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Monitoriza¸c˜ ao do Comportamento de Peixes

Inicialmente os ve´ıculos subaqu´aticos controlados remotamente era principalmente

utilizados para realizar tarefas de recupera¸c˜ao de objetos perdidos em alto mar.

O seu baixo custo de cria¸c˜ao, opera¸c˜ao e manuten¸c˜ao fizeram com que a ind´ustria

2.1. TRABALHOS RELACIONADOS 13

passaram a ser imprescind´ıveis para empresas que trabalham em alto mar, uma vez

que havia a necessidade de atingir profundidades muito elevadas, imposs´ıveis de

atingir por um mergulhador (R. D. Christ,2014).

Desde ent˜ao estes ve´ıculos vˆem a ser utilizados para as mais diversas fun¸c˜oes. Na

ind´ustria, o seu aplica¸c˜ao pode ser necess´aria para fazer desde inspe¸c˜oes de estruturas

submersas ou subaqu´aticas at´e opera¸c˜oes de soldagem ou perfura¸c˜ao em alto mar a

grande profundidade.

Uma potencial aplica¸c˜ao de um ve´ıculo submers´ıvel ´e a monitoriza¸c˜ao de um deter-

minado ambiente subaqu´atico. An´alise do ambiente aqu´atico, recolha de amostras

e dados relativos a parˆametros de qualidade, monitoriza¸c˜ao da atividade da fauna

e da flora s˜ao exemplos de aplica¸c˜oes ligadas `a biodiversidade existente no local de

estudo onde o ROV ou AUV pode ser inserido. De forma global, a utiliza¸c˜ao de

ve´ıculos submers´ıveis, controlados remotamente ou aut´onomos, justifica-se pela n˜ao

necessidade de expor mergulhadores a situa¸c˜oes de perigo muito comuns em ambi-

entes aqu´aticos, principalmente em casos de ´aguas turvas, profundas, contaminadas,

com elevada corrente ou temperaturas baixas (Toronto Police, 2014).

A qualidade da ´agua, considerando principalmente a temperatura, o n´ıvel de oxig´enio

dissolvido e substˆancias qu´ımicas dissolvidas, poluentes ou n˜ao, afeta a vida dos se-

res vivos aqu´aticos. Muitas das vezes ´e poss´ıvel verificar altera¸c˜oes `as carater´ısticas

normais do seu habitat analisando o movimento dos peixes que nele habitam. Tradi-

cionalmente, os bi´ologos analisam o comportamento da fauna aqu´atica fazendo mer-

14 CAP´ITULO 2. VE´ICULOS SUBMERS´IVEIS

uma posterior an´alise dos mesmos (Srividya M. S., 2014). Embora estes m´etodos

sejam capazes de obter bons resultados tˆem as suas limita¸c˜oes:

• Mergulho - O mergulhador n˜ao pode estar dentro de ´agua por per´ıodos prolon- gados. A botija de oxig´enio tem uma dura¸c˜ao relativamente curta e a exposi¸c˜ao

prolongada do mergulhador a temperaturas baixas e press˜oes elevadas n˜ao ´e

aconselh´avel. Esta op¸c˜ao requer algum investimento financeiro pr´evio (fatos,

botijas de ar comprimido, barbatanas, entre outros)(Srividya M. S., 2014).

• Captura - Capturar os peixes para os estudar e analisar o seu comportamento permite obter resultados muito precisos, mas pode provocar danos nos peixes

aquando da sua captura e muitas vezes estes morrem devido a m´as condi¸c˜oes

de transporte e a diferen¸cas elevadas de ambiente onde s˜ao colocados. Al´em

disso ´e um m´etodo que requer tamb´em algum investimento monet´ario(Srividya

M. S., 2014).

Ambos os m´etodos tˆem uma grande desvantagem: alteram o comportamento natural

dos peixes. A inclus˜ao de um elemento estranho no ambiente natural da popula¸c˜ao

de peixes pode causar algum stress nos mesmos, assim como a remo¸c˜ao dos mesmos

do seu habitat.

