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3.2 Monopólio e renda

3.2.1 Monopólio informacional

Juridicamente, os DPIs são, há muito tempo, considerados monopólios. Já mencionamos que essa construção resulta do Estatuto dos Monopólios de 1623, da Inglaterra, que se espraiou por diversos sistemas jurídicos, como o do Brasil. No que tange à construção teórica do campo da economia, que o Direito assimila, as explicações do monopólio sob a perspectiva ortodoxa (neoclássica), fundamentada na lei da oferta e demanda, têm embasado as políticas acerca do tema hoje no mundo. Por outro lado, dentre as correntes heterodoxas assentadas na teoria do valor-trabalho, a economia política marxiana oferece explicações sobre o monopólio diferenciando preço, valor e mais-valor e, assim, evidenciando o aspecto da

44 Ativo intangível, como o direito de propriedade intelectual, é uma representação de patrimônio contábil que não

exploração do trabalho no desenvolvimento do capitalismo. Nessa trilha, de acordo com Dantas (2008), no capital-informação, os monopólios informacionais representados por DPIs se ancoram na exploração do trabalho informacional e se remuneram por rendas informacionais.

Procederemos à exposição da maneira neoclássica de caracterizar os DPIs como monopólios e sua crítica sob o prisma marxiano, a fim de alcançarmos, adiante, a relação dos monopólios por DPIs com o conceito de rendas informacionais.

Do ponto de vista da economia neoclássica, Mankiw (2005, p. 290) explica que há monopólio quando uma empresa figura no mercado como a única vendedora de um produto que não tem substitutos próximos. Os monopólios apresentam barreiras à entrada, isto é, barreiras à competição de outras empresas, cujas três principais origens são: i) recurso-chave exclusivo de uma única empresa, ii) concessão governamental a uma única empresa de direito exclusivo de produzir um bem ou serviço e iii) custos de produção que tornam um único produtor mais eficiente que um grande número de produtores (monopólio natural).

Ainda de acordo com Mankiw (2005), a principal diferença entre uma empresa competitiva e um monopolista é a capacidade que este tem de influenciar o preço de seu produto. Uma empresa competitiva é pequena em relação ao mercado em que opera e, portanto, toma o preço de seu produto como dado pelas condições de mercado. Em contraposição, um monopolista, como único produtor em seu mercado, pode alterar o preço de seu bem ajustando a quantidade que oferta ao mercado. Contudo, o monopolista é impedido de arbitrar o preço que desejar para seu produto por um único fator: demanda. Se possível, os monopolistas prefeririam cobrar um preço elevado e vender uma grande quantidade a esse preço. A curva de demanda do mercado, porém, estabelece uma restrição à capacidade do monopolista de lucrar com seu poder de mercado. O monopólio não tem curva de oferta porque esta informa a quantidade que a empresa decide ofertar a qualquer preço dado. Como a empresa monopolista é formadora de preço, e não tomadora, não faz sentido perguntar a quantidade que uma empresa monopolista produziria a qualquer preço porque a empresa estabelece o preço ao mesmo tempo em que escolhe a quantidade que ofertará. Por outro lado, a decisão de um monopolista sobre quanto ofertar não pode ser separada da curva de demanda com que ele se depara (MANKIW, 2005, p. 299).

Na economia contemporânea, ocorre um aumento dos monopólios por direitos de propriedade intelectual que, por sua vez, geram receitas denominadas royalties. Apesar de se fundamentar nas garantias das liberdades individuais, como o direito à livre iniciativa privada e concorrência, o Estado liberal manteve a tutela dos monopólios em forma de DPIs. A justificativa para a existência desse tipo de monopólio é que a natureza da informação e do

conhecimento – de bens não-rivais, pela teoria econômica neoclássica – faz com que eles, uma vez disponibilizados, sejam suscetíveis de imediata dispersão no mercado, o que redundaria em impedimentos à própria concorrência. O pressuposto para a existência de monopólios, portanto, é que, em um contexto de economia de mercado, a concorrência deve presidir todas as relações econômicas; e, em segundo lugar, existindo falha ou impossibilidade de correto funcionamento da livre concorrência, devem existir restrições à concorrência em que consiste a propriedade intelectual.

Como pontua Denis Borges Barbosa (2013, p. 192):

se um agente de mercado investe em um desenvolvimento de uma certa tecnologia, e esta, por suas características, importa em alto custo de desenvolvimento e facilidade de cópia, o mercado é insuficiente para garantir que se mantenha um fluxo de investimento. Com efeito, a apropriação pelo concorrente da nova solução técnica

permite que este reduza as margens de retorno do primeiro investidor. Quem não

investe aufere, assim, maior prêmio do que aquele que realiza os gastos com o desenvolvimento da tecnologia. Temos aí a imperfeição do mercado, que desfavorece a continuidade do investimento em inovação.

