• Nenhum resultado encontrado

PARTE I DIALÉTICA DAS TEORIAS

1. A DINÂMICA CAPITALISTA DA PÓS-MODERNIDADE: INOVAÇÃO

1.4 Monopólio do Conhecimento e a Escalada da Apropriabilidade

A retórica e a prática liberal dos governos nos países da Tríade19 viabilizaram o processo de oligopolização de setores estratégicos, que se percebe fortemente no Setor Farmacêutico. Acabaram também por estabelecer uma

19 Tal expressão deve-se a K. Ohmae, que indica três pólos da concentração capitalista mundial, quais

sejam: os EUA, a União Européia e o Japão, que se inter-relacionam, e estabelecem associações com outros países, países da periferia (apud Chenais, 1996, 63). Neste trabalho, utilizamos a expressão países da Tríade como sinônimo de países centrais.

escalada à apropriação das inovações tecnológicas, via mecanismos institucionais diversos, particularmente o das patentes farmacêuticas, proporcionando desse modo garantias ao ciclo virtuoso do capitalismo predatório.

Segundo Santos (2004), entre os mecanismos institucionais da dinâmica capitalista relacionados à apropriação há uma crescente rigidez e padronização, referente à propriedade intelectual, de leis relacionadas ao comércio internacional, especialmente à propriedade industrial das patentes, propiciando a proteção necessária aos mercados consumidores das corporações dos países centrais.

Nesse contexto, recentemente, ao final do século passado, vários países reuniram-se, incluindo o Brasil, e aprovaram o mais importante acordo internacional referente à propriedade intelectual, especialm ente às patentes, chamado de Acordo TRIPs (Trade Related Intellectual Property Rights) integrante do próprio “Acordo Constitutivo da OMC – World Trade Organization (WTO), como seu ANEXO 1C. Tal Acordo, também reconhecido por “Ata Final da Rodada do Uruguai”, entrou em vigor em 1º de janeiro de 1995. O Brasil o assinou em 15 de abril de 1994, em Marraqueche, sendo aprovado pelo Congresso Nacional através do Decreto Legislativo n. 30, de 15 de dezembro de 1994 e promulgado pelo Decreto Presidencial n.º 1355, de 30 de dezembro de 1994. Nos países de língua latina o TRIPS é conhecido pela sigla ADPIC – “Acordo Sobre os Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados com o Comércio”20.

O Acordo TRIPS, como é mais conhecido, representou o final da “quebra de braços, travada no âmbito de discussões do GATT21. De um lado, os países centrais, liderados pelos EUA, que buscavam uma maior proteção aos direitos de propriedade intelectual, alegando o direito de monopólio como motivador da

20 Maristela Basso. O direito internacional da propriedade intelectual. São Paulo: Livrar ia do

Advogado, 2000, p.19.

21 O GATT (General Agreement on Tariffs and Trade) é o acordo de comércio internacional

surgido em 1947, junto às demais instituições de Bretton Woods, cujo objetivo, principal, é o da regulamentação das práticas de comércio int ernacional, além da repressão à concorrência desleal.

inovação e da transferência de tecnologia. De outro lado, os países em via de desenvolvimento, que repeliam a idéia de uma proteção mais rígida da propriedade intelectual, tendo em vista o comprometimento do acesso à modernização tecnológica22.

As condições de apropriação mais rígidas (normas mais rígidas), estabelecidas no TRIPS vêm assegurando o monopólio dos first-movers (os inovadores pioneiros), em regra, corporações situadas nos países desenvolvidos, que se utilizam de estratégias ofensivas de inovação. Ao contrário das co ndições mais frouxas de apropriação de outrora, que estabeleciam vantagens para os imitadores, firmas situadas em sua maioria nos países em desenvolvimento, que se aproveitavam do esforço tecnológico e científico dos inovadores ofensivos ou até mesmo dos defensivos.