Como j´a foi referido, os peixes alteram o seu comportamento em fun¸c˜ao do meio

que os rodeiam e as carater´ısticas do mesmo. Assim, o estudo detalhado do seu

movimento pode dar a conhecer aos bi´ologos muitos aspetos interessantes da biologia

2.1. TRABALHOS RELACIONADOS 15

Como ´e imposs´ıvel para o bi´ologo estar longos per´ıodos de tempo a observar os

peixes de forma a verificar de que forma ´e que estes se movimentam, quer seja com

recurso a mergulho ou `a captura de elementos de amostra, a cria¸c˜ao de sistemas de

monitoriza¸c˜ao por computador em laborat´orio torna-se muito importante para este

tipo de estudos.

O trabalho desenvolvido por Rui Nian(2013) demonstra como os projetos de ROVs

podem estar ligados `a etologia1 dos peixes. Nian desenvolveu um sistema capaz

de capturar imagens subaqu´aticas para um ve´ıculo submers´ıvel controlado remota-

mente, que se destinam `a an´alise do comportamento e movimento dos peixes de um

determinado local de estudo. Neste trabalho foi criado um sistema capaz de submer-

gir, controlado remotamente, com vis˜ao por computador, com o principal objetivo

de realizar expedi¸c˜oes que permitisse capturar imagens para estudos de etologia dos

peixes.

Figura 2.7 – VideoRay Pro III MicroROV

Outro trabalho semelhante ´e o de Jun Zhou (2006), onde o autor tamb´em criou

um sistema para detetar e seguir o movimento de peixes com base na vis˜ao por

1Etologia dos peixes ´e o ramo da ciˆencia que estuda o movimento, comportamento e atividade de peixes, quer selvagens ou criados em cativeiro, em condi¸c˜oes naturais.

16 CAP´ITULO 2. VE´ICULOS SUBMERS´IVEIS

computador. Zhou utilizou o ROV VideoRay Pro III MicroROV (Figura 2.7) para recolher as imagens do ambiente subaqu´atico e analisar o movimento e posi¸c˜ao de

uma esp´ecie de peixe o Largemouth Bass, conhecido em Portugal como Achig˜a. No

seu trabalho utiliza uma s´erie de filtros, incluindo o filtro de Gabor para textu-

ras, segmenta¸c˜oes e extra¸c˜ao de carater´ısticas geom´etricas para procurar os peixes e

detetar a orienta¸c˜ao do mesmo, sabendo a posi¸c˜ao do corpo e identificando a barba-

tana caudal. Com base nas carater´ısticas extra´ıdas, o ROV alterava a sua posi¸c˜ao

de forma a poder seguir o peixe. Outro filtro utilizado por Zhou foi o filtro de Kal-

man, que lhe permitia obter posi¸c˜oes estimadas sobre a posi¸c˜ao futura do objeto a

detetar e seguir.

Existem atualmente alguns sistemas de vis˜ao que permitem a monitoriza¸c˜ao do com-

portamento dos peixes em ambientes controlados, como laborat´orios com tanques

ou aqu´arios, e mesmo ambientes naturais. Quando as condi¸c˜oes de filmagem n˜ao

s˜ao as melhores e a dete¸c˜ao de peixes por computador n˜ao ´e poss´ıvel, recorre-se a

bi´ologos treinados para este tipo de tarefas.