Para Mankiw (2005, p. 292),os DPIs são exemplos importantes de como o governo cria um monopólio, conforme ilustrado na seguinte passagem:

Quando uma companhia farmacêutica descobre um novo medicamento, pode requerer do governo uma patente. Se o governo considera que o medicamento é realmente original, a patente é aprovada, o que confere à empresa direito exclusivo de fabricação e venda do produto por 20 anos. De maneira similar, quando um autor termina de escrever um romance, pode requere o direito autoral sobre ele. O direito autoral é uma garantia do governo de que ninguém poderá imprimir e vender o livro sem a permissão do autor. O direito autoral faz do romancista um monopolista sobre a venda de seu livro. É fácil perceber os efeitos das leis de patentes e direitos autorais. Como essas leis concedem monopólio a um produtor, levam a preços mais elevados dos que os que ocorreriam se houvesse competição. Mas, ao permitir que esses produtores monopolistas cobrem preços mais altos e obtenham lucros maiores, as leis também encorajam alguns comportamentos desejáveis. Permite-se que as companhias farmacêuticas monopolizem os medicamentos que descobrem com o objetivo de incentivar a pesquisa. Permite-se que os autores monopolizem as vendas de seus livros para incentivá-los a escrever mais e melhores livros. Assim, as leis que regem patentes e direitos autorais trazem benefícios e custos. Os benefícios são um incentivo maior à atividade criativa e são compensados, em certa medida, pelos custos da formação de preços e monopólios.

Lauria, Moysés e Vieira (2013, p. 307) esclarecem que o valor do royalty depende de seus contratos de exclusividade, do grau de desenvolvimento tecnológico (laboratório, planta, protótipo, indústria), da qualidade da tecnologia que está sendo negociada, da efetividade da proteção de tecnologia, da dinâmica do mercado e da rentabilidade esperada. Levando esses fatores em conta, o capitalista investe na obtenção de DPIs para enriquecer.

Nesse sentido, vale a pena conferir com Mankiw (2005, p. 300-301) o exemplo do mercado de medicamentos, que contém as duas estruturas de mercado (competitivo e monopolista):

Quando uma empresa descobre um novo medicamento, as leis de patente lhe concedem um monopólio sobre a venda do medicamento em questão. Mas, com o tempo, a patente acaba por expirar e, a partir daí, qualquer empresa pode fabricar e vender o medicamento. Nesse momento, o mercado deixa de ser monopolista e passa a ser competitivo. (...) Durante a vigência da patente, a empresa monopolista maximiza o lucro produzindo a quantidade em que a receita marginal se iguala ao custo marginal e cobrando um preço bem superior ao custo marginal, mas, quando a patente expira, o lucro proporcionado pela produção do medicamento encoraja a entrada de novas empresas no mercado. À medida que o mercado se torna mais competitivo, o preço cai até se igualar ao custo marginal.

Em especial, a patente seria um monopólio justificável na ordem social e econômica porque precisa atender aos requisitos de temporalidade e publicidade. Ou seja, durante um certo tempo – geralmente, em torno de 20 anos45 –, só um indivíduo (pessoa ou empresa) pode explorar a patente. Além do limite de tempo, a patente precisa descrever publicamente o seu objeto – o que equivaleria à publicação do conhecimento patenteado (BARBOSA, 2013, p. 342). Esses requisitos pretendem minimizar os efeitos monopolistas do privilégio temporário concedido e contribuem para conciliar os DPIs com a economia de livre mercado. Não obstante, Macedo e Barbosa (2000) alertam que a informação técnica nem sempre é utilizada adequadamente, havendo prejuízos de comunicação mesmo para integrantes da comunidade acadêmica da área técnica do assunto em questão.

A partir de agora, vamos analisar o monopólio sob a perspectiva de categorias marxianas como valor, preço, capital e trabalho, a fim de investigarmos a relação entre a remuneração por direitos de propriedade intelectual, ou renda informacional, e um movimento de cercamento similar ao que deu azo à acumulação primitiva de capital descrita por Marx (2013), conforme a proposta deste projeto de pesquisa.

