Capítulo III – A ação dos sujeitos:
2. A construção de uma equipe
2.2 Montando o script
A proposta de atuação conjunta junto aos usuários, ou seja, o objetivo explícito de atendê-los sempre na perspectiva de que outros também o farão trouxe conseqüências relevantes ao processo de trabalho instituído.
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Foram implícitas e esperadas algumas dificuldades em manter um “script” do serviço adaptado aos anseios pessoais de cada um.
Quando um indivíduo desempenha um papel, implicitamente solicita de seus observadores que levem a sério a impressão sustentada perante eles. Pede-lhes para acreditarem que o personagem que vêem no momento possui os atributos que aparenta possuir, que o papel que representa terá as conseqüências implicitamente pretendidas por ele e que, de um modo geral, as coisas são o que parecem ser. (GOFFMAN, 2007 pag. 25)
Assim sendo logo nas primeiras reuniões de equipe este foi um dos temas proposto para discussão, Também foi um relato recorrente no diário coletivo.
Após a primeira reunião, já como membro da equipe, em 26 de janeiro de 2010, escrevi:
Iniciamos a reunião solicitando que cada uma votasse em duas pessoas para a coordenação. Desta forma havia possibilidade de votar em si mesmo. O voto foi secreto, sendo que cada um recebeu seu pedaço de papel e após escrever os dois nomes, colocava-o em um copo. Não foi feito nenhuma consideração prévia para não influenciar nas escolhas. Posteriormente, sugeri que discutíssemos a concepção do serviço que tínhamos e a que gostaríamos de ter. Procurei estimular a reflexão de todos sobre um conceito de saúde mais amplo, postura de acolhimento às demandas dos usuários, desmistificando mitos e tabus em relação ao usuário e ao trabalho em saúde mental. Em seguida discutimos a questão do cuidado enquanto atitude, inclusive, em relação ao cuidado consigo mesmo.
Percebi certa pré-disposição positiva ás mudanças, porém, em certos instantes também ficou evidente que havia um desgaste nas relações interpessoais causando certa tensão. Por outro lado, e usando a imagem do pára-brisa do carro em contraponto com ao espelho retrovisor, sugeri que buscássemos caminhar à frente tentando construir novas possibilidades no ambiente de trabalho. Feito essas considerações partimos para conclusão a respeito da coordenação. Nesse momento, as pessoas se colocaram abordando suas expectativas com esse papel. Houve um consenso, baseados nos votos, de que tanto Vermelha como Azul possuíam características pessoais e ascendência sobre a equipe colocando-as como adequadas à função. Sendo assim, combinou-se que posteriormente conversaríamos os três (eu e as duas) para viabilizar essa decisão. (...) No frigir dos ovos começamos bem, afinal todos queremos a mesma coisa. Mas será preciso cuidado com os desgastes naturais nos relacionamentos por conta de eventos prévios. Por último adotamos esse diário institucional como ferramenta de manifestação livre das nossas idéias sobre nosso cotidiano conjunto.
Nessa direção, Branca escreveu, após a primeira reunião clínica, em 02 de fevereiro de 2010:
A reunião foi dedicada exclusivamente para a discussão dos casos clínicos. Aidê assumiu a coordenação, distribuiu o tempo da reunião de forma que fossem contemplados os treze casos propostos. A discussão nos pareceu bastante técnica e proveitosa no tocante a conduta mais adequada a ser adotada, considerando a demanda do paciente/usuário. Mas a adaptação à “gerência do tempo”, conforme dinâmica adotada por Aidê para discussão de cada caso nos forçou a ser econômicos nas palavras e isto me angustiou especialmente no momento da discussão de uma paciente (M.J.C.). Percebi também que cada qual dos membros da equipe
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procura a seu modo adaptar-se ao momento do serviço, ”aceitando” bem o norte que Aidê está apontando para as atuações profissionais, confesso muita expectativa de que o serviço possa estruturar-se daqui para frente sob esse novo modelo, mas também receio frustrar-me.
Duas semanas após a introdução do diário coletivo, Amarela, espontaneamente, batizou a ferramenta com o nome de Dom Queixote. Disse ela que as pessoas poderiam viajar escrevendo, porém, até aquele momento, só registravam queixas. Sua analogia proposta com o cavaleiro errante de Cervantes – Dom Quixote – se deu, segundo ela, por conta de ser um louco engraçado da Idade
Média que combatia moinhos como se fossem monstros.
A equipe logo aderiu ao apelido e passou a se referir assim ao diário. Inicialmente tive receio de estar potencializando no imaginário deles de que somente as queixas seriam ali relatadas, mas, também confesso ter gostado muito do nome pela criatividade e associação com o personagem. Para mim um ícone instituinte em nossa cultura, ou seja, bastante pertinente a aquilo que nos propúnhamos no serviço.
