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Esquema 1 – Mapa da pesquisa

3 LUGARIDADES DE BRASILEIROS NO HAITI E NO BRASIL: A

3.3 MONTANDO O ACAMPAMENTO NO ACRE: BRASILEIA E A

“Eles chegam aqui e ficam olhando e dizem: eu vi isso lá no Haiti”. (João, Brasileia-AC)

Como vimos na narrativa de Sérgio, a inclusão do Brasil como destino é um aspecto que envolve diferentes fatores. Evidentemente, a presença militar no Haiti desde 2004, a obra de missionários brasileiros, os rumores de uma economia que parecia emergir num cenário nebuloso mundial, a realização de grandes empreendimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), os acordos pelos quais já se traziam estudantes haitianos

para estudar no Brasil, o endurecimento de restrições e a criminalização de imigrantes nos países de destino tradicionais, entre outros, influenciaram a inclusão de um país afastado das antigas rotas. Em muitos casos, porém, a rota final não era o Brasil: há relatos de que alguns emigraram na perspectiva de fazer uma escala no país para se preparar (estudar/legalizar) a fim de partir, posteriormente, para suas rotas tradicionais (especialmente Estados Unidos e Canadá) ou para outros países da América Latina.

É como disse Silva (2012): “[...] o Brasil já fazia parte da recente história haitiana e a vinda deles seria só uma questão de tempo [...]” (p. 303). Como a emissão de visto deveria ser realizada ainda no Haiti e não atendia ao número dos que queriam emigrar, iniciou-se um caminho doloroso e perigoso: as rotas clandestinas gerenciadas por agenciadores, os chamados “coiotes”50

.

De acordo com a pesquisa que realizamos, as principais rotas de entrada dos haitianos que passaram por Rondônia ou que estão lá são as rotas de entrada pelo Acre (por Assis Brasil, mas sobretudo por Brasileia) e pelo Amazonas (Tabatinga), sendo a principal delas a entrada via Brasileia.

Por esse motivo realizamos o trabalho de campo no município de Brasileia e em Rio Branco, no Acre, em 2013. Nessa oportunidade, conhecemos o acampamento no qual os haitianos ficavam alojados em Brasileia e também conversamos com pesquisadores em Rio Branco que estudam essa rota migratória, bem como com o especialista em situações de emergências que acompanha a situação humanitária local.

Apresentaremos a entrevista que realizamos com o coordenador do abrigo no qual os haitianos ficavam alojados em Brasileia. Assim como com a irmã Santina, tivemos com ele um único encontro, acompanhando um dia seu de trabalho no abrigo e gravando nosso diálogo com sua autorização. Aqui o chamaremos de João.

Também abordaremos temáticas discutidas pelas pesquisadoras Letícia Mamed e Eurenice Oliveira de Lima, do Grupo de Pesquisa Mundos do Trabalho na Amazônia (Universidade Federal do Acre - UFAC), e do professor Foster Brown, com os quais conversei durante o trabalho de campo no Acre. Refletiremos sobre as temáticas levantadas por eles a partir de suas publicações.

Além da entrevista e do diálogo com outros pesquisadores, nosso trabalho de campo no Acre consistiu em dialogar com alguns haitianos que aguardavam durante o trâmite para

50

É um termo da zoologia que designa um mamífero carnívoro da América, semelhante ao lobo e ao chacal. É utilizado para fazer referência aos agenciadores que cobram altos valores para levar os imigrantes ao seu destino, geralmente sem nenhuma preocupação com a vida e a segurança deles (dos imigrantes).

a carteira de trabalho, alguns que haviam acabado de chegar de táxi de Assis Brasil (fronteira com Iñapari, Peru) e outros que lá estavam aguardando os documentos ou do ônibus que os levaria para trabalhar em outro estado, geralmente da região Sul.

Para o meu espanto, muitos deles não falavam espanhol. Digo “espanto” porque acreditava que esse era um aspecto que nos ajudaria a dialogar, facilitado pela proximidade do Haiti com a República Dominicana. Foi quando analisei também que ali em Brasileia, fronteira com a Bolívia, nós brasileiros, também não aprendemos a falar espanhol. Nesse contato, que mais parecia uma torre de babel, misturamos os idiomas que conseguimos (francês, inglês, espanhol, portunhol, kreyol, criolês-francês/crioulo), conforme o domínio linguístico de cada um.