Nessa chave de abordagem, primeiramente cumpre observar que, na crítica marxiana, valor não é o mesmo que preço. O valor é unidade do valor de uso e do valor de troca. O que produz ou gera o valor é o trabalho, enquanto unidade do trabalho concreto e do trabalho abstrato. O que mede o valor da mercadoria é o quantum de trabalho abstrato medido no tempo (MARX, 2013). Trabalho humano abstrato é uma capacidade básica de trabalhar que todo ser humano possui, diferente de trabalho concreto que descreve o perfil de cada indivíduo, ou seja,

45 O acordo TRIPS, em vigor e com ampla adesão entre os países, estabelece o prazo de 20 anos para uma patente

a sua capacidade de trabalhar considerando também a sua formação, experiência, inclusive condições físicas específicas. O tempo de trabalho social médio é uma medida de valor. Ou seja, o conteúdo do valor é o trabalho; sua forma ou medida, o tempo de trabalho.

Afirma Marx (2013, p. 117):

O trabalho que constitui a substância dos valores é trabalho humano igual, dispêndio da mesma força de trabalho humana. A força de trabalho conjunta da sociedade, que se apresenta nos valores do mundo das mercadorias, vale aqui como uma única força de trabalho humana, embora consista em inumeráveis forças de trabalho individuais. Cada uma dessas forças de trabalho individuais é a mesma força de trabalho humano que a outra, na medida em que possui o caráter de uma força de trabalho social média e atua como tal; portanto, na medida em que, para a produção de uma mercadoria, ela só precisa do tempo de trabalho em média necessário ou tempo de trabalho

socialmente necessário.46

A consideração da força de trabalho conjunta da sociedade implica uma invocação tácita de um mercado mundial que foi introduzido pelo modo de produção capitalista. Trata-se de um conjunto global de relações. A medida do valor é derivada desse mundo inteiro de trabalho humano, sendo otempo de trabalho socialmente necessário para a produção de mercadorias (HARVEY, 2013, p. 32). O valor não é o preço da etiqueta da mercadoria. Preço é tão somente a quantidade de dinheiro arbitrada para a troca da mercadoria oferecida no mercado.

A mercadoria serve de suporte ao trabalho humano incorporado em sua produção. É como se o trabalho humano ficasse gravado ou, como se referia Marx, congelado na mercadoria. Assim, a mercadoria, além de átomos, moléculas etc., também contém trabalho humano. Através das mercadorias os seres humanos se relacionam no capitalismo. Nossa relação social com as atividades laborais dos outros é dissimulada em relações entre coisas – é o que Marx (2013, p. 146) chama de fetichismo.

A força de trabalho é a única mercadoria que tem a capacidade de criar valor porque somente o processo de trabalho vivo – isto é, o trabalho realizado por seres humanos, e não por máquinas – conta com o plano mental humano em ação. O trabalho é um processo inerente ao metabolismo entre o ser humano e a natureza que transforma uma coisa em outra coisa, anulando um valor de uso existente e criando um valor de uso alternativo. Na medida em que essa atividade só pode ser realizada por um ser humano para a obtenção do resultado esperado, significa que esse ser humano transfere, de alguma forma, um conteúdo do seu desenvolvimento mental para aquela coisa que, assim, se transforma. Como valor é tempo de trabalho socialmente necessário, logicamente o tempo é fundamental para a extração de mais-valor. A

46 Cabe notar que esse conceito de Marx se refere a um processo produtivo ainda fortemente empírico. Ele mesmo

vai intuir (embora não tenha desenvolvido) que o progresso social e técnico levaria ao "general intellect" ou uma

jornada de trabalho será estendida ao máximo pelo detentor dos meios de produção: desse modo, o trabalhador pagará seu próprio salário, repondo suas necessidades, e ainda gerará um valor suplementar – mais-valor – destinado à acumulação de capital. A taxa de mais-valor mostra em que proporção o trabalho despendido pelo operário divide-se em trabalho necessário e trabalho suplementar, ou, em outras palavras, que parte do dia de trabalho o proletário gasta na reposição do valor de sua força de trabalho e que parte do dia de trabalho ele trabalha de graça para o capitalista. Essa exploração da força de trabalho é chamada por Marx de extração de mais-valor absoluto. Para acumular mais, o capitalista acaba introduzindo tecnologia em substituição da força de trabalho. Neste caso, o valor excedente é chamado de mais-valor relativo.

A tendência de incorporação de tecnologias ao processo de trabalho se combinaria com a formação dos monopólios: pela concorrência, entre os vários produtores capitalistas, os mais hábeis no mercado procuram atrair ao máximo a demanda, a ponto de esse movimento acarretar a eliminação dos que ofertam seus produtos no mercado de forma menos hábil. Assim denominadas por Marx, as "leis coercitivas da concorrência" conduzem à formação de um lucro extra ou sobrelucro.

