “por trás” dos documentos, procurando explorar ao máximo os materiais, na medida em que eles são uma produção histórica, política; na medida em que as palavras são

também construções; na medida em que a linguagem é também constitutiva de práticas. (FISCHER, 2001, p. 199). Em suma,

Quando nos aproximamos desses textos para destacar precisamente sua dimensão de prática de significação, para flagrar as marcas de suas condições de produção, para tornar visíveis os artifícios de sua construção, para “decifrar” os códigos e as convenções pelas quais esses significados particulares foram produzidos, para descrever seus efeitos de sentido, passamos a vê-los como discurso e os atos, as atividades, o trabalho de sua produção como prática discursiva. (SILVA, 1999, p. 18-19).

Gostaria, agora, de explicitar as implicações de tais análises, sua pertinência e por que posso ter a pretensão de dizer que este texto é algo distinto de uma apresentação da atual discussão ética e bioética na enfermagem. Efetuo, pois, um desvio da história linear e de passagem de uma ética para uma bioética na enfermagem em terapia intensiva. Ademais, o especialista das discussões éticas e bioéticas, pode até ficar aqui surpreso, senão irritado: relativamente à bioética, não se encontrará nenhuma apresentação histórico-doutrinal das principais vertentes teóricas discutidas atualmente; nada ou quase nada sobre Kant, Aristóteles ou Heidegger, este último, em suas pertinentes questões acerca da tecnologia e Ser do humano. Detalhando um determinado modo de processo de subjetivação, operarei cortes transversais no panorama mais geral da discussão ética e bioética. Tal como Foucault, não pretendo trabalhar como historiadora; farei genealogia: “genealogia quer dizer que conduzo a análise a partir de uma questão presente”. (FOUCAULT, 2006, p. 631). Além disso, como já dito anteriormente, a idéia, aqui, não é propor uma volta à ética da antigüidade helenística e romana, até por que isso seria demasiadamente ingênuo. A idéia é sublinhar que nela – na ética da antigüidade helenística e romana – existem ferramentas de análise, através das técnicas, idéias, e procedimentos, que não podem e não necessitam ser efetivamente reativadas, mas pelo menos constituem, ou ajudam a constituir um determinado modo de olhar, um ponto de vista que pode ser muito útil para analisar o que está acontecendo agora.

Apoiando o exposto acima, Caponi (1995, RTC4) faz uma reflexão sobre as teorizações contemporâneas que pensam a ética como uma relação íntima do eu consigo mesmo, e as nossas práticas cotidianas como formas mais ou menos efetivas de cuidado de si. Ela recorda um ensaio em que Foucault sugere que seria melhor nos negarmos a sermos o que somos. Para Caponi, nesse referente, já não deve importar tanto conhecer nossa identidade, e sim enfrentar a tarefa de construir alternativas mais satisfatórias para edificar nossa humanidade, isso significa produzir-nos e modelar-nos da forma mais bela possível. Portanto,

ao narrar nossa existência nos convertemos em um objeto passível de ser modelado por nós mesmos, desde o momento em que passamos a ser ao mesmo tempo escritores e atores. Não se trata de uma produção inteiramente individual e alheia a qualquer vínculo com os outros, pelo contrário, ao narrar nossa história ingressamos em uma trama mais ampla que nos contém e nos molda já não mais como atores principais do relato, mas sim como expectadores, devendo incluir os outros em sua própria história, devendo ao mesmo tempo viver e contar.

Sendo assim, os artigos selecionados, na sua grande maioria entre 1984 e 2007 e as entrevistas com enfermeiros(as) constituem-se para mim como narrativas, nas quais, de certa forma, pode-se operar no processo de análise, do mesmo modo. Logo, artigos e entrevistas foram aproximados através da narrativa de um determinado período histórico. Através da narrativa, é possível reconstruir as significações que os sujeitos atribuem ao seu processo de ser enfermeiro(a), pois falam de si, reinventam o passado, ressignificam o presente e o vivido para narrar a si mesmos. Por um lado, as entrevistas não permitiram “dizer uma ou a verdade sobre as coisas e os fatos, mas pode-se considerá-las como a instância central que, somada a outras,” trouxe “informações fundamentais acerca do vivido e” possibilitou “uma interpretação (mesmo que provisória e parcial) dos motivos que fundamentam” ser enfermeira intensivista a partir de um discurso ético/bioético. (ANDRADE, 2008, p. 51). Andrade (2008) diz-nos que as histórias que nos são narradas através das entrevistas não são dados prontos, mas documentos produzidos na cultura através da linguagem, no encontro entre pesquisadora e sujeitos da pesquisa; documentos que adquirem diversos significados ao serem analisados no contexto de determinado referencial teórico, época e circunstância social e cultural. Seguindo a reflexão da autora, “as narrativas não constituem o passado em si, mas sim aquilo que os(as) informantes continuamente (re)constroem desse passado, como sujeitos dos discursos que lhes permitem significar suas trajetórias” profissionais de determinados modos. (ANDRADE, 2008, p. 52). Por outro lado, os artigos, também enquanto narrativas, obedecem ao exposto acima, mas, talvez, apresentem uma maior confluência dos múltiplos discursos ditos e não-ditos por enfermeiros que escrevem e que agem, respectivamente, sobre si mesmo e sobre outros sujeitos enfermeiras. Talvez, mostre de forma mais contundente um número de sujeitos autorizados, amparados pelo status institucional ou como especialistas que veiculam um discurso academicamente legitimado, a falar de si e dos outros, a descrever e caracterizar os outros. Enfim, operei com as entrevistas e com os artigos como uma “conexão entre discursos que se articulam, que se sobrepõem, que se somam ou, ainda, que diferem ou contemporizam”. (ANDRADE, 2008, p. 54).