Assim sendo, em 11 de fevereiro de 2010, pontuei no Dom Queixote (DQ): Dourada colocou suas dificuldades prévias com a coordenação de grupos. Aproveitamos o assunto para esclarecer as diferenças na condução de grupos e oficinas. Após uma situação trazida pela Laranja em relação a uma atuação do Verde na recepção, debatemos sobre a função dos ACSM. Foi esclarecida sua autonomia e possibilidades de visitas espontâneas ao território. Conversamos também sobre acolhimento e sugeriu-se a criação de um grupo aberto coordenado pela Branca para todos os usuários acolhidos na semana. Ou seja, criamos mais um espaço de escuta e orientação inicial aos usuários. Procuramos um consenso sobre a postura de acolhimento e o alerta necessário em não transformarmos esse momento somente numa triagem. A partir daí, Laranja colocou sua angustia por sentir-se dessa forma quando fazia alguns acolhimentos.
Evidencia-se no diário o movimento da equipe em procurar instituir uma “fachada” para apresentação do serviço á platéia, bem como para si mesma. Há uma postura coletiva de representação, que Goffman (2007) esclarece como sendo
toda atividade de um indivíduo que se passa num período caracterizado por sua presença contínua diante de um grupo particular de observadores e que tem sobre estes alguma influência. Será conveniente denominar de fachada à parte do desempenho do indivíduo que funciona regularmente de forma geral e fixa com o fim de definir a situação para os que observam a representação. (p. 29)
Para este autor mesmo havendo tarefas diferentes no dia-a-dia não se excluem esse fenômeno, pois
práticas diferentes podem empregar a mesma fachada, deve-se observar que uma determinada fachada social tende a se tornar institucionalizada em termos das
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expectativas estereotipadas abstratas às quais dá lugar e tende a receber um sentido e uma estabilidade à parte das tarefas específicas que no momento são realizadas em seu nome. A fachada torna-se uma “representação coletiva” e um fato, por direito próprio. (p. 34)
Tornou-se óbvia e necessária a tentativa de socializar o novo modelo de serviço tanto no grupo como para os usuários. Quanto a essa questão, em 09 de março de 2010, relatei após uma reunião administrativa:
(...) Cinza coloca a dificuldade em associar sua recepção aos pacientes com a administração (arquivamento de prontuários, organização dos documentos etc.). Debate-se sobre as atribuições do administrativo procurando distribuir as tarefas. Posteriormente debate-se sobre o horário do serviço. Apesar de alguns momentos de tensão, considerei muito produtiva por conta de novamente poder refletir sobre a concepção do serviço.
Goffman (2007) indica que
a execução de uma prática apresenta, através de sua fachada, algumas exigências um tanto abstratas em relação à audiência, que provavelmente lhe são apresentadas durante a execução de outras práticas. Isto constitui um dos modos pelos quais uma representação é “socializada”, moldada e modificada para se ajustar à compreensão e às expectativas da sociedade em que é apresentada. (p. 40)
Essas posturas iniciais da equipe bem como os fenômenos primários apresentados constituíram o cenário, onde se desenrolaram as atuações dos atores. Se tomarmos o termo “cenário” como referente às partes cênicas de equipamento expressivo, podemos tomar o termo “fachada pessoal” como relativo aos outros itens (...) que de modo mais íntimo identificamos com o próprio ator. (GOFFMAN, 2007 p. 31)
Após o estabelecimento desse cenário e o surgimento das atuações percebeu- se uma conflitante adaptação aos anseios pessoais de cada um.
Em 12 de março de 2010, Cinza registra no diário:
Achei prejudicial ao serviço à retirada do computador de perto de mim, o incômodo que causou a Branca deu-se uma vez em dois anos e meio, sendo que seu uso pelos demais funcionários do serviço não chega a três vezes por ano, ao passo que eu o utilizo quase todos os dias, o que não tenho mais feito por causa da distância em que se encontra. Na medida do possível estou escrevendo as comunicações á mão, mas me preocupa o momento em que surgirem ofícios e outros que necessitem de seu uso. Quanto à distância em que ficaram os arquivos quero registrar que descubro a recepção a cada paciente que chega e tenho que ir pegar seu prontuário, pior ainda quando tenho que arquivar pilhas de mais de 30 prontuários. Aviso a todos que não me responsabilizo por qualquer coisa que possa ser subtraída de minha mesa, como telefone sem fio, algum documento, enfim tudo que se encontra lá e que não posso estar guardando nas gavetas a cada minuto que chega um paciente ou um visitante.