O lucro extra corresponde a um mais-valor que excede o mais-valor normal da produção capitalista. Ele acontece assim: existe um preço de produção de mercado "x" atribuído a determinada mercadoria. Olhando para essa relação social, um capitalista individual embute em sua produção alguma tecnologia que seus concorrentes não têm, e que vai reduzir seu custo de produção da mercadoria. Então, embora o capitalista tenha uma vantagem individual, o preço que lhe será pago é o preço de mercado, que é maior do que o preço individual de sua produção. Esse lucro excedente resultante é o que Marx chama de sobrelucro ou lucro extra. Daí o esforço capitalista permanente de redução de custos pela introdução de tecnologia no processo produtivo, já que o trabalho vivo tem limites do próprio corpo humano que a máquina, muitas vezes, é capaz de superar – não necessariamente as máquinas têm de parar para “descansar” por uma parte considerável do limite das 24 horas do dia. Deixando de contratar força de trabalho ao introduzir máquinas em substituição, o capitalista consegue enxugar custos, ou aumentar seu lucro. Porém, por não efetuarem trabalho vivo, as máquinas não criam valor, somente mais-valor relativo.

Se uma unidade de capital – uma firma – logra introduzir uma inovação, ela poderá praticar um sobrepreço até que seus concorrentes, também absorvendo o mesmo conhecimento, voltem a equalizar as condições gerais de realização do mais-valor. Portanto, aí existe uma vantagem competitiva inicial, mas não existe realmente monopólio, pois não está dado, a princípio, que a concorrência não consiga acompanhar aquela inovação. Para que o monopólio

se instale, a tutela estatal dos DPIs, garantindo exclusividade de um ente sobre a exploração comercial da inovação, tem sido crucial. Desse modo, os DPIs compatibilizam o avanço da acumulação de capital com as tendências do capitalismo de concentração e centralização descritas por Marx.

A concentração de capital é um processo em que capitalistas individualmente acumulam, de forma a aumentar também a quantidade de capital controlada por eles isoladamente, possibilitando uma escala de produção maior. A centralização difere da concentração porque não se refere a empresas controladas por um indivíduo, mas à associação dessas (MARX, 2013, p. 701). Com a intensificação da centralização, a partir do final do século XIX, trabalhos de Hilferding (1985[1910), Lênin (2011[1917]) e Baran e Sweezy (1966) vieram a analisar a tendência da centralização do capital agenciada pela própria concorrência47 e pelo sistema de crédito.

A aglutinação de capitais em termos de centralização ocorre frequentemente por meio de sociedades anônimas que, no capital-informação, se apresentam como corporações-rede (DANTAS, 1999). Essas sociedades são formas jurídicas de empresas cujo vínculo entre os sócios é impessoal, sendo livremente negociáveis suas ações, que são os títulos de crédito representativos da participação societária no mercado financeiro48 (COELHO, 1997, p. 162).

Em face das mudanças observadas no capital-informação, sugerimos integrar os monopólios informacionais ao rol dos instrumentos de centralização do capital, junto das corporações-rede e da financeirização da economia.

Os DPIs contribuiriam para a centralização porque, obtidos em grande volume por corporações-rede, impedem juridicamente a exploração comercial do seu respectivo conteúdo informacional por suas concorrentes e, desse modo, embasam a extração das rendas informacionais. Em contexto de capital globalizado, a situação se agrava porque o predomínio da propriedade intelectual nos países de origem das grandes corporações se traduz em uma dominação de territórios econômicos (FARIA, 2012, p. 16).

Como monopólios informacionais, os DPIs seriam mecanismos de cercamento do conhecimento, em uma espécie de reedição do cercamento da terra ocorrido na acumulação

47 Ironicamente, a concorrência promove a centralização na medida em que os competidores buscam estabelecer

vantagens competitivas sobre os outros e, assim, enfraquecer a própria concorrência. O acúmulo de vantagens acaba gerando barreiras à entrada e, portanto, monopólio.

48 Hilferding (1910) observou que somente por meio do mercado de ações o capitalista logrou a independência do

destino da empresa em que investiu seu dinheiro. Quanto mais perfeito for o mercado de ações, tanto mais o acionista se parece com um investidor ofertante de empréstimos, que logo recupera seu dinheiro com vantajosas remunerações. Com o advento das sociedades anônimas, segundo o autor, ficou completa a transformação do

primitiva de capital (BOYLE, 2003), que permitiu, depois, a extração das rendas da terra. Mas seria possível equiparar a terra ao conhecimento para validar a analogia do cercamento e as subsequentes rendas informacionais? É o que tencionamos responder a seguir.