Pensei nas dificuldades que eles enfrentariam no trabalho e na vida cotidiana aqui no Brasil e, a partir daqueles dias, passei a refletir sobre o quanto a simples abertura das fronteiras não tem nada de “humanitário” e o quanto as pessoas daquele lugar (Acre) estavam sozinhas para lidar com uma situação tão complexa. Provavelmente, a visibilidade para o país da abertura desumana de nossas fronteiras ocorreu somente quando o governo do Acre passou a financiar a ida de grandes grupos de imigrantes para São Paulo.

João nos contou que, antes da existência do abrigo, ele morou dez anos no Peru, voltando para sua cidade natal Brasileia, onde trabalhou durante outros quase dez anos na área de esportes.

Foi quando começou as questões migratórias de haitianos em dezembro de 2010 em Brasileia. Quando foi em janeiro de 2011, a Secretaria de Direitos Humanos conversou com a Secretaria de Esportes para que eu pudesse ajudar por 20 dias porque todo o pessoal do governo e da Secretaria, todos achavam que aquilo era passageiro. E aí, eu comecei, em janeiro de 2011 para ficar 20 dias. Já foi para 3 anos. São 3 anos sem tirar férias de 12 a 14 horas por dia com eles. (grifo nosso).

A visão de que o primeiro fluxo migratório dos haitianos seria único nos faz pensar sobre as dificuldades ou ausência de comunicação entre os órgãos governamentais e entre estes e as agências externas. De acordo com João, somente nos últimos seis meses dos três anos que trabalhou no abrigo, à época da entrevista, é que foi disponibilizada uma equipe para atuar no acolhimento aos imigrantes.

Segundo João,

[...] em 2010 chegou um grupo de 37 haitianos; quando foi em janeiro de 2011, chegaram 1.175 pessoas no ano inteiro; quando foi em 2012, foram 2.200 e um quebradinho, o ano inteiro também. Quando foi da metade de 2011 para cá, começaram a chegar os migrantes não haitianos. São de 17 nacionalidades

diferentes: Senegal, África do Sul, Nigéria, Libéria, Bangladesh, Tanzânia, Camarões, Zimbábue, República Dominicana, Colômbia, Equador, todo mundo passou aqui... não tem sido fácil. Por outro lado, mesmo com toda a dificuldade, é gratificante porque você está entendendo que está tentando ajudar alguém.

Desse modo, menos de um ano depois do início do fluxo haitiano, teve início o fluxo de outros imigrantes, sobretudo africanos.

No momento de nossa ida ao Acre, em dezembro de 2013, a chegada de imigrantes de diferentes nacionalidades era constante. João disse: “é chegando táxi toda hora. Cento e trinta e quatro (134) já chegaram hoje”. E ainda estávamos no período da manhã. De fato, a todo momento paravam táxis em frente ao acampamento e saíam dele de três a cinco imigrantes.

O cadastro era realizado em uma espécie de trailer no qual alguns funcionários faziam perguntas e preenchiam um formulário. Ali também se manifestava a dificuldade de compreensão linguística entre haitianos e brasileiros, sobretudo quando se pretendia falar além das perguntas prontas. Pelas informações que eles nos passaram, a situação já tinha melhorado bastante desde que começara o fluxo, pois alguns termos do questionário já eram conhecidos pelos funcionários em crioulo.

A crítica de João se refere ao governo federal, que, adotando o discurso da dimensão humanitária, autorizou a entrada no Brasil do fluxo haitiano indocumentado, deixando a cargo da própria localidade o trabalho não apenas de fornecimento de documentação válida em território nacional, mas de acolhimento, sendo que os estados não tinham estrutura e nem articulação entre eles.

Enquanto isso, o governo federal criava medidas emergenciais, propondo “brechas” na lei de migração a fim de criar um lugar “humanitário” destinado especificamente ao fluxo haitiano, ainda que o país já estivesse recebendo fluxos de outras nacionalidades. Evidentemente, tal distinção não foi bem recebida não somente entre os imigrantes, mas entre as pessoas que lidavam diretamente com eles, pois ficavam numa posição na qual não tinham amparo legal, informações ou orientações para lidar com a situação.

Acreditamos que esse seja um dos motivos que suscitaram visões negativas sobre o imigrante haitiano, pois se criou uma ideia de que eles estavam sendo privilegiados em detrimento de outros imigrantes na mesma condição, e qualquer postura de contestação de algum imigrante haitiano era percebida como “ingratidão” ou “falta de consciência”. João nos disse que “[...] o haitiano é diferente de todas as pessoas que eu conheci. Eles têm umas

coisas que não me agradam muito. A falta de consciência, a não gratidão, mas a gente tem que entender esse lado porque o haitiano só convivendo mesmo para conhecer.”

