O modo petista de governar foi uma marca de gestão impressa após a eleição municipal de 1988, quando o Partido dos Trabalhadores (PT) obteve vitórias eleitorais em cidades de grande expressão em todo o Brasil, como São Paulo, Porto Alegre e Santos, e procurou imprimir uma prática administrativa inovadora na gestão do Estado brasileiro. Essa marca baseava-se na participação popular no processo de tomada de decisões – através da ação de conselhos municipais ou implementação do orçamento participativo –, na adoção de políticas públicas que combatessem a exclusão social e a pobreza, na transparência da gestão dos recursos públicos e combate à corrupção e no desenvolvimento econômico das cidades, entre outras práticas que procuravam imprimir uma gestão mais democrática da coisa pública, em contraposição ao modelo mais tradicional da administração brasileira, fundado no clientelismo e no patrimonialismo, ao qual o partido buscava se contrapor.
A pesquisa indagou aos entrevistados se existiriam, de uma maneira geral, diferenças entre o modo petista e o modo Mansur de governar, com o objetivo de debater as duas concepções políticas de gestão da coisa pública e identificar suas principais divergências.
Sobre a questão do modo petista de governar, relatos indicam que a intenção de David Capistrano era transformar Santos numa cidade em que a esquerda pudesse imprimir gestões contínuas para construir um modo de governar, diferenciando-se, de certa forma, do restante do país e construindo uma imagem bem delineada, que pudesse ser vendida e difundida como uma marca própria. Assim, Santos teve participação fundamental na criação do modo petista de governar, contribuindo para isso a política de saúde, principal vitrine da administração, cuja imagem persiste até os dias de hoje. Segundo o relato de Marco Manfredini, coordenador do Programa de Saúde Bucal no governo David Capistrano, ele diz que, oito anos depois da sua passagem por essa administração, ainda é chamado para falar sobre sua experiência; “parece com
138
aquelas histórias de Sandino Vive! Porque é uma coisa, uma marca que ficou muito forte”.
Procurando se desvencilhar da marca petista da gestão, que foi sem dúvida a saúde, e imprimir um aspecto próprio para seu governo, Mansur passou a implementar diversas obras de interferência urbana, com a finalidade de incrementar o turismo e investir no embelezamento da cidade, através da inauguração de praças e de uma ciclovia que cruza a cidade, na melhor conservação dos pontos turísticos e em obras na região da Orla e do seu entorno. Sobre isso, há um relato importante nas entrevistas para destacar as diferenças entre os dois modos de governar. Roberto Tykanoti Kinoshita, interventor na Casa de Saúde Anchieta nos governos Telma de Souza e David Capistrano, aponta que no governo Capistrano haveria recursos e condições técnicas para asfaltar a cidade inteira, porém, os ecologistas diziam que isso seria uma catástrofe “técnica, política e ecológica, que ocorreriam enchentes e
vários outros problemas”. Beto Mansur, ao vencer, asfaltou “a cidade inteira”
sem que isso acarretasse mais enchentes do que antes, segundo o entrevistado, que utiliza esse mote para apontar que o prefeito tinha dinheiro não só para asfaltar a cidade inteira, também para reformar a avenida da Orla, para construir jardins, praças e deixar a cidade com uma aparência de muito bem cuidada e de que está se desenvolvendo turisticamente.
Essa intervenção urbana também foi mencionada na entrevista com Edmon Atik, Secretário de Saúde no governo Beto Mansur, quando, ao avaliar essa gestão, afirma que: “ele pegou a cidade de Santos destruída. Iamos para a
cidade e só tinham essas barraquinhas. Limpou a cidade de Santos. Fez uma cidade turística que é a sua vocação. Embelezou a cidade, reformou praças em todo território. São 39 km2. Aonde você for tem uma obra bonita do Beto Mansur. Ele deu a Santos... Tanto que os visitantes vêm a Santos e dizem:’Puxa! Como a sua cidade está bonita’. Conseguiu nos oito anos (...) não tenho dúvida, ser o melhor prefeito que Santos já teve. O melhor”.
Além desse investimento no embelezamento urbano, a inversão de prioridades na administração Mansur também foi apontada nas entrevistas realizadas com pessoas ligadas ao seu governo, especificamente nas dificuldades advindas da inexistência de um sistema informatizado na rede pública de saúde da cidade. Esse sistema já havia sido implantado na administração Telma de Souza, através de uma rede informatizada que possibilitava a marcação de consultas e o acesso ao prontuário do paciente on
line, em tempo real, através de um computador de grande porte, main frame,
que armazenava esses dados. Esse sistema deveria ser atualizado com os avanços tecnológicos, o que não ocorreu, e as entrevistas revelam que, no final de 2004, Santos ainda não contava com a informatização de sua rede pública de saúde.