Para se poder obter dados relativos ao comportamento dos peixes com a melhor

precis˜ao, o estudo teria de ser realizado no seu habitat. Mas reconhecer, contar ou

seguir peixes no seu ambiente natural coloca v´arios desafios (Clowting,2006):

• os equipamentos eletr´onicos s˜ao muitas vezes sens´ıveis `a humidade;

• o contraste visual ´e reduzido devido a carater´ısticas do meio como a turbidez, sedimentos, bolhas, detritos, entre outros;

2.1. TRABALHOS RELACIONADOS 17

Se tentarmos uma abordagem em que o sistema de vis˜ao por computador procura

o peixe com base na sua forma (com classificadores por exemplo), existem outros

problemas associados uma vez que o peixe faz rota¸c˜oes e mudan¸cas bruscas de dire¸c˜ao

e raramente p´ara na posi¸c˜ao ideal para a captura da imagem na perspetiva desejada

para um processamento correto.

Esta disserta¸c˜ao ir´a focar-se, essencialmente na segunda parte da mesma, na an´alise

do movimento de peixes com base em v´ıdeos de ambientes controlados. Nestas

condi¸c˜oes existem alguns trabalhos realizados, principalmente em laborat´orio, onde

o peixe ´e colocado num aqu´ario/tanque previamente preparado para os testes que

se desejam realizar, com ´agua limpa, com baixo n´ıvel de turbidez, com o fundo

do aqu´ario branco e iluminado, por forma a obter a melhor qualidade de imagem

poss´ıvel com a cˆamara. As imagens capturadas pela cˆamara podem ser analisadas

em tempo real ou guardadas e processadas posteriormente. A Figura2.8(Clowting, 2006) representa uma forma de realizar este g´enero de testes em laborat´orio.

O problema de fazer a dete¸c˜ao e seguimento de peixes em longos per´ıodos de tempo

consiste num duplo problema: detetar o peixe numa imagem e estabelecer a sua

correspondˆencia na imagem seguinte. A primeira parte ´e a mais direta e simples de

resolver, embora os peixes estejam sempre em movimento, mesmo enquanto est˜ao a

“dormir”. No entanto, a segunda pode apresentar muitas dificuldades uma vez que

os peixes movem-se muitas vezes perto uns dos outros, cruzando-se v´arias vezes. Isto

torna o processo de seguimento dos peixes ao longo de uma sequˆencia de imagens

mais complicado. Outro aspeto que dificulta o seguimento de peixes, principalmente

18 CAP´ITULO 2. VE´ICULOS SUBMERS´IVEIS

Figura 2.8 – Representa¸c˜ao de uma forma de recolher e analisar imagens de peixes

do campo de vis˜ao da cˆamara, por per´ıodos de tempo aleat´orios e indeterminados.

Quando tal acontece n˜ao ´e poss´ıvel saber se o peixe que reaparece ´e o mesmo que

tinha sa´ıdo do campo de vis˜ao `a uns minutos atr´as ou se ´e outro peixe, e como tal

deve-lhe atribu´ıdo um novo ID para poder ser seguido e registado o seu movimento.

O trabalho desenvolvido porSmith(2006) ´e um exemplo de um projeto cujo objetivo

´

e fazer o tracking de peixes num ambiente controlado. Neste trabalho o autor criou

um algoritmo que se baseia na subtra¸c˜ao do fundo (background subtraction). A

primeira fase da aplica¸c˜ao foi receber as frames capturadas pela cˆamara e a cada

uma destas era subtra´ıdo o fundo. A imagem de fundo consistia numa imagem do

aqu´ario sem o(s) peixe(s) em an´alise. Desta forma, ao fazer a subtra¸c˜ao de fundo, o

autor obtinha as diferen¸cas entre as imagens, sendo que na imagem de output estava

presente o peixe a detetar, mas apenas se este se movimentasse.

2.2. PROPOSTA DE UMA ARQUITETURA PARA UM VE´ICULO SUBMERS´IVEL 19

seriam o peixe, essa imagem era novamente processada. Smith (2006) aplicou um

filtro de Blobs para apenas ficar com os elementos cujo tamanho fosse superior a um

valor m´ınimo definido pelo autor. O resultado foi uma representa¸c˜ao aproximada

do peixe presente nas frames do v´ıdeo.