Os demais fluxos, iniciados a partir do fluxo haitiano do final de 2010 e início de 2011, foram mais fortemente influenciados pelos rumores de facilidade na concessão da documentação do que pelos comentários sobre as supostas “maravilhas” que o país estaria a oferecer. Para Damião, a documentação é a grande oportunidade do Brasil para os imigrantes. “Nenhum país do mundo faz o que o Brasil faz para vocês. Qualquer país do mundo que vocês chegam, eles tratam vocês de costa e não dá o documento. Aqui vocês

chegam num dia, no outro dia já tem o documento.” (grifo nosso).

O início da vinda de imigrantes mais velhos, cuja colocação no mercado de trabalho é sabidamente mais difícil, pode ser uma expressão desse olhar do país documentador.

[...] ontem eu consegui, depois de 2 meses de luta, fazer com que uma empresa levasse um senhor de 58 anos de idade. A empresa vai levar para ele fazer limpeza, aquelas coisas, porque não eleva o salário por produção. Eu tenho 54 anos de idade... isso é uma questão humana. (grifo nosso).

Mamed (2014) afirma que o perfil do estrangeiro selecionado pelas empresas é específico: homem, jovem, saudável, solteiro, sem filhos, com algum tipo de experiência profissional ou escolarização.

Para João, o aumento da chegada de imigrantes “muitos velhos e analfabetos” dificulta a contratação, pois “as empresas não contratam de 45 anos pra frente.” (grifo nosso). Além disso, ele destaca a vinda de pessoas com problemas mentais, cardíacos, quase todo tipo de doença, “e aí eles ficam jogados porque uma coisa é tu vir, outra é tu voltar.” (grifo nosso). Sem dúvida, o trabalho realizado em Brasileia de mediação com as empresas contribuiu para que muitos haitianos já fossem contratados para as diferentes cidades brasileiras.

Entretanto, o pouco ou nenhum domínio da língua e do modo de vida dos brasileiros dificulta o processo de adaptação no trabalho. “Você está estudando em Curitiba, se você andar lá em Curitiba, você vai ver haitiano no meio da rua porque ele não conseguiu se

estabilizar no emprego.” (grifo nosso).

As empresas que buscavam a mão de obra de imigrantes em Brasileia, geralmente estavam localizadas na região Sul do Brasil.

Tá muito lá para o Sul. De cada dez, cinco vai para lá por conta porque já tem lá um primo, um amigo, um irmão e vai sozinho. E os outros cinco ficam aqui

esperando as empresas. Desses cinco que vão pelas empresas, a metade deixa o emprego entre 30 e 60 dias. Se ele vai para o Rio Grande do Sul e tem alguém lá em Santa Catarina que chama, ele deixa o emprego e vai para lá. Vai chegar o momento que eles vão entender que as coisas não são da maneira deles. (grifo nosso).

Segundo Mamed e Lima (apud XIMENES; ALMEIDA, 2014), o instrumento mais utilizado é o do contrato de experiência, quando o empregador, antes de um firmar um vínculo definitivo com o empregado, avalia-o por um período máximo de 45 dias, renovável por igual período. Ao final, dependendo do caso, o empregador efetiva ou dispensa o empregado.

Para Mamed (2014), as empresas da “construção civil, metalúrgicas, têxteis e, principalmente, da agroindústria da carne, estabelecidas nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul” são as que mais contrataram imigrantes que entraram pelo Acre.

A maioria dos estrangeiros que passa pelo Acre, de acordo com o estudo do Grupo de Pesquisa Mundos do Trabalho na Amazônia, é formada por haitianos homens (cerca de 80%), jovens ou adultos, de 20 a 40 anos, embora também haja pessoas de mais de 40 anos e menores de 18 anos. Entretanto, um novo perfil de imigrantes é representado especialmente por aqueles nascidos no continente africano. A partir de 2013, houve considerável crescimento no número de senegaleses, o segundo maior grupo de estrangeiros presentes no Acre. As mulheres acompanhadas de crianças buscam, em sua maioria, ir à cidade na qual estão os pais (XIMENES; ALMEIDA, 2014).

