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2. FOME: NECESSIDADE DE MAIS ALIMENTOS OU UMA CRISE ÉTICA

2.2 CONSUMIDORES: ACESSO POR MEIO DE RENDA

2.2.1 DESENVOLVIMENTO DO COMÉRCIO E DOS MERCADOS

2.2.1.2. MONOPÓLIOS ALIMENTARES E LIBERDADE DE ESCOLHA

Limitar a concorrência tem sido sinalizado, desde Adam Smith, como um ato

verdadeiramente ineficiente:

Sem embargo, o interesse dos comerciantes de qualquer ramo do comércio ou das manufaturas sempre é, em alguns aspectos, diferente e inclusive oposto, ao interesse público. O interesse dos comerciantes é expandir o mercado e reduzir a concorrência. A expansão do mercado coincide bastante com o interesse público, mas a redução da concorrência é sempre contrária a este interesse e não pode servir mais que aos comerciantes (SEN, 1999, p.156).

No entanto, assistimos hoje a uma concentração tão importante no sistema alimentar

que as duzentas primeiras sociedades agroalimentares controlam aproximadamente

um quarto dos recursos produtivos mundiais. Estas empresas dispõem de recursos

financeiros superiores a muitos dos países nas que estão implantadas. Elas exercem

um monopólio de fato no complexo alimentar, da produção à distribuição, passando

pela transformação e comercialização de produtos. O seu peso é tão importante que

influenciam mesmo nas decisões do governo. O efeito desse poder tem sido, muitas

vezes, a restrição da escolha dos agricultores e consumidores. Adicionalmente, o

controle crescente das corporações transnacionais nos setores da produção e do

comércio alimentar internacional, tem repercussões consideráveis no exercício do

direito à alimentação.

Por exemplo, dez empresas – entre as quais Aventis, Monsanto, Pioneer e Syngenta

– controlam um terço do mercado de sementes e 80% do mercado de pesticidas.

Outras dez empresas, entre elas Cargill, controla 57% das vendas dos trinta

primeiros maiores varejistas do mundo e representam 37% das receitas das cem

maiores empresas produtoras de alimentos e bebidas. 77% do mercado dos

fertilizantes é controlado por 6 empresas: Bayer, Syngenta, BASF, Cargill, Du Pont e

Monsanto. Em certos setores da transformação e comercialização de produtos

agrícolas, mais de 80% do comércio do produto agrícola se encontra nas mãos de

alguns oligopólios (ZIEGLER, 2011, pp.170-171). Os quatro maiores traders de

coletivamente conhecidos como ABCD – controlam 90% do comércio global de

grãos (OXFAM, 2014, p.37).

Figura 4- Maiores empresas produtoras de alimentos e bebidas

Fonte: Oxfam, 2013, p.5

Lappé denunciava como um dos efeitos dos monopólios o preço exercido sobre o

consumidor. De acordo com a autora, no ano 1970 os monopólios causaram

sobrecustos para os consumidores americanos em um valor estimado de 20 bilhões

de dólares. Lappé pontua ainda que esta situação deveria ser controlada pelo

departamento de Justiça e a Comissão Federal pelo comércio, porém o orçamento

destas duas instituições juntas era de 20 milhões de dólares, valor equivalente ao

orçamento que uma empresa pode usar para o lançamento de um só produto (1991,

p.142).

Observemos que Ellul advertia que as necessidades especiais de cada progresso

técnico excluíam a liberdade econômica e a liberdade de mercado. Conforme

exposto no capítulo um, o setor agrícola americano precisou de políticas públicas

americanas para subsidiar a produção de commodities, que levaram a uma forte

concentração. Sob este cenário surge o denominado treadmill, que força os

agricultores à adoção de novas tecnologias, o que pode se encaixar no que Ellul

afirma com relação à falta de liberdade econômica do produtor, que deve continuar a

investir para poder continuar no mercado.

Atentemos que, de acordo com Ellul o que rompe o equilíbrio não é o volume de

uma empresa, mas o progresso técnico, pelo fato de que a partir do momento em

que uma empresa utiliza novos processos são necessários novos métodos

publicitários para influir no público, novas máquinas que elevam o rendimento e

reduzem o preço de custo. A organização deve aumentar o rendimento do trabalho,

precisando de meios financeiros que assegurem maior estabilidade. Todos esses

elementos técnicos dão à empresa tal vantagem em relação às demais que a

conduzem, seja a eliminá-las, seja a absorvê-las (1968, pp.208-209). Fusões e

aquisições são as transações mais comuns no mercado financeiro, beneficiando a

criação e o fortalecimento de monopólios.