Sobre o assunto “solidariedade” levantado por Aidê há que se discutir muito ainda, pois o colega Verde não me parece achar justo ser solidário, até para que eu possa ir ao banheiro, na ausência absoluta de outra pessoa para me substituir, tenho que argumentar e até discutir para
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que ele o faça, tem sempre alguma coisa “mais importante” para fazer, ou já “está de saída” segundo ele, caso eu queira ir a cozinha comer uma fruta em cinco minutos, nem pensar em pedir a ele, já o fiz e ouvi a resposta “ah pra tomar lanche não”.
O desconforto pessoal tornou-se recorrente na equipe e, em 29 de abril de 2010, Azul desabafa:
Na última segunda-feira, aconteceu de o carro chegar para as visitas às 15h30min horas, Amarela, ficou aguardando o mesmo para suas visitas domiciliares, porém quando ele chegou ela não viu (disse que ninguém a avisou), quando se deu conta Verde já estava saindo para as suas visitas e não teve tempo de chamá-lo.
Fiquei angustiada com a situação, pacientes de controle de medicação, iam ficar sem remédio por falta de comunicação e organização dos profissionais. É importante lembrar que o carro vem uma vez por semana para as visitas mais distantes, e para os profissionais que tem dificuldade de se ausentar da unidade, devido seus atendimentos. Os ACSM devem distribuir suas visitas durante a semana, se tiverem dificuldade e precisar de transporte para visitas, falem com a enfermagem.
Nesse sentido é interessante perceber que, mesmo havendo a interferência da coordenação nesses conflitos durante a pesquisa, não evitou-se o comprometimento da prática. Ou seja, a subjetividade dos atores determinou sua ação, às vezes de forma passional. Quanto a isso, preocupado, registrei no DQ, em 13 de julho de 2010:
Chegando ao serviço hoje fiquei sabendo da solicitação do Verde para trabalhar na APAE por meio período. Além disso, houve ontem uma indicação da gestora 2 para que Preta venha fazer parte do nosso serviço. Em ambas as situações, em minha opinião, a coordenação foi desrespeitada já que não foi consultada previamente e a gestora 2 foi induzida a uma atitude impensada. Entendo que a responsabilidade maior é das pessoas que fizeram esses movimentos sem considerar o sistema como um todo e pensando somente no seu próprio setor. Conversando com Vermelha e a Azul coloquei minha opinião de que nessas situações a coordenação deve usar de suas prerrogativas de “zelar” pelo bom andamento do cotidiano institucional e tomar as atitudes cabíveis. (...)
A meu ver errou Verde por não conversar com a coordenação e errou a Fulana pelo mesmo motivo, induzindo a gestora 2 a uma atitude precipitada. Depois os trabalhadores da saúde reclamam dos gestores e do sistema etc. Como construir um sistema e ambiente de trabalho agradável se nem os próprios trabalhadores ficam atentos a sua prática?
Obviamente que isso tem a ver com a subjetividade e entendo que o texto que iremos discutir na próxima semana vai nos ajudar a refletir sobre esse obstáculo.
É fato, portanto, que nas ações dos atores há muito mais emissão de informações do que eles se dêem conta ou percebam. Todavia, estes costumam agir como se idealmente atuassem, ou seja, tivessem total domínio sobre as conseqüências de sua prática.
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(...) um ator cuida de dissimular ou desprezar as atividades e motivos incompatíveis com a versão idealizada de sua pessoa e de suas realizações. Além disso, o ator muitas vezes incute na platéia a crença de estar relacionando com ela de um modo mais ideal do que ocorre na realidade. (Goffman, 2007 p. 51)
Goffman (2207) afirma que
as encenações legítimas do cotidiano não são “representadas” ou “assumidas” no sentido de que o ator sabe de antemão exatamente o que vai fazer e o faz exclusivamente em razão do efeito que provavelmente venham a ter. As expressões que se julga que ele emite serão especialmente “inacessíveis” para ele. Mas, tal como no caso de atores menos legítimos, a incapacidade do indivíduo comum de formular de antemão os movimentos dos olhos e do corpo não significa que não se expressará por meio desses recursos de um modo dramatizado e preestabelecido no seu repertório de ações. Em resumo, todos nós representamos melhor do que sabemos fazê-lo. (p. 73)
Considero, portanto, que caberia maior prudência na montagem do script e destes cenários, ou seja, maior precaução no estabelecimento e análise do processo de trabalho dos serviços de saúde, valorizando e adequando sempre a inevitável subjetividade presente dos profissionais.
Além disso, torna-se indispensável, a meu ver, independente da forma de contratação, buscar-se um perfil de profissional apto ao trabalho/convivência em equipe para atuar nos serviços de Saúde Mental. Proponho, inclusive, este critério como eliminatório ao candidato.