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1.2 O itinerário dialético da liberdade na Filosofia do Direito de Hegel

1.2.2 Moralidade: a realidade da liberdade na vontade subjetiva

. Assim, faz-se necessário seguir adiante.

Se a etapa anterior pode ser configurada como o momento do diálogo crítico de Hegel com a tradição jusnaturalista, este é o momento da apreciação da moral kantiana. Tem lugar agora não mais o império da norma jurídica, mas a reflexão da vontade livre que se faz subjetividade. O direito, que é abstrato e formal, e que por isso visa aos homens como números iguais, precisa ser completado pela Moralidade, na qual o indivíduo intervém com sua consciência e decisão. Este é, enfim, o momento em que “a vontade deixa de ser infinita em si para o ser para si (..). Esta reflexão da vontade sobre si e sua identidade que existe para si, frente à existência em si imediata e às determinações que nesse âmbito se desenvolvem,

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BENJAMIM, Cássio Corrêa. Família, sociedade civil e Estado na Filosofia do Direito de Hegel. Educação e

filosofia. Uberlândia, v. 14, n. 27/28, p. 89-111, jan./jun. e jul./dez. 2000. p. 90: “O que Hegel pretende é, na

verdade, realizar uma síntese entre o pensamento político antigo e o moderno, ou seja, realizar uma superação, conciliando dois momentos distintos, a saber, o modo de pensar a política que parte do todo ( a cidade grega) e aquele que parte do múltiplo (os indivíduos no direito natural moderno). Será através de sua noção de Estado que Hegel pensa poder realizar tal reconciliação”.

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determinam a pessoa como sujeito” (§ 105). A subjetividade é, portanto, a existência do conceito (§ 106): o dever ocupa o lugar do direito72

Nessa etapa, segundo momento “nessa transcrição dialética do processo de realização histórica da liberdade”

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, o fundamental é que a vontade se autodetermine, que ela supere “a vontade que, em um primeiro momento (Direito Abstrato), existe só para si [arbitrariamente] e só em si é idêntica à vontade (...) universal” (§ 106, Obs.), e queira, de fato, o universal, ou seja, suprima “esta diferença que a mergulha na sua particularidade [que a faz desejar apenas o seu bem particular] e identifique a vontade para si com a existente em si” (§ 106, Obs.). Por visar ao universal, ainda que formalmente (§ 108), a esfera da Moralidade é, para Hegel, etapa indispensável para a existência do Estado, já que para sua existência é imprescindível que os cidadãos reconheçam a validade de regras universais e as queiram74, embora isso não seja o suficiente75

É, sem dúvida, essencial ressaltar que a autodeterminação da vontade é a raiz do dever. Por seu intermédio, o conhecimento da vontade adquiriu na

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É precisamente a compreensão da Moralidade como apenas um momento de um processo que pede continuidade, que possibilita tanto o reconhecimento da relevância da contribuição de Kant (posto que esta é, como aludido acima, uma etapa fundamental) como a crítica dirigida a ele por Hegel, uma vez que a Moralidade se restringe ao âmbito subjetivo, aquele no qual “o próprio dever constitui a sua essência e o seu universal, e enquanto tal só se refere a si no interior de si, não passando de uma universalidade abstrata” (§ 135). Assim, sintetiza o próprio Hegel:

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ROSENFIELD, 1995, p. 110: “Vê-se desde logo que, pela ‘moralidade’, Hegel introduz na sua concepção do indivíduo a dimensão de uma liberdade subjetiva que honra o direito de cada um produzir-se como agente consciente do seu processo de determinação de si. Trata-se do direito de verificarem todo dado o que o constitui verdadeiramente. Sem esse poder de verificação, o indivíduo permaneceria exposto às coerções e à dominação de um Estado totalitário, que procuraria impor-se arbitrariamente aos indivíduos”.

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LIMA VAZ, op. cit., 396. 74

ROSENFIELD, op. cit., p. 110: “O indivíduo só se integra reflexivamente na comunidade por intermédio de uma vontade moral que aspira subjetivamente à efetivação do universal. Eis precisamente uma das condições de um Estado verdadeiramente livre”.

