4.5 Elementos componentes
4.5.9 Monitoramento contínuo do método
O processo de verificação contínua do método consiste na etapa final do processo de AQbD, contemplando atividades que asseguram que o método se mantém sob controle, ou seja, que este permanece cumprindo os pré-requisitos do ATP, durante o seu ciclo de vida (BHUTANI et al., 2014; JAYAGOPAL; SHIVASHANKAR, 2017). Essas atividades correspondem ao monitoramento do método, que pode ser efetuado com base no uso de cartas controle ou outras ferramentas voltadas para rastrear investigações relacionadas ao método analítico (PERAMAN; BHADRAYA; REDDY, 2015). Uma vantagem dessa abordagem se refere ao fato da mesma permitir, proativamente, a detecção, identificação e estabelecimento de tratativas para resultados fora de tendência, Out of Tendency (OOT), e/ou fora de especificação, Out of Specification (OOS), com relação a performance do método, permitindo o processo de melhoria contínua (JAYAGOPAL; SHIVASHANKAR, 2017; PERAMAN; BHADRAYA; REDDY, 2015).
Um último ponto a ser destacado se refere ao fato de que, periodicamente, os métodos em uso precisam ser revisitados e avaliados, de modo a ser possível identificar possíveis brechas ou oportunidade de melhoria, assim como, avaliar se uma nova tecnologia não seria aplicável (REID et al., 2013).
4.6 QbD X AQbD
A definição e princípios base de Qualidade por Design já foram explorados previamente neste trabalho, sendo válida a apresentação do diagrama geral de estruturação do mesmo, de modo a se visualizar os conceitos e etapas envolvidas, conforme demonstrado pela figura 08.
Figura 08 - Estrutura genérica da abordagem de QbD
Fonte: adaptado de PRAMOD et al., 2016.
Pensando na comparação entre QbD e AQbD, o enfoque do primeiro é com relação as variáveis envolvidas com o processo e o próprio produto final e o de AQbD nas características da metodologia analítica de escolha. Apesar disso, ambos visam, em última instância, assegurar a qualidade do produto final a ser entregue ao paciente, por meio da incorporação da qualidade durante seu processo ou desenvolvimento, ao invés de optar pela abordagem de teste do resultado final, seja ele o produto ou o dado analítico. Nesse caso, é mostrado no quadro 05 algumas características comparativas entre QbD e AQbD.
Quadro 05 – Comparativo entre QbD e AQbD quanto a fundamentos básicos
QbD AQbD
Baseado em abordagem sistemática Baseado em abordagem sistemática Qualidade é construída no produto e
processo por meio de uma abordagem científica e de design
Qualidade assegurada pela robustez e reprodutibilidade do método (obtidos durante o
desenvolvimento do método) Submissão realizada com base nos
conhecimentos do produto e processo
Submissão conforme conhecimentos adquiridos quanto ao método e seguridade dos
resultados por meio do ATP Especificações baseadas nos requerimentos
de performance do produto
Especificações baseadas no desempenho do método quanto aos critérios do ATP Processo flexível, permitindo melhorias
contínuas dentro do DS visando assegurar a qualidade do produto
Método flexível dentro do MODR, viabilizando a implementação de melhorias contínuas que asseguram a validade dos resultados obtidos Foco em robustez na qual se compreende a
identificação e o controle das fontes de variabilidade nos materiais e processos (com
realização de análise de risco)
Foco em metodologias robustas, com identificação e controle de fontes de variabilidade relevantes quanto aos reagentes, instrumentação empregada (com realização de análise de risco), bem como busca por análises
custo-efetivas Design do produto e processo de modo a
cumprir com os CQAs
Escolha de uma técnica de design da metodologia de modo a atingir os requisitos de
capacidade Entendimento do impacto dos atributos dos
materiais e parâmetros de processo nos CQAs do produto
Entendimento do impacto dos parâmetros do método quanto aos resultados obtidos Fonte: adaptado de KAKODKAR et al., 2015; PERAMAN; BHADRAYA; REDDY, 2015.
Em termos de QbD, é possível ressaltar seis elementos principais da sua estruturação, que são:
1- Quality Target Product Profile (QTPP): corresponde a um conjunto de características de qualidade do produto que idealmente será atingido visando assegurar a qualidade desejada, considerando aspectos de segurança e eficácia do medicamento (COOK et al., 2014; YU et al., 2014) ;
2- Atributos críticos de qualidade (CQAs): Previamente definido no item 4.5.3 do presente trabalho.
3- Análise de risco: a realização da análise de risco previamente ao desenvolvimento do produto viabiliza a identificação de possíveis riscos envolvendo a formulação, bem como as variáveis do processo que possam
impactar a qualidade do produto final, sendo sua definição já apresentada no item 4.5.4. A mesma auxilia no desenvolvimento do processo de fabricação, no delineamento de uma estratégia de controle e no manejo do ciclo de vida de um produto (COOK et al., 2014, YU et al., 2014);
4- Espaço de concepção (Design Space): consiste na combinação multidimensional considerando a interação entre as variáveis de entrada e parâmetros de processo que proporcionam garantia de qualidade do produto (ICH Q8 R2, 2009);
5- Estratégia de controle: conforme ICH, a estratégia de controle pode ser definida como “conjunto planejado de controles, oriundo da compreensão atual do produto e processo que garante o desempenho do processo e a qualidade do produto” (ICH Q8 R2, 2009, p. 16, tradução nossa). Ou seja, esse compilado de controles mantém o produto e o processo funcionando dentro do DS de modo a atender as exigências do QTPP (COOK et al., 2014); 6- Gerenciamento do ciclo de vida: consiste na verificação contínua do processo e implementação de melhorias desde a sua concepção até a descontinuação do produto (COOK et al., 2014);
Considerando essa breve descrição quanto aos elementos chave de QbD, é apresentado na figura 09 a correlação entre estas e as ferramentas de AQbD já apresentadas anteriormente.
Figura 09 – Esquema comparativo considerando as etapas de desenvolvimento segundo QbD (em vermelho) e AQbD (em verde)
Fonte: Carolina Santos.
Legenda: CPP – Parâmetros Críticos de Processo (Crtical Process Parameters); Região em amarelo representando o uso compartilhado de ferramentas de análise de risco.
É possível notar que ambas apresentam a mesma estrutura base com inúmeros paralelos, o que era de se esperar. Por exemplo, o ATP seria o
correspondente ao QTPP, o Design Space ao MODR, a parte de controle estratégico, no caso de QbD, é voltada para assegurar a manufatura de um produto com a qualidade desejada e, no caso de AQbD, para assegurar a performance do método, mas no final, ambos visam o atendimento do objetivo inicial estabelecido, etc (JAYAGOPAL; SHIVASHANKAR, 2017).
No geral, QbD e AQbD empregam a concepção de design visando assegurar os atributos de desempenho ou qualidade de interesse, bem como a construção de conhecimento sobre o processo envolvido, de modo a se avaliar os parâmetros críticos que influenciam na qualidade do resultado final (seja ele o produto ou o próprio dado analítico). Esse conhecimento também abrange a identificação e controle das variabilidades nas entradas de processo, bem como a monitorização visando a manutenção do controle e o uso de estratégias de melhoria contínua com base em todos os dados que são obtidos (KAKODKAR et al., 2015).