SUMÁRIO
Foto 5 Moradias auto-construídas no Bairro Xarquinho (quadrante norte da cidade)
Fonte: Autor, 2008
As Áreas Especiais de Interesse Social / AEIS definidas no Plano Diretor de 2006 coincidem com os espaços vazios periféricos e com algumas ocupações dos grupos de baixa renda. A criação das AEIS, para Rolnik (2000), representa um avanço no sentido de reconhecer legalmente uma série de ocupações que, pela legislação tradicional, eram consideradas irregulares ou clandestinas, tornando seus habitantes extremamentes vulneráveis a práticas clientelistas e eleitoreiras.
O condomínio de baixa renda, por sua vez, caracteriza-se por um pavilhão de 15x40 metros, formando um conjunto de 6 unidades (foto 6), cujo objetivo maior foi o de melhor aproveitamento da infraestrutura urbana existente. Nessa prática, a Prefeitura Municipal efetuou a compra do terreno, não se responsabilizando pelos demais custos para implantação da habitação. A verificação in loco dessas unidades
revela que essa forma da provisão de habitação apresenta baixos padrões de conforto.
Foto 6 – Condomínio para baixa renda produzido pela prefeitura municipal de Guarapuava, 2007
Fonte: Autor, 2007
É comum perceber nas diferentes gestões municipais práticas que reforçam a segregação socioespacial, desde a produção da habitação popular até o atendimento da infraestrutura.
Um caso típico encontrado nas áreas de ocupação é a pouca comunicação com os demais bairros. O acesso às áreas de ocupação é precário e há também pouca interação com bairros com melhor infraestrutura. Parece, portanto, oportuno reproduzir as reflexões de Ribeiro (1997) que, de alguma maneira, refletem a realidade da produção da habitação em Guarapuava. Para Ribeiro (1997), existem dois grandes segmentos de produção da moradia: o não-capitalista e o capitalista. A não-capitalista corresponde a todas as formas de autoprodução de moradia, que têm como traço comum o fato de não visarem à acumulação de capital que orienta a produção, mas a produção de valores de uso.
No segmento capitalista são três submercados: o submercado de cooperativas e companhias estaduais de habitação; o submercado normal e o submercado monopolista. Como submercado de cooperativas e companhias estaduais de habitação reconhecemos a COHAPAR, na provisão da habitação para uma parcela da população. Nesse sentido, como aborda Ribeiro (1997), aqui o Estado exerce uma função direta ou indireta, pois, financiando com subsídios a produção e a comercialização, fornece um capital que circula de maneira desvalorizada. O submercado normal e monopolista tem como base a divisão social e simbólica do espaço urbano, que diferencia qualitativamente as moradias segundo a localização e as condições diferenciadas que regulam a produção e circulação (RIBEIRO, 1997).
A reprodução do capital, portanto, reflete a lógica dos ganhos com a produção da habitação para pequena parcela da população. Efetivamente, essa produção é direcionada com a proposta de valorização da área central e em bairros vizinhos ao centro.
O principal obstáculo ao acesso à habitação em Guarapuava está relacionado à falta de recursos financeiros de parte da população, o que impossibilita a participação no mercado imobiliário privado. Essa é a situação das famílias moradoras em unidades precárias autoconstruídas, de barracos e em unidades habitacionais deficientes.
Em contrapartida, a concentração de renda tem possibilitado novas construções, com elevado padrão, principalmente nos bairros mais bem dotados de infraestrutura.
As considerações apresentadas apontam para existência da segregação socioespacial dos grupos de baixa renda, simbolizada na distância geográfica e social em Guarapuava, sem falar da desigual distribuição do investimento do capital no espaço. Os núcleos habitacionais produzidos pelo poder público em áreas frágeis, ajudaram promover a segregação socioespacial, na medida em que, ao assentarem parte da população de baixa renda num mesmo núcleo, presencia-se o reforço dos programas habitacionais que foram sendo inseridos ao lado de outros, como por exemplo, no bairro Xarquinho e no Residencial 2000.
O que se percebe em Guarapuava é que “a pobreza não é apenas o fato do modelo socioeconômico vigente, mas, também, do modelo espacial”, como afirma Santos (1994, p.10).
De qualquer forma, não há como abandonar a concepção de que o poder público não deve ser interpretado independente do conjunto de outros poderes, ou seja, dos poderes dos grupos de baixa renda que se apropriam das áreas criadas e induzidas para ocupação.
Nessa direção, a interpretação do poder público em Guarapuava é entendida como um grupo que, além da capacidade política, tem a capacidade de transformação do espaço urbano, na medida em que a estruturação do espaço acaba sendo interpretada como legitimação da segregação socioespacial.
Assim, a expressão do poder público no espaço urbano em Guarapuava caracteriza-se pela produção e pela regularização da habitação popular sem integração espacial e social. A expressão das ações é legitimada, compartilhada de forma dominante, sem que haja alguma resistência da população e que possa gerar algum tipo de mudança na configuração do espaço urbano. A legitimação, portanto, do cumprimento do poder local se mantém pelo clientelismo, atribuindo lógica para o movimento dos grupos sociais segregados em direção às áreas periféricas. A estratégia, então, assegura relações e mantém comunicação com grupos empobrecidos, ao garantir a permanência das ocupações e promover o controle do espaço, determinante para a segregação socioespacial.
Em contrapartida, a reprodução do capital imobiliário reflete a lógica dos ganhos com a produção da habitação para pequena parcela da população.
De qualquer forma, não há como abandonar a concepção de que o poder local não deve ser interpretado independente do conjunto de outros poderes, ou seja, dos poderes dos grupos de baixa renda que se apropriam das áreas criadas e induzidas para ocupação.
A Figura 11 mostra esquema interpretativo das relações entre o poder local e a expressão dos arranjos institucionais. A intensificação da segregação