PARTE I – PREFIXOS PROPRIAMENTE DITOS 2117 I – PREFIXOIDES OU SEMIPREFIXOS
MODUS COMPARANDI ―
Cotejo Intralinguístico146 / Cotejo Interlinguístico147
A) Individual148
SEMANTICAMENTE (i) quanto aos sentidos que dado prefixo denota149
(ii) quanto aos esquemas construcionais que dado prefixo molda150
FORMALMENTE (i) quanto à feição etimológica ou vernacular de cada formativo e quanto à sua rede alomórfica e alográfa
FUNCIONALMENTE (i) quanto à seleção das categorias das bases por dado prefixo
B) Geral151
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Naturalmente, algumas dessas pautas de colação foram mais exploradas que outras no desenvolvimento da investigação. Os itens (iii) do cotejo semântico geral, (ii) do cotejo formal geral e (i) do cotejo funcional geral foram muito pouco enfocados, embora almejássemos contemplá-los, pela sua importância para a comparação semântico-morfolexical entre as línguas consideradas.
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Ou seja, primeira fase do galego-português X segunda fase do galego-português (português arcaico); primeira fase do castelhano arcaico X segunda fase do castelhano arcaico.
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Ou seja, a colação entre, de um lado, o fato linguístico (unidade morfológica, fenômeno morfossemântico etc.) do paradigma prefixal castelhano e, do outro, o fato linguístico do paradigma prefixal galego-português.
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Isto é, prefixo a prefixo (exemplo: no cotejo intralinguístico, o re- da primeira sincronia do castelhano arcaico X o re- da segunda sincronia do castelhano arcaico; no cotejo interlinguístico, o re- galego-português X o re- castelhano).
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Além da opacidade e expletividade que registram. 150
E a produtividade e vitalidade de tais esquemas. 151
SEMANTICAMENTE (i) quanto ao espectro semântico geral dos dois paradigmas
(ii) quanto ao fluxo de conservação e inovação nos dois paradigmas152 (iii) quanto às relações morfossemânticas que os dois paradigmas engatilham153 FORMALMENTE (i) quanto à feição
mais conservadora (etimológica) ou mais inovadora (vernacular) dos dois paradigmas (ii) quanto ao registro de cognatos perfeitos e de ausências de correspondências entre um e outro paradigma
FUNCIONALMENTE (i) quanto às escolhas divergentes de prefixos para as mesmas bases no fluxo histórico dos dois paradigmas154
(ii) quanto ao aparecimento de novos elementos, via gramaticalização (prefixoides) nos dois paradigmas ou em um deles155
Tabela 01. Síntese do modus comparandi aplicado às línguas analisadas na tese.
O foco no estudo comparativo não foi pensado para ser feito apenas por si mesmo (embora pensemos que a comparação em si já é algo digno de consideração, pois permite saber um pouco melhor como de fato se comportam ambas as línguas e até que ponto convergem e se singularizam e em quais aspectos tais convergências e dessemelhanças se manifestam), mas para poder servir, quando menos provisoriamente e pontualmente, como meio de confirmação ou refutação de algumas questões gerais sobre as línguas sob cotejo. Com isso adotamos como certeiro o valor heurístico e o potencial teórico da comparação entre línguas para a ciência linguística (MORENO CABRERA, 1997), coadunando-nos à assunção de Sánchez Miret (2008, p. 12-13), quando defende que “[...] el estudio comparativo nos
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A conservação sendo sinalizada pela manutenção de sentidos latinos e a inovação pelo surgimento de novos sentidos vernaculares, sobretudo através da metáfora, da metonímia e da perspectivação.
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A saber: polissemia, homomorfismo, sinmorfismo, antinomorfismo, intentando também verificar se os fluxos da polissemia de cada prefixo são percorridos nos mesmos sentidos nos dois paradigmas.
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E.g., esfriar (port.) X enfriar (cast.). 155
Além dos prefixoides, o aparecimento de outros elementos (e.g., pseudoprefixos) e de outros fenômenos (lexicalização de prefixos, por exemplo).
