Ao falar de quadrindade e linguagem Heidegger nos remete à proximidade como
vizindade: A proximidade é o que en-caminha e movimenta a vizinhança dos quatro campos
do mundo, permitindo que um alcance e en-contre o outro, guardando na proximidade a sua distância. A proximidade é o que en-caminha o en-contro face a face. (HEIDEGGER, 2003a, p.167). Nesse encontro face a face, funda-se um mundo, vela-se uma terra, faz-se o tempo, instala-se uma medida histórica e abre-se um espaço de distâncias e proximidades. Nada disso pode ser medido pelo pensamento calculador. Na vizindade vigente na quadrindade, deparamo-nos com os outros, que são mortais como nós e, se o sentido originário do próximo pudesse se perfazer, seria possível alcançar, no seio na quadrindade, a verdadeira comunhão entre os homens.
O outro do homem que mora na quadrindade é, em primeiro lugar, o seu vizinho que reside na proximidade. Esse é o sentido ético originário do
"próximo". A comunhão dos mortais não começa pelo partiIhamento de valores e normas; pelo contrário, cessa quando estes tornam-se o único fundamento do coexistir. A comunidade institui-se no assentamento, na ocupação de sítios nas mesmas paragens. O sentido inicial do coexistir é coabitar e significa resguardar, cultivar, edificar, isto é, salvar a terra, receber o céu, aguardar os divinos, acompanhar outros até a morte. A comunhão entre os homens, a mais elementar e concreta, tem a sua raiz na quadrindade. Na origem, os homens são unidos como mortais iniciados no mesmo jogo do "espelhamento apropriador" dos quatro (LOPARIC, 2003, p.26).
Essa comunhão é originária, uma vez que não depende do modo como nos relacionemos com os outros desta ou daquela vez, pois é uma comunhão fundante e fundamental, que não depende das variações ônticas específicas de cada relacionamento. Como não cansamos de repetir, o mais próximo, o mais fundamental, pode ser o mais distante e o menos visível. No cotidiano, vivemos no modo do distanciamento dessa comunhão originária, pois vivemos como se os outros fossem partes destacáveis, e, muitas vezes, até descartáveis, de um conjunto indissociado de sujeitos, indivíduos dos quais podemos ou não lançar mão. O que não nos damos conta é que, ao tornar os outros dispensáveis, tornamo-nos a nós mesmos irrelevantes. Ao desprezar o outro, tornamo-nos imediatamente desprezíveis. No cotidiano vivemos, no mais das vezes, esquecidos da densidade relacional e afetiva da qual sempre já fazemos parte. Para resgatar isso que, no mais das vezes, é para nós inacessível, clamamos a ideia de alteridade (83,165). Alteridade como aquilo que é radicalmente outro, que não se refere a mim, e que poderíamos chamar de “outridade”. A
vizindade celebra a di-ferença que se faz presente no resguardar, que sempre se dá sempre
junto aos outros. Outros que não são apenas um conjunto de humanos, mas que são diferentes e semelhantes a mim, que me recordam do imprevisível que há em todo acontecer. A alteridade está cunhada na afetividade, pois o estofo que nos une sempre acontece a partir do modo nos encontramos aí situados no mundo e com os outros, das tonalidades afetivas das quais sempre participamos e que tingem a atmosfera compartilhada que é a nossa.
Acreditamos que uma reflexão clínica que deixe de passar pelo sentido de alteridade, a partir das reflexões de Heidegger, manter-se-ia restritiva. Para que a responsabilidade livre aconteça, no caminho do que nos é próprio, é preciso reaprender a nos ver como mortais em meio a outros mortais. Poderíamos dizer que, talvez, os mortais de Heidegger ainda não existam de fato, pois “assim como não deixaram o ente ser a coisa, a metafísica ocidental e, por contaminação, a ciência moderna continuam sem permitir ao homem ser mortal”
(LOPARIC, 2001, p. 53). Por isso afirmamos, acima, que nos é dado como tarefa conquistarmo- nos como Daseins que ainda não somos (110). Os mortais existem, sim, como possibilidade latente e constante, pois, como já afirmamos diversas vezes, o mais próximo pode mostrar-se como o mais distante. Duarte (2005) defende que há uma ética explicitada, principalmente no segundo Heidegger, na qual o pensamento sobre o ser em relação aos mortais e à linguagem pode abrir espaço para um novo modo de estar junto ao outro.
