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1 Apontamentos teórico-metodológicos: a perspectiva histórico-cultural

2 Desenvolvimento de um projeto de pesquisa a partir de um projeto de ensino

2.1 Modos de olhar/investigar

“A investigação tem de apoderar-se da matéria, em seus pormenores, de analisar suas diferentes formas de desenvolvimento, e de perquirir a conexão íntima que há entre elas. Só depois de concluído êsse trabalho, é que se pode descrever, adequadamente, o movimento real. Se isto se consegue, ficará espelhada, no plano ideal, a vida da realidade pesquisada, o que pode dar a impressão de uma construção a priori”

Marx, 1873.

A possibilidade da intervenção e ao mesmo tempo, investigação e pesquisa é corroborada por Vigotski, quando este defende a construção conjunta de objeto e método, “a elaboração do problema e do método se desenvolvem conjuntamente, ainda que não de um modo paralelo”. O método é, para Vigotski (1998), ao mesmo tempo instrumento e resultado da investigação.

A perspectiva assumida (histórico-cultural) repercute não somente nas relações de ensino como também na pesquisa, nos ensinando a enxergar as crianças e ao mesmo tempo investigar as relações e os modos de apropriação das práticas. Fundamenta não somente o projeto de ensino como a própria investigação, a análise das questões que se colocam como objeto de problematização.

Para pensarmos sobre como as questões discutidas neste trabalho apareceram durante as aulas de computação, fizemos inúmeros movimentos de aproximação e (re)leitura do material empírico e buscamos compreender, a partir de algumas expectativas nossas e de atitudes dos sujeitos envolvidos na relação, o modo como estas noções vão afetando e constituindo as práticas. Para tanto, optamos por fazer um relato analítico sobre como se constituiu o projeto de ensino, encaminhando questões que foram se tornando objeto de investigação. Neste aspecto, o que apresentamos são diferentes momentos de reflexão sobre o

trabalho realizado, a partir de recortes de situações específicas, enfocando momentos de interlocução.

Tomando como princípio metodológico a análise de processos em movimento, a articulação de momentos de descrição e explicação (Vigotski, 1995, 1998), tendo por base a “análise microgenética”, onde a construção dos dados “...requer a atenção a detalhes e o recorte de episódios interativos, sendo o exame orientado para o funcionamento dos sujeitos focais, as relações intersubjetivas e as condições sociais da situação...” (Góes, 2000: p. 9), articulada ao entrelaçamento da dimensão cultural, histórica e semiótica, consideramos produtivo trabalhar na investigação com recortes do material documentado em “...poucos ou vários episódios que sejam significativos para o propósito do estudo...” (p. 16).

No enfrentamento das questões metodológicas, fomos encontrando outros autores, de diferentes campos do conhecimento (antropologia, sociologia, psicologia, teoria da enunciação e análise do discurso), que nos possibilitaram, a partir de uma interlocução com a perspectiva teórica que assumimos (a histórico- cultural), ampliar e complementar nosso olhar sobre as questões de pesquisa. Autores estes que trazem interessantes contribuições para uma pesquisa desta natureza, preocupada que está com questões de ordem das inter-relações entre os sujeitos e de suas práticas inseridas num contexto mais amplo. Autores da área da antropologia (Geertz, 1978) já chamavam a atenção para a importância de determinados aspectos que devem estar contemplados na pesquisa, tais como a descrição densa; o caráter microscópico da etnografia; a ficção na construção dos dados. De acordo com Geertz, o que define a etnografia não são somente os procedimentos (transcrição, diário, etc.) a ela vinculados, mas sim o tipo de esforço que se faz, o que ele chama de “descrição densa” (termo emprestado de

Ryle) e a sua interpretação16 . E a construção dos dados, continua o autor, é na verdade “a nossa” construção dos dados.

Uma boa parte das aulas de computação foi videogravada e o restante das informações e as “impressões” do pesquisador foram sendo anotadas em Diário de Campo. A sala onde ficavam os computadores era pequena e o espaço para que a câmera ficasse posicionada (de maneira fixa) era ao lado do computador, numa mesa, não sendo possível captar todas as imagens, do professor, do aluno, do computador sendo utilizado pelo aluno. Optamos pela utilização destas duas formas de registro, já que os dados de Diário de Campo algumas vezes complementam os que não conseguimos visualizar nas gravações em vídeo, tendo clareza/levando em conta que estas anotações já trazem algumas interpretações feitas pelo educador, no caso o pesquisador, no momento em que se dão as situações (trata-se de um certo “percurso íntimo” (Amorim, 2001), onde se mesclam sentimentos contraditórios, estranhamentos, reservas), sendo necessário agora um processo de distanciamento/deslocamento, deslocamento este que a própria perspectiva assumida possibilita, um desdobramento de olhar, em que o pesquisador/educador assume outra posição para redimensionar o que ocorreu durante o processo.

Outra contribuição que poderíamos destacar diz respeito aos acontecimentos a serem interpretados. Geertz nos mostra ainda, no que respeita à analise antropológica, a questão da leitura daquilo que acontece sem divorciá-la de elementos que dizem respeito ao contexto em que acontecem, trazendo a noção da análise microscópica. Neste aspecto podemos lembrar de estudos de autores de outras áreas, como Ginzburg (1987, 1990), com as idéias sobre o paradigma indiciário e com a pesquisa sobre um moleiro condenado na época da Inquisição e Elias (1994, 2000), com suas pesquisas sobre o processo civilizador e

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Algumas ressalvas podem ser feitas aos modos de interpretação utilizados por Geertz quando este não explicita em suas análises o ponto de vista do qual está falando (homem ocidental com visões diferentes daquelas que encontrava nas culturas que ia estudar). Como diferentes estudos e perspectivas metodológicas foram demonstrando, como podemos ver no livro de Löwy (2000), o pesquisador sempre parte de um ponto de vista e não se encontra livre de julgamentos de valor, prenoções e pressuposições éticas, políticas e sociais, das quais é impossível escapar, como fez o Barão de Münchhausen, este herói picaresco que consegue, através de um golpe genial, escapar ao pântano onde ele e seu cavalo estavam sendo tragados, ao puxar a si próprio pelos cabelos...” (p. 32). Löwy utiliza a figura do pintor para descrever o cientista social e a pintura que este fará, depende, conforme diz o autor, do que o artista pode ver, do observatório de onde se acha e do próprio pintor, de sua forma de olhar e de sua arte de pintar (...) é condicionado não somente por sua posição de classe, mas também por outras determinações, por outras pertinências sociais não-classistas relativamente autônomas com relação às classes sociais: nacionalidade, geração, religião, cultura, sexo. Sua visão é desviada também por sua vinculação a certas categorias sociais (burocracia, estudantes, intelectuais, etc.) ou a certas organizações (partidos, seitas, igrejas, círculos, confrarias, cenáculos)” (p. 213, grifos do autor).

sobre as situações vivenciadas por moradores de uma comunidade (Os estabelecidos e os Outsiders), que contribuem para que possamos pensar na importância da atenção aos indícios e ao componente narrativo da interpretação dos episódios, atentando para a suspeita, a indagação e a tentativa de enxergar além da superfície e buscando as imbricações complexas existentes entre indivíduo e sociedade, vistos não como elementos isolados mas como constituindo um ao outro, de maneira que o estudo de indivíduos ou situações singulares não seja desconsiderado como indicador de um contexto mais amplo.