coloca en disposición de hacernos preguntas que no se plantean en el estudio lengua por lengua y que, por lo tanto, ayudan a comprender mejor los fenómenos estudiados.”156
Talvez seja essa a maior contribuição da tese. A principal pauta ponderada foi a seguinte: é lícito afirmar que o castelhano e o galego-português medievais — consideradas, entre as novilatinas, as línguas que maior afinidade entre si apresentam (MEIER, 1974; POSNER, 1998; MARRONE, 2005; FURLAN, 2006; ARIZA, 2008) — eram mais semelhantes com respeito à prefixação no período arcaico que nas fases subsequentes ou isso se trata apenas de uma impressão apriorística equivocada?157
Podemos afirmar que o estudo que pretendemos desenvolver restringiu-se à comparação entre duas línguas da família românica e, de certa forma, a sua protolíngua, a latina; e não o fizemos pretendendo reconstituir protoformas, das quais as descendentes podem ter se derivado, mas sim, visando a promover a apreciação de comparações entre a forma originante (na matriz lexical latina) e as formas presentes nas línguas descendentes,
156“[…] o estudo comparativo nos coloca na disposição de fazermos perguntas que não são enfocadas no estudo atomístico língua por língua e que, portanto, ajudam a compreender melhor os fenômenos estudados.” [Trad. nossa]
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Tagliavini (1973 [1949], p. 51) afirma que as línguas neolatinas há uns séculos eram ainda mais afins do que agora, o que leva a pensar que quanto mais recuadas, mais semelhantes eram. Segundo Paixão de Souza (2006), esse é um postulado da teoria genética tradicional da linguística histórica, visto que “[...] seria de esperar que quanto mais recuássemos no tempo, maior fosse o grau de semelhança entre os idiomas românicos ― pois mais próximos estariam, cada um deles, à língua mãe; menos afetados pelas evoluções internas paralelas que, em tese, os diferenciariam entre si e em relação ao latim.”. Não obstante, e segundo a mesma autora, com base em Maurer Jr. (1951b), justamente o oposto parece ocorrer: quanto mais recuadas no tempo, mais distintas entre si se mostram essas línguas (se não tanto no léxico, pelo menos na sintaxe), o que não deixa de ser paradoxal. Inicialmente, e de forma apriorística, como o haveria de ser, cogitávamos para a tese a hipótese da maior similitude original (mais correspondências léxico-morfológicas e semânticas entre as línguas cotejadas), com um posterior (e relativo) afastamento entre as línguas, de forma paulatina, durante os séculos seguintes ao seu período arcaico. Os dados revelarão, ao menos panoramicamente, se isso se confirma ou não, ou seja, se Tagliavini estava correto ou se o estava Maurer Jr. (ou, quem sabe, se ambos, de certa forma, têm alguma razão, pois o jogo entre conservação, variação e inovação não é rijo, mas fluido e pluridimensional). Só os fatos podem dizer algo. A pesquisa comparativa serviria justamente para isso e também para estabelecer, quanto à morfologia léxica (prefixação), se de fato o galego-português é mais conservador que o castelhano, como informam inúmeros filólogos e linguistas. Essa última questão é um tópico que ficará pendente, aguardando uma reflexão futura de nossa parte (ou da parte de outrem), a fim de perscrutarmos se o fenômeno da prefixação no medievo corrobora ou refuta a afirmação generalizada nos manuais e em outras obras de linguística românica (COSERIU, 1954; MENÉNDEZ PIDAL, 1964 [1926]; MAURER JR., 1967; DÍEZ, MORALES & SABIN, 1980; POSNER, 1998; RODRÍGUEZ, 1999) do caráter arcaizante e conservador do galego-português e do caráter inovador do castelhano. Não seria uma temeridade afirmar que a dita assunção se fundamenta na consideração de seus respectivos sistemas fonológicos (exceção se encontra em POSNER, 1998, com o seu postulado de que o castelhano é inovador desde o ponto de vista morfológico). O problema é que isso muitas vezes não é explicitado e, da forma como é exposto, conduz à conclusão de que essas línguas são assim em todos os seus níveis, na sua totalidade idiomática, o que, sem sombra de dúvidas, é uma falácia, pois sob alguns critérios específicos o castelhano parece ser mais conservador que o galego e o português. Indo além, cabe dizer que sob algumas pautas a oposição entre esses três sistemas se neutraliza, visto que há pontos em que convergem para um caráter inovador, como nos diversos traços morfossintáticos enumerados por Berta (2013). Faz-se necessário, portanto, questionar essa visão apriorística, que não deixa de ser uma generalização, observando-se, a partir dos dados empíricos, se o conservadorismo do galego-português e o progredimento inovador do castelhano são, de fato, atestáveis e, o sendo, em quais níveis se mostram (se em alguns apenas, se mais em uns que em outros etc.).
que, mesmo sendo portadores de uma identificação histórica quanto à gênese (ambas derivam do latim), podem não só apresentar divergências quanto à matriz, mas também entre si, devido ao fato de poderem gerar derivados ou formativos de certa forma alheios à matriz genolexical e alheios ao desenvolvimento histórico-diacrônico de sua semelhante, sua “língua-irmã”.
