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6 PRÁTICAS DE UMA UC FEDERAL BRASILEIRA

6.2 MODOS DE EXISTÊNCIA 83 : PERSONALIZAÇÃO E

PERSONIFICAÇÃO

Finalizo, neste momento, este segundo capítulo “UC em ação”, após ter analisado e ensejado a compreensão das atividades desenvolvidas na área protegida. Baseando-me nas anotações realizadas durante a observação participante e com o apoio da literatura dos EBP, identifiquei quatro práticas, que se tornaram subseções: educação e interpretação ambiental, comunicação e relações institucionais, proteção e fiscalização, tarefas administrativas e cotidianas. Essas quatro práticas podem ainda ser caracterizadas a partir de outra perspectiva, a da forma como são realizadas, ou seja, em atividades-meio e atividades-fim. Como atividades-fim entendi as práticas que apresentam um fim em si mesmas, como, por exemplo, educação e interpretação ambiental, comunicação e proteção e fiscalização. Como atividades-meio, compreendo aquelas ações que garantem suporte às atividades-fim, que são representadas pela prática administrativa e cotidiana. Esse tipo de categorização não representa uma marginalização das atividades administrativas e cotidianas, pelo contrário, as centraliza. Isso se reflete ao se verificar na agenda dos analistas, como as questões administrativas a oneram, o que significa uma grande quantidade de horas trabalhadas. É possível identificar, nessas circunstâncias, que as atividades-fim são aquelas que geram as atividades-meio.

Tendo em vista as práticas dessa organização, reflito sobre um processo de “personalização”, ou seja, a UC vista enquanto uma organização que assume características próprias que se configuram dinamicamente, e que estão relacionadas com um conjunto de fatores particulares a cada uma delas. Quero dizer que, embora uma prática apresente regulamentações específicas e homogêneas determinadas pelo Instituto - pois devem ser utilizadas por todas as UCs geridas pelo ICMBio, elas assumem características peculiares que estão ligadas aos fatores que caracterizam cada um desses espaços protegidos. Durante a pesquisa, pude identificar algumas dessas características, como, por exemplo, o grupo de servidores (em especial, analistas), o histórico do

83 Este termo tem inspiração na obra “Enquête sur les modes d’existence. Une

anthropologie des Modernes” de Bruno Latour. A minha ideia é a de traçar uma analogia com a noção que embasa o livro, sobretudo, no que tange às múltiplas ordens de verdades, múltiplos tipos de razões e diversas lógicas de ações. Assim sendo, as organizações existem de variadas maneiras, segundo os aspectos relacionais que tecem com os diversos atores (humanos e não-humanos).

espaço protegido (conflitos, relações com outros atores sociais), as características biológicas e ecossistêmica do território. Esses, parecem- me serem alguns fatores que influenciam preponderantemente nesse processo em que a organização deixa de se tornar uma simples parte do Instituto, e ganha modos de existência no território, ela se torna um tanto quanto autônoma e ganha, em certo sentido, uma identidade.

Esse cenário de institucionalização de um determinado modo de existência às práticas organizacionais traz uma reflexão sobre os sentidos presentes em cada uma delas. Algumas dessas práticas estão menos estabilizadas e, por isso, são mais influenciadas por esses processos de personalização. Por exemplo, a prática de proteção e fiscalização pode ser analisada a partir do apoio que os servidores encontram na materialidade presente. Como apresentei, há servidores que acreditam no poder policial da organização, expresso pela utilização de armamento, e há outros grupos que criticam esse tipo de posicionamento. Essas perspectivas influenciam as formas como a organização existe no território, por meio dos modos de existência de suas práticas. Um outro exemplo se dá com a prática de educação e interpretação ambiental que apresenta performances mais parecidas, ao se comparar a UC estudada com outras, ou seja, os pontos de apoio para a ação são entendidos e utilizados de forma mais homogênea. Já a atividade de proteção e fiscalização é diferente, ela se altera em um nível maior. Acredito que um dos fatores que acaba sendo essencial nesse fenômeno é o da atribuição de sentido às práticas pelo grupo de servidores que as conduzem. Obviamente, as particularidades são inerentes à ação humana, mesmo que haja um esforço tecnocrático de homogeneização em determinadas organizações. Mas, todavia, advogo que existam práticas que são menos estáveis e homogêneas, em termos ontológicos, e que os sentidos dados a elas pelos servidores são essenciais para a compreensão sobre as formas como são realizadas.

Um outro fenômeno identificado em paralelo com o de personalização (a organização ganha certa identidade) é o de “personificação”, no qual a organização assume certas características das relações estabelecidas pelo grupo de servidores que a conduz. Esse fenômeno se dá, frequentemente, nos casos em que a UC apresenta os mesmos membros da equipe por um determinado período de tempo. Tal fato faz com que as relações que se estabeleçam se tornem mais próximas das características pessoais desses servidores. Um fato que me chamou a atenção frente a esse fenômeno, deu-se em conversas com os atores sociais. Nas entrevistas, os atores sociais ao falarem sobre a UC estudada a chamavam pelo nome, e nos momentos em que citavam outras áreas protegidas, as denominavam como ICMBio. Isso se demonstrou ainda

mais profundo, nos momentos em que os atores citavam os analistas pelos nomes próprios. Dessa forma, a organização – UC – passava a assumir determinadas características dos servidores que a conduziam. Optar pela utilização do armamento de forma ostensiva e pelas comunicações formalizadas garantiam determinadas características àquela organização. Tais fatos a diferenciavam das outras UCs no território, o que lhe dá uma certa personalidade ao mesmo tempo em que personifica determinadas características.

Cada uma destas práticas apresenta, no âmbito do ICMBio, um nível de generalização que se dá, em termos organizacionais, pelos protocolos, instruções normativas e legislações que atuam a fim de planificar as ações. É possível visualizar a busca, por parte do Instituto, por padrões que se relacionem com um mínimo de controle das ações das UCs. No entanto, há um espaço inventivo, que, frequentemente, é obliterado e marginalizado. As relações entre aquilo que enseja formatar as ações em termos claros, transparentes, legais e estritamente definidos, com a outra parte marginalizada e, frequentemente, subjugada (sobretudo, em termos institucionais e acadêmicos), que (sobre)vive nos interstícios desse espaço burocrático a partir, sobretudo, do seu aspecto criativo. Não desejei tratar essas relações de forma dualística do tipo bom e ruim, mas nas perspectivas produtivas, em termos sociais e organizacionais, que elas apresentam. A gestão surge nessa conjunção complexa, entre generalização e homogeneização, entre aquilo que é realizado para formatar e o espaço criativo para a ação. Com a produção de fenômenos de personificação e personalização, a gestão se dá de maneira a estabelecer uma espécie de coordenação de ações, que está inserida entre o peso do institucional e a maneira fluida como as ações se desenvolvem. Neste capítulo, apresentei as práticas da UC estudada, para tanto, categorizei-as de quatro maneiras: educação e interpretação ambiental, comunicação, proteção e fiscalização e administrativa e cotidiana. Cada uma dessas práticas foi apresentada de maneira a evidenciar as tarefas e ações que estão relacionadas com elas. A ideia central esteve relacionada com uma atitude de descrição densa a respeito das práticas. Posteriormente, à medida que determinados fenômenos foram se apresentando, busquei uma literatura específica para compreendê-los. Nesse sentido, procurei demonstrar como cada uma das práticas se constituiu na observação, salientando aspectos controversos e que levantavam reflexões por parte dos atores. Após a apresentação e análise de cada uma dessas práticas, identifiquei dois fenômenos que me parecem fundamentais nas UCs, que são os de personalização e personificação.