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6 CERCANIAS BIOPOLÍTICAS

6.2 Modulor dissecado

Sobre os pilares do Urbanismo Moderno, o corpo foi definido como uma síntese funcional. Se visitarmos os primeiros capítulos do Movimento Moderno da Arquitetura, ecritos na década de 1920, encontraremos o aparato mecanicista que tornaria possível o nascimento do célebre Modulor, personagem-conceitual que resumiria, anos mais tarde, o entendimento do corpo no seio da obra de Le Corbusier. Justamente, em razão da influência do arquiteto franco-suíço no Brasil, onde o canône da arquitetura moderna é incessantemente recoberto por um véu intocável, creio que essa recapitulação se faz ainda necessária.

O Modulor atribuiu contornos precisos a uma compreensão sobre a corporeidade que já estava esboçada no livro-manifesto Urbanismo, editado pela primeira vez em 1924 (Corbusier, 2000). Exemplarmente, esta publicação destaca-se no imaginário inspirador da cidade moderna e surge frente a nós com a afirmação de um protocolo interpretativo da corporeidade. Duas décadas mais tarde, esse protocolo seria reforçado com o desenho do Modulor, definindo suas medidas com exatidão.

Introduzindo no campo urbanístico uma ponte com a Biologia, Le Corbusier inspirou-se na acepção de corpo como organismo, reforçando o paradigma funcionalista em um diálogo com a

Anatomia e a Taxonomia. A acepção de corporeidade que se manifesta será proveniente de um “pensamento separado do corpo” (LE CORBUSIER, 2000, p. 22), que é subjacente a uma espécie de mitologia dos ângulos retos. No entanto, ao forjar a conexão com a ciência biológica que lhe permitiria definir o corpo segundo sua natureza morfológica, Le Corbusier expõe uma aliança interdisciplinar que merece ser destacada.

Parece sintomático que interesse pelo corpo e a tentativa de defini-lo adquiriram nesta obra precursora do Movimento Moderno na Arquitetura não um tema central do livro. O entendimento do corpo é explicitado por Corbusier nas margens de sua publicação, para ser mais exato, dentro de um apêndice, no final do livro, que se apresenta sob título Confirmações Incentivos Admoestações. É aí, numa pequena parte que poderia, segundo seu autor, ser dispensada pelo leitor, que o corpo é exposto em sua morfologia interna: os órgãos dissecados, um a um, associados a uma especialização absoluta, elogiados em sua “forma perfeita”.

A inscrição que vem logo abaixo da representação dos órgãos respiratórios resume seu entendimento do corpo da seguinte maneira: “Relações diretas e precisas, rápidas, entre duas funções independentes... Dorme-se à noite nas cidades-jardins; trabalha-se às 9 horas da manhã no centro” (LE CORBUSIER, 2000, p. 290). Abaixo do desenho dos órgãos do sistema digestório ele escreve: “Órgãos precisos, caracterizados. Encadeamento lógico das operações” (LE CORBUSIER, 2000, p. 291).

O autor importa para dentro do arcabouço urbanístico as pranchas de representação dos pulmões, do coração, apresentando-nos um corpo dissecado que se tornará o modelo de projeto urbano, no qual cada espaço corresponderá a um órgão especializado. Portanto, o corpo vai possibilitar uma conexão entre o saber da Biologia e um tipo de urbanismo nascente: ainda que de maneira simplificada, uma transitividade dos órgãos do corpo vai ser a base para uma série de analogias. Considera-se, portanto, esta passagem como uma peça-chave para entender as aspirações da cidade racional.

Em Urbanismo, os órgãos são modelos para a fabricação de analogias entre a cidade e um mecanismo em perfeito funcionamento, cada órgão possuindo uma identidade precisa, sua função, sendo pré-determinada e constante, não admitindo uma contextualização do corpo no tempoespaço e prescindindo de variáveis subjetivas. A razão atribuída ao funcionamento do corpo cria um desejado intervalo entre o Caos e a Ordem, para que qualquer variável inconstante ou imprevista seja banida nos projetos urbanos e no imaginário da cidade moderna.

Em determinada passagem, o autor assume que este apêndice do livro foi escrito após o estudo estar terminado, seguindo a motivação de seu sócio, que lhe sugerira um texto “para fazer pensar” uma forma perfeita, um sistema puro (LE CORBUSIER, 2000, p. 285). Para isso as últimas

páginas do manual vão aglutinar um conjunto de ilustrações de seres vivos, são desenhos esquemáticos extraídos de um livro de história natural que apresentam as morfologias anatômicas em complemento aos diversos preceitos técnicos comunicados nas páginas precedentes. A regulação urbana da sociedade por meio da redução do corpo à sua condição biologica se associa, ao meu ver, a uma passagem do Urbanismo pelo domínio da biopolítica, isto é, há uma interseção com o controle e gerenciamento da vida. O corpo-organismo estará submetido a três ideais: “o maravilhoso está na exatidão. O durável está na perfeição. A vida é feita de um cálculo exato” (LE CORBUSIER, 2000, p. 287).

A compreensão de uma cidade decorrente da analogia com o organismo repousa, portanto, no fascínio pelos imaginários da taxidermia e dos atlas anatômicos, em que cada órgão do corpo humano estaria diretamente vinculado a um setor urbano (os parques verdes no lugar dos pulmões, por exemplo). Os órgãos, interpretados como unidades funcionais, são instrumentos de ordenação e controle do caos e da entropia, de certa maneira, inspirados por conhecimentos provenientes da dissecação de corpos mortos, os órgãos expõem-se na destituição da própria corporeidade, secções perfeitas na organização caótica da natureza, capazes de manter a cidade como “um organismo humano de proteção e trabalho”. A corporeidade se torna uma matéria inteligível e, portanto, passível de ser manipulada na expressão de seus gestos.

Veremos, assim, que a coreografia passa a se integrar ao léxico do modernismo como uma expressão da capacidade racional do homem moderno, capaz de controlar, organizar, medir e fazer durar uma multiplicidade de movimentos. O encadeamento dos gestos em configurações coreográficas só foi possível quando o corpo fechou-se para as interações caóticas. Depois de definhada sua anatomia, sua estrutura morfológica, suas medidas e velocidades, os gestos se tornaram elementos de razoadas coreografias. Paramentado pela exatidão, o corpo moderno estava pronto para dançar. Acompanhando a cadência que o horizonte funcionalista lhe designara, esse corpo se dará a ver como uma arquitetura anatomopolítica.