Findando esta seção, não é supérfluo reforçar que cremos, com Bassetto (2005), Posner (1998) e Ridruejo (1989), que o método histórico-comparativo, devidamente usado, permanece sendo profícuo, sobretudo para o conhecimento do léxico e da morfologia das línguas românicas, permitindo rastrear as confluências e singularidades que delas emergem, ou seja, os encontros e desencontros que se dão no transcurso histórico-constitutivo dos idiomas enfocados.
3 MORFOLOGIA EM PERSPECTIVA HISTÓRICA E (SOCIO)COGNITIVA
Esta macrosseção tem como escopo contemplar algumas questões teórico- epistemológicas atinentes aos modelos de estudo morfológico adotados como lastro para a investigação, fundamentalmente a morfologia histórica (doravante, MH) e a morfologia construcional (doravante, MC). Para isso, apresentaremos pontos tidos como essenciais para ambas as correntes teóricas, acompanhados por comentários críticos e algumas achegas formuladas a partir de reflexões sobre os postulados que preconizam, o que se fez possível mediante a sua confrontação com a materialidade empírica da língua, apreensível nos dados sob análise. Trata-se, em suma, de uma apreciação crítico-reflexiva sobre a literatura disponível acerca das correntes teóricas que se mostraram mais interessantes para a consideração científica do objeto teórico e do objeto observacional a que se debruça este estudo.
Rege a estruturação desta 3ª macrosseção a sua compartimentagem em três subseções inter-relacionadas: a que trata da MH, a que se ocupa da morfologia (sócio)cognitiva (com ênfase na MC) e, como arremate, uma proposta de consórcio entre ambas, o que nos pareceu um expediente justificável, proveitoso e viável para uma melhor compreensão do componente morfológico da língua, mormente em seu desempenho lexicogenético.
3.1 MORFOLOGIA EM PERSPECTIVA HISTÓRICA
Consideramos pertinente discorrer sobre a MH, de modo sucinto, porém não trazendo apenas tópicos já clássicos da literatura correspondente a essa subárea, mas também uma consideração de novas visões e perspectivas, conjugadas a uma visão crítica própria. De uma explanação sobre o que ela é, inflectindo por reflexões sobre os limites de uma análise exclusivamente sincrônica para a morfologia e da admissibilidade de um olhar histórico- evolutivo para esse subsistema da língua, pretendemos apresentar contribuições a uma perspectiva renovada de apreciação diacrônica para formações prefixais, que, embora incipiente, possa servir como passo inicial para este e outros estudos históricos sobre fenômenos genolexicais.
3.1.1 O que vem a ser a morfologia histórica?
A caracterização mais simples e mais precisa da MH parece ser a de subdisciplina da linguística histórica (doravante, LH)158 — tomada de Cano Aguilar (2009) —, justamente a que se ocuparia, sob uma batuta histórica, da estrutura interna da palavra, de seus componentes e operações. Visaria, portanto, a uma descrição da evolução159 do subsistema morfológico, desde seus primórdios, o grego e/ou o latim, passando pelo latim tardio e medieval e chegando ao vernáculo e, dentro deste, apreciando tal subsistema desde seu estágio primitivo no medievo, perpassando sua fase moderna e desembocando na contemporânea. Pensemos, a princípio, que se se restringe a um dos recortes temporais, trata- se de MH; porém, se se lança ao rastreamento de dado fenômeno ao longo de duas ou mais etapas, cotejando-as, tratar-se-ia de morfologia diacrônica (doravante, MD)160. Quando se logra vincular as duas óticas, chega-se a uma morfologia histórica-diacrônica, que, seguramente, é a mais completa e interessante perspectiva para um tratamento burilado do componente morfológico da língua em seu devir temporal.
Cabe fazer aqui uma primeira observação. Se nos atemos ao que expomos acima (e que é comumente aceito pela literatura linguística), somos levados a concluir que as incursões da MH têm um caráter sincrônico, visto que esquadrinham fatos morfológicos em uma faixa temporal tida como uma unidade, um état de langue déterminé (cf. SAUSSURE, 2004 [1916]). Portanto, a princípio, tanto um estudo sobre o sufixo -ada na primeira fase do GP (sécs. XIII-XIV) quanto um estudo sobre o funcionamento de tal formativo no séc. XVIII ou XXI seriam estudos sincrônicos, se nos atemos ao entendimento de sincronia adotado pelo mestre genebrino161. Como afirma Simões Neto (2016a), não deixam de ser também
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Tida por Company Company (2003b) como uma das três disciplinas que estudam a variação nas línguas, ao lado da dialetologia (englobando esta a sociolinguística) e da tipologia interlinguística. A mesma autora aponta que a LH é também conhecida como gramática histórica ou variação diacrônica.