Como é lógico, as empresas que conseguem resistir, ganham peso e poder, o que

as leva a influenciar nos governos. No seu livro Dieta para um pequeno planeta,

publicado em 1971, Francis Moore Lappé sinalizava o fato dos grandes traders dos

EUA terem um grande poder de influência no governo ganhando, entre outros

benefícios, acesso ao apoio fiscal. O fortalecimento nos mercados internacionais de

muitas empresas americanas se deu, em grande medida, ao financiamento do

USDA através do Serviço de Agricultura Estrangeira, permitindo expandir os

mercados e levar o sistema alimentar americano a outros países. Vale a pena

lembrar que a necessidade de outros mercados era uma necessidade do governo

também, pelo fato de que as políticas dirigidas à agricultura tinham provocado

sobreprodução, necessitando de mercados para escoar estes produtos (1991, p.47).

Lappé expõe claramente como foram criados mercados para escoar essa

sobreprodução. Um dos mercados citados pela autora foi a produção de gado

confinado. De acordo Lappé, já em 1985 o gado consome a metade dos grãos

produzidos no mundo. A exportação da sobreprodução foi uma estratégia visada

pelo governo, sendo que resultava também desejável exportar os hábitos de

consumo americanos, notavelmente mais consumo de carne (1991, p.89).

Assim, desde início dos anos 1950 a ajuda oficial tinha como objetivo desenvolver

mercados comerciais. Os oficiais americanos tinham compreendido que esta poderia

ser um pé de entrada para mudar paladares de nações necessitadas. Podemos

considerar que os resultados demostram o sucesso da ação. Depois da ajuda, os

países se tornaram dependentes do sistema americano, sendo que ainda continuam

importando certas commodities, devido ao fato de que a ajuda, muitas vezes,

desarticulou as já frágeis agriculturas dos países em desenvolvimento.

Parte dos programas desenvolvidos pela cooperação americana consistia em

empréstimos feitos em moeda local. Estes foram usados para pagar a ajuda

alimentar fornecida aos países a uma baixa taxa de interesse, os quais deviam

pagar as corporações americanas. Desta forma, mais de 400 corporações foram

beneficiadas. Algumas empresas, como a Cargill e a Purina, puderam instalar suas

operações de fornecimento de grãos para criação de gado e frangos em outros

países, visando instaurar ao mesmo tempo o regime de consumo de carne dos

consumidores americanos (LAPPÉ, 1991, p.92).

Em benefício das empresas também, o Foreing Agricultural Service (FAS), do

departamento de Agricultura, oferecia para as indústrias serviços que incluíam

inteligência de mercados, serviços de comércio e promoção de produtos. Estes

serviços incluíam aulas para ensinar nas escolas como cozinhar com trigo nos

países onde este não é um alimento tradicional. Foram assim moldados paladares,

fazendo com que outros consumidores dependessem de produtos que antes não

tinham utilizado (LAPPÉ, 1991, p.93).

Sob o cenário apresentado anteriormente, como poderia o consumidor beneficiar-se

com os produtos homogeneizados dos monopólios alimentares que tem conquistado

o mercado globalizado? As economias de escala que produzem produtos

alimentares baratos estão beneficiando a população, estão permitindo garantir a

segurança alimentar?

2.2.1.3.COMIDA BARATA

Se pensamos na capacidade de ficarmos livre da fome, a comida barata poderia ser

parte da solução. Amartya Sen sinaliza a importância das conexões entre os

diferentes tipos de liberdade. Assim, se pensamos no mercado laboral, este resulta

fundamental para que a renda possa garantir o acesso a alimentos. Renda baixa

precisa de alimento barato. Que tipo de alimento é suficientemente barato para que

um salário não justo permita adquirir alimentos? Sabemos que a opção das políticas

americanas era diminuir custos de produção dos alimentos. Agora, se faz importante

compreender isto a partir do ponto de vista da segurança alimentar, que visa, além

da quantidade, a qualidade e outras variáveis importantes, como a cultura e a saúde,

entre outras. Como a opção pela quantidade e custo baixo está afetando a

população?

Desta forma, as assimetrias entre renda e preços dos alimentos somam-se às

fragmentações e subversões de práticas e hábitos alimentares tradicionais em nome

de uma dieta padronizada. Assistimos à irrupção de novas doenças e agravos de

saúde relacionados, em parte, à inadequação dos alimentos consumidos (CAMPOS,

2014, p.172). Em causa, a maioria dos alimentos disponíveis e de fácil acesso são

baratos, porém altamente calóricos e com baixo conteúdo nutricional.

Sabemos que as grandes empresas agroalimentares controlam, cada vez mais, os

processos de produção e distribuição de alimentos. Para a dieta standard, os

supermercados são, por excelência, os canais onde os consumidores compram seus

alimentos. De acordo com o escritor norte-americano Michel Pollan, a partir dos anos

60 o supermercado se converteu no local onde é realizada a maior parte das

compras de produtos (2008, p.14). Grande parte de alimentos dos supermercados

são altamente processados, o que leva o autor a sublinhar que verdadeiros

alimentos têm desaparecido das prateleiras para serem substituídos por uma