Em outras palavras, antes do TRIPS, se um laboratório em país periférico resolvesse copiar um medicamento Anti-Aids patenteado, do ponto de vista do Direito Internacional não significaria qualquer infração legal, além do que havia uma legitimidade estampada, qual seja: a necessidade do atendimento à saúde nacional. Contudo, após o TRIPS essa cópia passou a ser tratada como grave infração a um acordo internacional, atentatória à ordem internacional, e à soberania do país membro que se sentisse violado nos seus direitos de propriedade intelectual.

Segue abaixo, o exemplo do caso brasileiro nessa escalada de apropriabilidade, via patenteamento, fornecidos pelo INPI, segundo tipos e origem do depositante período 1990-2004.

22 Cabe mencionar um terceiro ponto de vista defendido por outros países desenvolvidos, o

Japão e alguns membros da Comunidade Européia que destacaram a necessidade de se assegurar à proteção aos direitos de propriedade intelectual, evitando abusos no seu exercício, ou quaisquer práticas que levassem entrave ao legítimo comércio. Visto que, tais direitos de exclusividade excessivos poderiam representar uma barreira ao desenvolvimento regular do comércio, especialmente por seu uso abusivo, neste caso motivado por proteção excessiva.

TABELA 1 - PEDIDOS DE PATE NTES DE POSIT ADOS NO INPI, 1990 -2004

FONTE: INPI

A Tabela acima demonstra a superioridade patentária dos não residentes, ou seja, estrangeiros, cuja maior parte origina-se dos países da Tríade, em relação aos residentes (nacionais) de um país Periférico, neste caso o Brasil. Em 14 anos, de 1990 a 2004, os estrangeiros abocanharam uma fatia de 78,18 % (149.687), do total de patentes concedidas (191.467), enquanto os nacionais obtiveram apenas 21,82 % (41.780) das patentes concedidas.

Com efeito, nos apropriamos das considerações de Albuquerque (1998) acerca das patentes, ao afirmar que estas podem impactar a estrutura industrial de duas formas mais diretas. Em primeiro lugar, como um mecanismo de negociação estratégica de novas empresas que pretendem entrar em um mercado (e de proteção a pequenas empresas inovadoras); e em segundo lugar, ao se constituírem em uma fonte potencial de barreiras à entrada dos concorrentes.

Ressaltamos que o mecanismo das patentes serve não apenas como um excelente meio de apropriação do conhecimento tecnológico na dinâmica capitalista atual, mas, principalmente como um importante indicador para aferição do grau de concentração das inovações e do esforço ofensivo e defensivo dos países da Tríade nos países Periféricos.

Segundo Albuquerque (1999) e Santos (2004), as oportunidades tecnológicas e as condições de apropriação devem se adequar a cada paradigma. No caso específico do Setor Farmacêutico, as patentes constituem o mecanismo indicado de apropriação, tendo em vista a garantia do monopólio temporário de exploração econômica e o retorno dos “pesados”23

investimentos em P&D. Conforme Lisboa, Fiúza, Viegas e Ferraz (2001) a patente desempenha papel fundamental, particularmente na dinâmica da indústria far macêutica. Como exemplo, tais autores citam o estudo de Levin et al. (1987). Nesse estudo foram entrevistados 650 CEOs24 ligados a Pesquisa e Desenvolvimento em 130 indústrias, organizadas em diferentes setores, com o objetivo de mensurar quais eram os mais importantes mecanismos de apropriação dos resultados sobre as inovações de processos e produtos, segundo a avaliação de cada um desses CEOs. Para tal intento, foi utilizada uma escala de 1 a 7.

Ao final do estudo pelo menos dois aspectos chamaram bastant e a atenção dos pesquisadores, quais sejam:

(a) A constatação para a maioria dos CEOs, que abrangiam boa parte dos setores pesquisados, era que fatores tais como: o período anterior ao lançamento dos produtos no mercado (lead time), os rápidos ganhos de aprendizado e os

23

Angell (2007) rebate com propriedade os valores divulgados em 2001 pelo Tufts Center for the Study of