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Reforçamos a observação de que o uso nesta tese do termo evolução (e de formas a ele paradigmaticamente associadas, como evolutivo e evoluir) em referência à língua ou às suas unidades e operações, não é feito com um sentido de ‘movimento de um arranjo teleológico optimizante’, mas sim, meramente como ‘desenvolvimento histórico’, o que se dá com qualquer objeto cultural (cf. ABAD, 2004; COSERIU, 1958).
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Nem sempre, contudo, tal diferenciação é divisada em termos absolutos. Não é raro deparar-se com estudos que se intitulam históricos e que, na verdade, são diacrônicos, ou vice-versa. A própria Profa. Rosa Virgínia Mattos e Silva (in memoriam) e seu grupo, o PROHPOR, pareciam alternar o uso dos dois termos para se referirem às investigações que levavam a cabo sobre a história do português, chegando tal linguista a apontar, em determinado escrito (2008b, p. 12) que “Costuma-se não distinguir linguística histórica de linguística diacrônica.”. Algo semelhante notamos na resenha de Cano Aguilar (2004) sobre os desdobramentos da MH espanhola no último século, quando afirma que a análise diacrônica da morfologia é uma subdisciplina da LH. 161
A primeira elucidação sobre esse fato nos foi brindada pela Profa. Clara Crepaldi, no ano de 2009, quando cursava na graduação, com o autor destas linhas, a disciplina A língua portuguesa no período arcaico, ministrada pela Profa. Rosa Virgínia Mattos e Silva, de saudosa memória.
sincrônicos os recortes estáticos de períodos mais recuados da língua que não se espraiam pela apreciação da mudança, e, certamente, é devido ao prevalecimento de estudos sincrônicos contemporâneos entre as correntes estruturalistas (e todas as que lhes sucederam) que se registra a identificação errônea do termo sincrônico como equivalente de contemporâneo.
No entanto, essa associação imediata entre MH (na verdade, a LH como um todo) e estudo sincrônico, quando explorada mais a fundo, não parece se manter de forma inexpugnável, o que não se deve em primeira instância à dicotomia saussureana (embora também se deva a ela, como se verá), mas, principalmente, ao desenvolvimento dos estudos linguísticos sincrônicos que lhe sucederam e que adotaram a sua concepção de língua. Isso porque, embora o conceito de sincronia pudesse contemplar estágios recuados da língua tomados metodologicamente como um bloco temporal uniforme, a descrição sincrônica (dominante na linguística por todo o séc. XX e também na atual centúria) ateve-se quase sempre à descrição de faixas temporais coevas (MORTUREUX, 2001).
Que a princípio a MH e a LH possam parecer sincrônicas (e o são) é uma verdade, mas logo se descobre um aspecto singular que paira sobre elas e que em geral é posto de lado pelos estudos sincrônicos estritos — que são aqueles que propõem um absoluto sincrônico (CARVALHO, 2008) —: a percepção do fluxo histórico como um critério dotado de valor heurístico. Se a MH é também sincrônica? Sim e não. Sim, se se considera que pode descrever um recorte temporal específico da língua; não, se se pensa que o estudo sincrônico se encaixa exclusivamente a períodos mais modernos ou recentes da língua, operando apenas sobre o testemunho dos falantes, sem levar em conta a patente temporalidade que perpassa o funcionamento idiomático. Em outras palavras, a MH pode ser sincrônica (portanto, também a LH), mas jamais sincronicista, pois se o fosse deixaria de ser histórica, pelo fato de a perspectiva sincronicista identificar-se com uma leitura a-histórica da língua, abstraindo dela o aspecto temporal (CARVALHO, 2008).
Talvez seja conveniente pensar, visando a uma maior aclaração e uniformidade conceitual e terminológica, num esquema que abarque essas possibilidades metodológicas várias de achegamento ao estudo morfológico. A nosso ver, o que até então tem se mostrado mais detalhado, lógico e sistemático é aquele idealizado por Simões Neto (2016b), fundamentando-se, por sua vez, na conhecida divisão de Mattos e Silva (2008b) entre LH lato e stricto sensu. Segue a reprodução do esquema de Simões Neto (2016b, p. 263), acompanhado de um breve comentário sobre tal proposta diagramática.
Figura 02. Diagrama representativo da morfologia histórica (SIMÕES NETO, 2016b, p. 263).