Outra questão pontuada por João é a alta expectativa salarial com que os haitianos chegaram ao Brasil. “Botaram na cabeça deles que aqui no Brasil se ganha em dólar, mil reais e não igual a mil dólares, não é verdade” (grifo nosso). Em outro momento, João nos disse que os haitianos “acham que vão chegar aqui e vão encontrar um paraíso” (grifo nosso). Como o Haiti é um país dolarizado, acreditamos que as redes de tráfico desses imigrantes, aproveitando-se da situação, disseminaram tal falácia. João considera que os haitianos “não têm paciência” para aguardar o visto ser liberado no Haiti e se submetem aos coiotes. “Eles preferem vir gastando mil ou dois mil dólares nas mãos dos coiotes e da

polícia peruana” (grifo nosso).

Póvoa Neto (2012) alerta para a rejeição que os imigrantes sofrem nas sociedades escolhidas em decorrência da ilegalidade de redes de contrabando e de tráfico de pessoas. Grande parte dessa rejeição se dá pelas próprias expectativas com que os imigrantes chegam ao país: ao nosso ver, para população local, essas expectativas traduziriam um sentimento dos imigrantes de que eles “merecem” receber mais do que os locais.

Um caminho para deter a ação dos coiotes e minimizar as dificuldades enfrentadas na acolhida dos imigrantes é proposto por João: “Eu acho que o Brasil deveria fazer lá no Haiti: ‘olha, só vai vir com visto de trabalho’, e conversasse com Peru, Bolívia e Equador que

não deixasse passar quem não tivesse visto de trabalho.” (grifo nosso). E acrescenta:

“para mim, o imigrante só deveria pegar o documento depois que ficava uns 10 ou 20

dias estudando português e um pouco da cultura, porque do jeito que está é muito

estranho. Eu acho que o Brasil está fazendo certo da maneira errada” (grifo nosso).

Para João, uma das dificuldades da inserção dos haitianos no mercado de trabalho é que “50% dos haitianos não têm hábito de trabalhar [...]. Eles foram trabalhar, não se

adaptaram, largaram o emprego e não conseguem outro. Então, todo dia eu falo a

mesma coisa para eles. Todo dia, porque todo dia nós estamos com um público diferente” (grifo nosso). A questão não é o hábito de trabalhar. A realidade é que no Haiti há muito trabalho, mas não emprego. O trabalho autônomo é regra, e o emprego assalariado é a exceção.

João compreende que houve uma mudança no objetivo dos imigrantes desde 2011. A migração laboral foi dando espaço para a migração para estudo, e isso, em sua opinião, dificultou a inserção no mercado de trabalho. Um dos motivos seria o aumento da exigência dos imigrantes em coerência com o novo motivo para emigrar.

Em 2011, as pessoas que vieram tinham a ver com o terremoto, então vieram com intenção de trabalhar, mas da metade de 2012 pra cá, nada a ver. Muita gente veio atrás de pegar cidadania, achando que vai para a Europa ou, então, vem estudar aqui, acha que vai conseguir estudar aqui e, com isso, estão atrapalhando aqueles que vieram para trabalhar. As empresas de construção civil já pararam de vir buscar. Estão vindo mais abatedores de carne suína e bovina porque é mão de obra mais difícil pra lá. Mas as outras é muito difícil vir buscar agora. (grifo nosso).

Outra dificuldade na chegada a Brasileia tem a ver com a alimentação e os costumes. Percebemos que, ainda que no abrigo houvesse imigrantes de diferentes nacionalidades (africanos e caribenhos, sobretudo), todos estavam sendo agrupados sob o rótulo genérico de “africanos”.

Só o governo do Acre já gastou de alimentação mais de 6 milhões de reais em alimentação. Tem café, almoço e janta. Mesmo ganhando a comida, ainda joga no mato. Pega a comida e diz assim: ‘Não gosto’ e joga no mato. ‘Não gosto do tempero’. Tá bem, mas o Brasil não foi te convidar pra tu vir pra cá. Cada país tem seu tempero. Eu morei 10 anos no Peru e não gostava do tempero. Bom, mas o Peru não me convidou para ir pra lá. Eu tive que comer. Quando eu tô na minha e eu não gosto da comida, eu reclamo porque eu paguei, eu ajudo. Mas, se tu me der, eu não

tenho que reclamar. Eu não como, mas também não jogo a comida no mato. O grande problema da população é que eles urinam em qualquer canto. Se deixar, defecam em qualquer canto. A população local não tem esse costume. Isso é costume de africano, é diferente do nosso.[...]. Com isso é que a população tá irritada. Aí que entra o curso que eu falei para saber que há culturas diferentes, saber que cada país tem o seu pensamento. (grifo nosso).