Drug Development (Centro Tufts para Estudo do Desenvolvimento de Medicamentos), referente aos

gastos em P&D da Indústria Farmacêutica para o desenvolvimento de um novo medicamento, na ordem de US$ 802 milhões. Entre os argumentos contrários ao valor absurdo para o desenvolvimento de uma nova droga, considera pelos menos três fatores: (i) o cálculo inclui apenas as novas moléculas, situação que cada vez mais é exceção no desenvolvimento de novas drogas, valendo-se da reformulação de antigas substâncias, ou novas adequações quanto ao uso, exemplo o Viagra, produto que comporta substância para problemas cardiovasculares, direcionada para o aumento da potência sexual; (ii) principalmente, porque tal valor foi calculado utilizando o chamado fator de custo capitalizado ou custos de oportunidade, que considera um rendimento estimado, caso o valor gasto em P&D fosse aplicado no mercado de ações, fator que aumenta em 100% o valor real dos gastos, e por fim (iii) por uma questão de retórica, centrada na maximização dos lucros, visto que considera-se, no Setor Fármaco, que quanto maior o investimento em P&D, maior será o retorno sobre o investimento, destarte, deve-se majorar de todas as formas os investimentos em P&D, sejam eles, reais ou não..

24

Chief Executive Officer (Chefe do sector executivo em português), mais conhecido como

CEO, é um termo anglo-saxão para designar a pessoa com a mais alta responsabilidade ou autoridade em uma organização ou corporação. Apesar de ser teoricamente possível haver mais de um CEO em uma empresa, geralmente o posto é ocupado por somente um indivíduo, temendo-se que tal compromisso crie confusão dentro da organização sobre quem tem o poder de decisão. Todos os outros executivos prestam contas ao CEO.

esforços de vendas superavam as patentes em efetividade na proteção de processos e produtos, como também, o segredo industrial protegia de maneira mais efetiva os processos, do que as patentes.

(b) E como exceção à regra, houve a constatação de que para os CEOs da Indústria Farmacêutica, as patentes apresentavam um grau de importância sui generis, alcançando assim as maiores notas, como o instrumento mais efetivo de apropriação dos resultados das inovações no setor. As notas foram maiores q ue 6. A tabela 2 apresenta a comparação da indústria farmacêutica e outros 17 setores.

TABELA 2 - E FETI VIDADE DA PROT EÇÃO PATENT ÁRI A

Fonte: Levin et al. (1987), apud Lisboa, Fiúza, Viegas e Ferraz (2001)

Mister, frisar que a efetividade das patentes de processo e de produtos no Setor Farmacêutico, como mecanismo de proteção dos resultados, é superior à média da amostra entre 40 e 51%.

Neste contexto, para explicar o alargamento das assimetrias entre os países centrais e os Periféricos, faz-se necessário compreender a interação entre pelo menos dois fatores típicos da atual dinâmica capitalista, quais sejam: o fenômeno da oligopolização setorial e os mecanismos de apropriação do conhecimento tecnológico, particularmente as patentes.

Tais fatores somam-se a um terceiro fator: a Mundialização do Capital. Esse último funciona como uma espécie de catalisador. Acelerando o processo de oligopolização e de apropriação de todo conhecimento tecnológico novo, configurando-se um movimento incessante de destruição do velho (tecnologias obsoletas) pelo novo (novas tecnologias, protegidas em sua maioria, via patenteamento de produtos, ou segredo industrial de processos), que Schumpter denominou de destruição criativa, atualmente conhecido por processo de obsolescência programada.

Entretanto, é preciso pontuar essa análise e atualizá -la. Primeiramente, pois tal movimento (destruição criativa) está concentrado nos países da Tríade, e os países Periféricos são afetados apenas por seus efeitos (em boa parte danosos e contrários aos interesses nacionais). Outrossim, no caso específico dos países pobres o novo destrói não simplesmente o velho, mas também, as possibilidades de desenvolvimento local.

Particularmente na atuação dos grandes Laboratórios Farmacêuticos nos países Periféricos, o novo (as patentes de fármacos) implica na asfixia dos necessitados (residentes nos Países Periféricos), que não tem acesso aos medicamentos de última geração, situação que preferimos denominar de apartheid sócio-tecnológico.