Seguindo uma orientação vertical descendente para a apreciação do diagrama arbóreo de Simões Neto (2016b), o que primeiro notamos é a filiação da MH à Filologia, no esteio das orientações de Mattos e Silva (2008b), que entrelaça os estudos filológicos aos históricos sobre a língua. Voltaremos a esse ponto mais adiante, visto que não parece ser de todo aplicável. Ligada à Filologia, a MH se ramificaria em dois grandes braços, a MH stricto sensu e a MH lato sensu. A primeira, segundo o mesmo autor (2016a), investigaria a mudança linguística morfológica, seja no nível do significante, seja no nível do significado, seja em suas relações ou nos processos formativos; já a segunda, por sua vez, abarcaria todo e qualquer estudo que buscasse descrever algum fenômeno morfológico a partir de dados datados e localizados (quer coevos, quer pretéritos), algo que igualmente contribuiria para uma melhor compreensão do edifício histórico da morfologia das línguas. Dois ramos se espraiariam da MH stricto sensu, o da Morfologia Diacrônica Associal, a que se circunscreveriam os trabalhos histórico-comparativos, estruturalistas e gerativistas; e o da Morfologia Histórica Sócio-Histórica, que englobaria os estudos de filiação funcionalista, sociolinguística e cognitivista.
Exemplificando as categorias, poderíamos admitir que um estudo sobre o prefixo re- no espanhol atual do Chile seria um estudo de MH lato sensu; um estudo sobre tal formativo em seu fluxo histórico do latim ao espanhol antigo seria um estudo de MH stricto sensu de caráter diacrônico associal; já um estudo histórico sobre a sua polissemia, erigido sob a sombra de uma ótica sociocognitivista e associando operações de categorização mental a
processos sociais e culturais incidentes sobre a língua, seria MH stricto sensu de caráter sócio- histórico.
O principal mérito da proposta em tela, seguindo os passos de Mattos e Silva (2008b), reside no fato de afastar-se de uma visão ultrapassada e fechada da História, vista exclusivamente como a ciência que se debruça sobre o passado, para adotar uma perspectiva que assume como objeto o tempo, seja recuado, seja contemporâneo, de modo que passa a se considerar a apreciação de fatos do presente também como um labor histórico (SIMÕES NETO, 2016b). Com isso, a MH deixaria de ser vista exclusivamente como o campo das pesquisas “[...] que descrevem a evolução das mais variadas estruturas morfológicas ou que descrevem a morfologia em períodos mais recuados das línguas.” (SIMÕES NETO, 2016a, p. 4).
Outro ponto muito positivo da esquematização de Simões Neto (2016b) é conseguir abranger diversos tipos de abordagens históricas à morfologia e dispor dentro de si os respectivos loci da MH e da MD e, por conseguinte, permitir divisar a relação que mantêm entre si. Assim, a última se circunscreveria à primeira, subordinando-se a ela. Logo, fazer MD seria fazer MH, mas fazer MH não necessariamente seria fazer MD.
Conquanto tenha inegável relevância, justamente por lançar-se a sistematizar todo o complexo espectro dos estudos morfológicos de base historicocêntrica, pensamos que alguns ajustes necessitariam ser feitos, para uma ainda maior validez do diagrama proposto. O primeiro a se pensar é sobre a ligação (que no esquema aparece como direta, automática) entre Filologia e MH. Que para um estudo sobre fases mais recuadas da língua (diacrônico ou não) seja imperioso valer-se das contribuições filológicas é algo fora de discussão, mas o mesmo necessariamente se daria para fases mais contemporâneas? Exemplificando: para se estudar o comportamento e vitalidade atuais do formativo neo- para a língua galega, em redes sociais como o Twitter ou Facebook, o investigador necessariamente precisaria lançar mão de um recurso direto à Filologia? Parece que não.
Outro ponto passível de discussão: estudos históricos sobre a morfologia (ou qualquer outro nível da língua) a partir de dados do presente teriam o mesmo status daqueles incidentes sobre dados pretéritos? Ou, pelo contrário, aqueles seriam mais latos que estes? Não que se trate de desconsiderar análises sobre dados datados e localizados contemporâneos como históricos, mas sim, de talvez se pensar que seu “grau patente de historicidade” pode ser menos marcado que o de fases anteriores. Não nos comprometemos com uma resposta a essa complicada questão (apenas quisemos lançar a problematização), que não parece ser de fácil
destrinchamento, pois se de um lado é possível propender a uma marcação de [+ patentemente histórico] a fatos do passado, do outro, brotam percepções que parecem desautorizá-la, como, por exemplo, a de que análises de fatores sociais (como as trabalhadas pelos sociolinguistas) são mais viáveis e, de certo ponto, mais reveladores da história social do que aquilo que