No final da década de 1970 e início da década de 1980, quando a tecnologia de imagem digital começou a ser usada em museus e galerias de arte, a sua aplicação tinha em particular o intuito de tirar partido de duas caraterísticas permitidas pelas imagens digitais, quando comparadas com as que são obtidas por métodos fotográficos convencionais (ou “fotografia analógica”).
A primeira característica é a de que as imagens que eram produzidas pela conversão em informação digital de sinais obtidos com câmaras de televisão - nesta fase primordial ainda não existiam disponíveis câmaras digitais de sensores de estado sólido (Hunt, 2004, pp. 360-375) - ofereciam uma precisão na informação registada e reprodutibilidade sem perda de qualidade, muito superiores às da fotografia analógica (isto é, captada em película com emulsão fotográfica a cores) de então. Usavam-se neste período histórico câmaras monocromáticas de televisão a preto e branco com uma resposta espetral conhecida, a que se associavam conjuntos de filtros de separação de cores e um sistema de iluminação controlado, o que permitia produzir imagens a cores calibradas e que já possibilitavam acompanhar alterações das pinturas ao longo do tempo (Saunders, et al., 2006, p. 522). Esta técnica revelava-se mais eficaz do que o método fotográfico a cores convencional de então ou mesmo de uma técnica análoga baseada em imagens monocromáticas (fotografia a preto e branco) registadas através de filtros de separação de cores, mas que sofriam (tal como todos os processos fotográficos analógicos, baseados em emulsão
fotossensível de sais de prata) variações resultantes do lote de fabrico das películas e das químicas de revelação.
A segunda caraterística é a disponibilidade imediata da informação registada, ou seja, não só se torna possível visualizar de imediato a informação como, estando esta no formato digital, pode ser logo processada (ou manipulada), o que constitui uma grande vantagem face à fotografia convencional; apesar da fotografia analógica convencional também poder ser manipulada no laboratório (câmara escura), nunca o poderia ser de imediato e a repetibilidade de processos não é tão fácil ou rigorosa, ao contrário dos métodos digitais que oferecem desde os seus primórdios a possibilidade de aplicar alterações logo a seguir ao seu registo, de forma reprodutível e rápida (Saunders, et al., 2006, p. 522).
Para a implementação prática da possibilidade da monitorização do estado de conservação de obras ao longo do tempo, tornava-se assim necessário a criação de um sistema de digitalização espetral que apresentasse precisão e fidelidade cromática adequadas e que, ao mesmo tempo, permitisse a recolha dessa informação com resolução espacial suficiente para que permita também detetar alterações morfológicas. Foi neste âmbito que surgiu o projeto VASARI na década de 1980 (descrito pormenorizadamente no subcapítulo “2.5.3.1- Projetos VASARI e MARC”).
Com o sistema VASARI tornou-se possível assim produzir imagens com precisão colorimétrica e com resolução espacial elevada, o que permitiu já a produção de registos comparáveis ao longo do tempo. Na figura seguinte, mostra-se um exemplo que ilustra bem esta possibilidade, de um estudo de alterações, ao longo de um período de tempo extenso. Trata-se de duas digitalizações que se realizaram com o sistema VASARI, espaçadas entre si pelo período de 6 anos; a obra é uma pintura flamenga atribuída à oficina de Rogier van der Weyden e presente na National Galllery, em Londres34. Com o tratamento digital posterior,
foi possível fazer um mapa monocromático que assinala as diferenças de tonalidade entre as duas imagens, observável ao centro da figura. Apesar de se ter efetuado a digitalização dentro da mesma instituição e com o mesmo equipamento, a perfeita sobreposição das duas imagens é difícil, mesmo após redimensionamento de um das imagens, pelo que se observa também um artefacto de imagem: o rebordo nas zonas de transição entre regiões claras e escuras da imagem não é real, mas sim resultante da impossibilidade da sobreposição ser perfeita. No mapa de diferença de cor, os valores entre as diferenças foram artificialmente exagerados, para que estas diferenças se tornassem mais notórias.
Figura 15: Monitorização do estado de conservação com o sistema VASARI, na National Gallery, Londres.
As duas imagens de cima foram digitalizadas com o sistema VASARI, com uma diferença de 6 anos entre as duas digitalizações; a imagem monocromática - ao centro e abaixo - é um mapa de diferenças de cor entre as duas imagens de cima. Fonte: Saunders, et al. (2006, p. 544).
Só com imagens digitais de elevada qualidade e rigor cromático e com procedimentos de calibração adequados e normalizados se torna possível fazer comparações deste tipo, que sejam realmente significativas. Como já foi referido acima, é muito difícil fazer a gestão de cor na fotografia analógica tradicional e, se as fotografias fossem registadas em locais diferentes, com anos de intervalo entre elas, com tipos de película fotográfica de lotes distintos, revelados em laboratórios diferentes, qualquer comparação que se tentasse efetuar entre essas duas imagens - com o sentido de avaliar alterações cromáticas da obra -, seria completamente irrelevante, já que qualquer um dos outros fatores mencionados afetariam muito mais as diferenças de cor na comparação entre imagens, do que propriamente as alterações que houvessem na obra original.
Com câmaras digitais de elevada qualidade e com todos os sistemas multiespetrais ou hiperespetrais, torna-se possível assim a documentação e monitorização de alterações das cores ao longo do tempo. Alguns desses sistemas têm sido mencionados com esta potencialidade especificamente (Berns, 2005b; Berns, Taplin, Nezamabadi, Mohammadi, et al., 2005; Berns, Taplin, Nezamabadi, Zhao, et al., 2005; Liang, et al., 2010; Lumiere Technology; Saunders, et al., 2006) embora, dado o facto de serem tecnologias ainda muito recentes, não se terem publicado ainda muitos casos práticos em que se tivesse feito esta monitorização, de um modo sistemático e ao longo de um período de tempo significativamente extenso.