Assim como a comida, a água também é um tema citado por João.

Eles dizem que a nossa água não presta porque a nossa água tem muito cloro e parece que no Haiti eles não usam muito cloro. Aqui tem água para tomar banho, tem tudo. Aqui água é direto, uma bomba ligada no poço 24h direto. Mas eles não se ajudam. (grifo nosso).

Voltaremos a essa questão quando tratarmos das entrevistas dos haitianos no próximo capítulo, sobretudo daqueles que passaram por Brasileia. Por enquanto, é importante destacar que o abrigo, na prática, era um grande acompanhamento coberto e aberto nas laterais, com uma infraestrutura extremamente inadequada para as 870 pessoas que lá estavam durante nossa visita e que chegou a abrigar um número muito maior, pois, conforme nos disse João, “quando vem chegando o fim do ano, eles vêm de muitos porque eles acham que a fronteira

vai fechar.”

Andando pelo acampamento e pela pequena cidade, eu pensava: o que faríamos nós, brasileiros, se estivéssemos nesse lugar? Será que aqueles poucos banheiros seriam suficientes para quase mil pessoas por dia, de diferentes países? Será que conseguiríamos aguardar quietinhos nas filas do almoço? Volto ao conceito de alteridade em Lévinas. A alteridade não é estar no lugar do outro, mas reconhecer que não somos o outro e que, ainda assim ou por isso mesmo, somos capazes de olhar seu rosto.

A participação das mulheres no fluxo migratório também é destacada por João:

De cada 10 que chega aqui, 15% é mulher, o resto tudo é homem. Na grande maioria elas, vêm sós. Deixa o marido lá e vem sozinha porque a mulher haitiana se tornou muito independente. Ela não tem costume de trabalhar na casa de família porque, lá no Haiti, elas ficam na rua fazendo vendinha. (grifo nosso).

Ainda que o fluxo tenha predomínio masculino, as mulheres ocupam um espaço significativo. No caso das haitianas, a emigração sem o marido e, inclusive, deixando os filhos no Haiti, causou surpresa. O estabelecimento de novos vínculos afetivos no país de destino é uma atitude que se espera dos homens. Isso fica claro na narrativa de João. A ajuda recebida de outras instituições veio principalmente no início da organização do abrigo.

Não tem nenhuma instituição que ajuda. Aqui é tudo bancado pelo governo. As instituições que aparecem aqui vêm um dia, dois dias e só. Eu sempre digo, uma coisa boa é tu falar da pobreza, e outra coisa é tu te envolver com a pobreza. Aqui a Igreja que mais ajudou os haitianos foi a Igreja católica, de janeiro de 2011 a fevereiro. O problema é que cansa. (grifo nosso).

Em relação à questão religiosa, João manifesta uma visão que se tornou muito recorrente entre os brasileiros, inclusive reforçada pela mídia e por pesquisadores.

Eles têm cultos aqui dentro, mas eu vou ser sincero pra ti, eu sou muito puro no meu pensamento. Eu sou católico não atuante. Respeito qualquer religião e admiro, mas a maioria dos evangélicos, principalmente dos haitianos, só é farsa. Antes, os haitianos que chegavam eram mais evangélicos, agora são mais católicos. Eles fazem um culto dia de domingo, mas é pouco. Mas, antes, fazia muito. É o culto entre eles. Na minha visão, a maioria deles é só farsa, porque imagina, se você falar da palavra de Deus todo dia, tu não tem que tentar roubar teu amigo, sacanear teu amigo. Tenta ajudar teu amigo. Tentar ser higiênico. Eu reclamo muito disso neles. Antes, tinha um pastor aqui, que se dizia pastor, quando eu pensei que não, ele tava roubando o cara por trás, pedindo 10 dólares para tirar documento e era evangélico, era pastor. Já tá no sangue deles, parece. (grifo nosso).

Voltaremos a esse assunto quando tratarmos das entrevistas dos haitianos evangélicos. Observamos que o principal argumento para considerar o “ser evangélico” como uma “farsa” entre os haitianos se baseia na sua vivência concreta dos preceitos éticos cristãos. Tal