Evidentemente, só há vizinhança porque há um outro que mora na proximidade; no entanto, pensar a vizinhança e a proximidade numa chave pós-metafísica implica dois requisitos básicos: requer não pensá-las a partir de critérios espaço-temporais, como se o próximo fosse aquele que já se encontra presente aqui e agora, a pouca distância, bem como requer o reconhecimento da alteridade do outro como condição para uma possível proximidade entre um e outro. Cotidianamente, vizinhança e proximidade neste sentido “outro” nos passam desapercebidas e como que invisíveis, pois tratamos o vizinho com indiferença ou como se ele não fosse mais do que um espelho, um duplo de mim mesmo ao qual posso reagir de diversas maneiras previsíveis, sem jamais reconhecê-lo como o outro mortal que ele é. Vivemos em vizinhança, não precisamos jamais buscar por ela, mas não sabemos o que significa a proximidade enquanto reconhecimento da alteridade do outro. Do mesmo modo, também não sabemos preservar a distância na proximidade, isto é, não sabemos como nos ocultar na proximidade para deixar que o outro seja (DUARTE, 2005, p. 153).
Para alcançar a complexa simplicidade desse espaço de alteridade, é necessário aproximarmo-nos dele como um espaço outro. Outro, não como uma característica a mais, que se sobreporia aos espaços tradicionais como um diferencial, mas sim outro como alteridade. Não alteridade como distinção, como diferencial, como espaço diferenciado. Nada disso. Alteridade como resguardar em comunhão. Na chave das reflexões de Duarte, poderíamos pensar que acolher o outro dentro da quadrindade, como mortais que somos, abriria uma perspectiva libertadora para a clínica. Aqui, precisamos novamente de cautela e de um passo atrás (90,127,129,132,136,156,169,176). Não se pode funcionalizar reflexões tão singelas, correndo o risco de aniquilá-las tornando-as referencial para uma prática clínica. Há que resguardá-las da fúria do pensamento calculador, que quer a tudo dominar e instrumentalizar.
Não se pode calcular e prever a possibilidade, a extensão e a duração de um tal acolhimento do outro, de maneira que esta ação acolhedora, cifrada numa linguagem e num pensamento não calculadores, jamais poderá ser concebida como resultado ou efeito de sua ação. Acolher o outro, deixar que ele seja o outro que é, jamais poderá ser o resultado calculado e previsível de um ato,
pensamento ou palavra, mas somente poderá se dar em atos, pensamentos e palavras (DUARTE, 2005, p. 156).
Esse acolhimento do outro jamais se daria por um ato deliberado nosso, jamais aconteceria por nossa vontade e ação, não poderia ser gerado por nós, uma vez que somos também mortais residentes da quadrindade. Por outro lado, esse acolhimento jamais poderia acontecer prescindindo da presença atenta e vigilante dos homens enquanto mortais. Ele só poderá se dar brotando da serenidade (126,165,195,188,192,187,127,134). Ou seja, jamais poderíamos utilizá-lo como prescrição para uma prática clínica. “O acolhimento do outro é uma ação meditada que se expressa numa linguagem ineficaz e discreta, que age de maneira imprevisível e incalculável e que, enquanto tal, transcende qualquer cômputo de resultados efetivos e qualquer justificativa teórica” (DUARTE, 2005, p. 156). A sutileza dessa presença, cultivada na serenidade, não pode ser sistematizada. Duarte ressalva, todavia, que não seria o caso de “abolir as determinações éticas, jurídicas e políticas [e psicológicas, incluímos nós] tradicionais e vigentes, mas de instaurar a brecha da possibilidade de pensar e dizer o ethos mais originariamente, [...] aquém ou além de tais determinações ônticas” (Duarte, 2005, p. 156). Na clínica, é necessário saber que nunca estaremos livres da medida histórica vigente que é a nossa, nunca poderemos trabalhar sem estarmos imersos em determinações diversas, inclusive de cunho “psicológico”. Nada nos impede, porém, de elaborar uma outra liberdade, fundamentada numa busca por atenção serena constante, que nos levaria a “um acolhimento original do outro que supere as atuais exigências de normalização, uniformização e coação da convivência em nome de uma ‘outra’ co-ek-sistência, aquela que Heidegger denominou em termos do habitar poético sobre a terra” (DUARTE, 2005, p. 156). Habitar poeticamente sobre a terra é uma chave para compreensão do papel que o espaço passa a ter para o segundo Heidegger.