Mais do que uma marca, essa prática revela uma visão ideológica de governo pautada pelo desinvestimento das políticas sociais – como foi apontado no Capítulo IV – para inverter prioritariamente na revitalização e no embelezamento urbano. Não que as políticas sociais e a revitalização urbana sejam antagônicas e excludentes, mas o que se verifica no modo Mansur de
governar é um desequilíbrio muito evidente entre as duas práticas. Isso denota
um posicionamento ideológico que atribui às políticas públicas um viés de perdulárias, excessivamente dispendiosas para alcançar apenas alguns setores da sociedade – como os pobres, os soropositivos e os doentes mentais – e que, por isso, devem estar circunscritas a um elenco mínimo de ações e recursos, até mesmo por força das atribuições legais e dos requisitos para gestão do SUS. Essa crítica encontra eco na entrevista com Berta Maria Esteves, presidente do Conselho Municipal de Saúde, ao afirmar que “serviço de saúde não deve ser
um serviço para os pobres”, pois, “quando a gente tem um serviço para pobre, se tem um serviço ruim, porque você entende que é uma benemerência. O que não é. Isso é um direito. As mesmas pessoas que hoje usam o serviço de saúde acham que é melhor ter uma praça, um asfalto, uma ciclovia do que ter aquilo que lhe dá qualidade de vida. Por mais que você diga que asfalto e ciclovia não são qualidades de vida”.
140 Esse esvaziamento da política é observado na entrevista com Edmon Atik, que, ao ser indagado se haveria diferença entre o modo petista e o modo
Mansur de governar, foi enfático ao dizer que não. As diferenças seriam
peculiaridades em razão das diferentes épocas nas quais as forças políticas administraram a cidade. Nas suas palavras: “não existe ninguém milagroso. Por
isso que eu lhe digo: o que o PT fez de novo? Nada! Ele apenas pegou o patamar anterior e deu continuidade. Como nós herdamos dele, PT, e continuamos uma evolução de atendimento. O PT, lamentavelmente, em Santos acha que (pelo menos é a imagem que ele passa) inaugurou a Saúde no Brasil. O Brasil não existia até eles tomarem posse na Prefeitura de Santos. Esta era a imagem correta. Eles dominaram e se elegeram por oito anos à custa da Saúde. Só da Saúde”.
Ainda reforçando o esvaziamento ideológico, o ex-secretário de Beto Mansur afirma que “para responder à sua pergunta, se o cirurgião for preto ou
branco numa cirurgia ele deixa de seguir a técnica? Não deixa! A técnica de Saúde independe de sua ideologia. Você tem que executar o plano que seja compatível com a população (...) em termos de Saúde Pública, não deve ser analisado o aspecto ideológico, religioso, político ou partidário. Por exemplo, há uma diminuição da incidência de HIV quando você doa a seringa com agulha. Tudo aquilo que foi implementado em Aids no governo do PT continua até hoje, de forma cada vez mais apropriada. E se fosse hoje o governo do PT estaria fazendo exatamente o que o Beto está fazendo! Portanto, ou você é cientista, você é um médico cientista, que a própria ciência deseja, ou você é o antagônico. Antagônico vai fazer com que outras pessoas sob sua responsabilidade tenham Aids. Você tem que ser obediente à causa científica”.
Esse disfarce da ideologia atrás do discurso científico não é novo. Já foi apontado por Pedro Demo (1991), ao dizer que o discurso ideológico apresenta uma peculiaridade, diferentemente do senso comum, que é a capacidade de se disfarçar em discurso científico, ou seja, uma posição política atestada através de uma suposta comprovação científica. Por isso, o autor caracteriza a ciência
como um fenômeno histórico, em constante transformação, uma construção humana.
Finalizando essa discussão, relata-se opinião manifestada na entrevista concedida por Marco Manfredini. No seu relato, afirma que – apesar de no passado ter sido uma marca importante – hoje não existiria mais o modo petista de governar. O entrevistado afirmou observar que “na realidade, hoje não existe
mais o “modo petista de governar”. Acho que hoje o PT de certa forma não tem mais uma tradução, uma marca política que o diferencie do resto da política brasileira. Acho que é assim, quando a gente vai analisar essa questão do PT à frente de governo, vejo claramente o processo, a partir de 96, como uma ruptura. Quer dizer, de 1988, quando o partido ganhou expressão nacional e conquistou várias prefeituras importantes, até a primeira metade dos anos 90, acho que tinha efetivamente o “modo petista de governar”. Na segunda metade dos anos 90 e essas gestões que a gente está terminando agora em 2004, isso foi literalmente abandonado. Na realidade, hoje não identifico, de uma maneira geral no país, a diferença significativa entre o ‘modo petista de governar’ e o modo do governo de outras prefeituras. Essa percepção teria sido reforçada pelo
amplo leque de apoios e partidos que oferecem sustentação política ao governo Lula, empossado em janeiro de 2002 e que recebe críticas de setores do próprio Partido dos Trabalhadores, que o elegeu, entre outras razões, pela manutenção de uma política econômica ortodoxa – nos mesmos moldes adotados por seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso –, e pelo amplo leque de partidos que formam sua base parlamentar, sem que haja o menor compromisso ideológico ou similaridade na trajetória dos partidos políticos que a compõem. Essa afirmação expressa, na visão do entrevistado, uma insatisfação localizada em setores do petismo e da esquerda brasileira com as políticas sociais e a agenda econômica do governo Lula.
142