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Ibid., p. 110: (é preciso também) “criar as condições que tornem possível uma coincidência efetiva entre a finalidade da ação moral e a finalidade da ação política”.

filosofia kantiana, pela primeira vez, um fundamento e um ponto de partida firmes com o pensamento de sua autonomia infinita (cf. § 133). Porém, na mesma medida, o permanecer no mero ponto de vista moral, sem passar ao conceito da eticidade76

A preocupação de Hegel, enfim, ao criticar Kant, é abrir caminho a uma nova apreensão da conexão entre as leis morais e a política, ou seja, superar o dualismo entre a subjetividade e a objetividade, a interioridade e a exterioridade. Reclama-se aqui por uma concretude que emerge da compreensão dos dois momentos até agora vistos, ambos abstratos e formais, não como polaridades inconciliáveis, mas como tão-somente “momentos do conceito, que se revela como sua unidade” (§ 141, Obs.). A Eticidade (Sittlichkeit), unidade do bem subjetivo e do bem objetivo existente em si e para si, na qual se produz a reconciliação de acordo com o conceito, se afirma como o momento em que a vontade, já não mais na sua forma subjetiva, carente de objetividade, alcança como conteúdo seu próprio conceito, ou seja, a liberdade (§ 141, Ad.). Esta experiência da liberdade, que se torna mundo existente (§ 142), está no âmbito do indivíduo, que se configura não meramente como pessoa (indivíduo portador de direitos) ou como sujeito (indivíduo que se autodetermina livremente

, converte aquele mérito em um vazio formalismo e a ciência moral em uma retórica acerca do dever pelo dever mesmo. Desde este ponto de vista, não é possível nenhuma doutrina imanente do dever (§ 135, Obs.).

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Há uma sutileza em Hegel que se deve considerar, afim de não incorrer no equívoco de concluir que há uma oposição entre as teses da Fenomenologia do Espírito e as da Filosofia do Direito. É fundamental, no estudo da obra hegeliana, estar atento ao plano em que o filósofo está refletindo: se se encontra no plano da experiência da

consciência (ou no âmbito da Antropologia Filosófica), próprio da obra de Iena, a ordem de abordagem segue do

espírito verdadeiro ao espírito certo de si mesmo, da eticidade à moralidade; se se situa no plano da objetividade (ou no âmbito da Filosofia social e política), que é o da obra de Berlim, essa ordem se inverte. Essa questão é analisada por HYPPOLITE [Gênese e estrutura da Fenomenologia do Espírito de Hegel. Trad. Sílvio Rosa Filho. Prefácio de Bento Prado Jr. São Paulo: Discurso Editorial, 1999. p. 351-355] que, alinhando-se à perspectiva de interpretação de Martin Büsse [Hegels Phänomenologie die Geistes und der Staat, Berlim, 1931], também acredita que “as diferenças entre as duas obras deriva sobretudo de uma diferença de ponto de vista” (p. 351). Ao que ele esclarece: a Fenomenologia e a Enciclopédia são ambas apresentações do espírito absoluto, porém diferentes. O que a segunda apresenta como o desenvolvimento em si e para si do conceito, a primeira o apresenta como uma tomada de consciência do conceito. Acrescenta o comentador: “Na Filosofia do direito, que é um momento do sistema, cada articulação se apresenta no elemento absoluto; ali, a oposição entre a essência e o saber já não tem lugar, e a tomada de consciência característica da Fenomenologia não é mais o motor da dialética. O Direito abstrato, a Moralidade, o Estado são simultameamente conteúdo e forma, essência objetiva e saber de si. Mas não ocorre o mesmo na Fenomenologia, que apresenta todos os momentos do conceito segundo a oposição interna, aquela entre o em-si e o para-si, a essência e o saber. Assim, todos os momentos do espírito se apresentam na Fenomenologia, mas em uma ordem diferente, a ordem de sua emergência em relação ao saber que o espírito toma de si mesmo, ou à tomada de consciência” (p. 352).

em sua subjetividade), mas, sem deixar (e exatamente por não deixar) de ser tudo isso, se descobre como membro (Mitglied) de uma comunidade77

Esta é a terceira das três etapas do itinerário dialético descrito por Hegel, e representa a plena realização do Espírito objetivo. Trata-se da síntese dos dois momentos anteriores, arremate de um processo de negação-conservação-superação; numa palavra, suprassunção (Aufhebung) do Direito Abstrato e da Moralidade que, vistos desde tal perspectiva, encontram a sua verdade como partes de um Todo, Todo este que existe nas partes

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