8 RETRATOS DA DEPRESSÃO: DIAGNÓSTICO, MULHERES E RELAÇÕES DE
8.4 A BAGAGEM DA PESQUISA: APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
8.4.6 Morar no campo: entre o imaginário e o “real”
Você é seu próprio lar
(Triste, louca ou má – Francisco, El Hombre)
Em quase todas as minhas experiências de divulgação dos meus dados da pesquisa em Solanum, percebo manifestações de descrédito em muitos rostos daqueles que me assistem. Geralmente este fato acontece porque muitos moradores da cidade, assim como tantos outros profissionais da saúde, não conseguem encontrar justificativas para os altos índices de diagnósticos em saúde mental e o significativo uso de medicações psicotrópicas por parte população da comunidade. Às respostas mais comuns, ou melhor dizendo, os questionamentos que mais são levantados dizem respeito a presença de uma boa qualidade de vida na cidade, entendida aqui como presença de boas condições de moradia, quase que inexistência de desigualdade social, baixíssimos índices de violência e incidência de roubos, acesso ao trabalho e a boas condições de educação e saúde, o que acabaria invalidando qualquer possibilidade de apresentar um diagnóstico de saúde mental na percepção destes moradores e de alguns profissionais de saúde.
Buscando ampliar minha percepção sobre o tema, especialmente nos últimos meses tenho percebido que esta interrogação também vem sendo levantada por aqueles que buscarei denominar como os de fora, ou seja, sujeitos que não são moradores ou frequentadores assíduos de Solanum. Costumo encontrá-los na universidade, em congressos, em amigos de outras cidades, em ex-colegas do curso de psicologia, em estrangeiros (moradores de outros países) que visitavam a casa de minha orientadora e que discutiam sobre minha temática de pesquisa e, até mesmo, em estudantes que circulavam pela ESF Girassol enquanto estive realizando este estudo.
Eu trabalho numa favela perigosa do Rio de Janeiro e não vejo esse tipo de problema dessa maneira, dessa magnitude na Rocinha, por exemplo, no Rio de Janeiro. É uma favela que tem condições de vida muito piores do que aqui, que as pessoas não têm acesso à terra, que as pessoas não têm acesso a lazer, que as pessoas não têm acesso a várias coisas como as pessoas tem aqui. Lazer nem tanto, porque as pessoas não têm acesso a lazer aqui, mas acesso à terra, acesso a trabalho, que tem pelo menos um salário mínimo, têm alguma coisa garantida, enfim, é, e não vejo a prevalência de problemas de saúde mental como eu vejo aqui. Então é muito gritante assim, pra mim. [...] acho que talvez pra mim que sou da cidade, existia muito esse glamour do campo né, aquela ideia de que que as pessoas têm tudo pra elas e têm uma vista bonita e podem ter a liberdade ou a autonomia pra produzir o que elas quiserem e tudo mais. E acho que é um fetiche de quem é da cidade isso, de achar que ir pro campo vai resolver todos os seus problemas e que tudo é muito bom e todo mundo é muito feliz [...]. (Fonte: entrevista com profissional G).
Profissional G: - Mas acho que a realidade é muito mais da pobreza, acho que aqui é muito pobre também né, as pessoas também elas são, por isso mesmo elas se submetem a relações de trabalho tão problemáticas, e elas tão muito colocadas numa realidade de tá presos né, de tá, acho que isso que eu vejo né. As pessoas se sentem muito presas ao seu trabalho, presas à sua família, presas à sua relação na comunidade
Profissional A: - Quando você fala muito pobre, o que é que é muito pobre pra ti?
Profissional G: - É claro, pobre tem várias interpretações, aliás. [...] eu acho que a pobreza nesse sentido que eu tô falando é uma pobreza financeira, mas tudo bem que ela não, pobreza não é só isso. É muito diferente você não ter dinheiro aqui e você não ter dinheiro na Rocinha, no Rio de Janeiro. É diferente, você tem a sua terra, você pode produzir, tem várias coisas que são diferentes. Mas em vários sentidos elas também são parecidas. Mas não precisa ser só uma pobreza financeira, mais no sentido de justamente não conseguir ser autônomo na sua vida, ou não ter protagonismo, não ter lugar de voz na família. [...] é não conseguir ter a palavra final em relação a sua própria vida, ou de não conseguir atingir as suas potencialidades, acho que é isso. A gente vê aqui que pessoas por necessidade, ou também por questões culturais, abandonam a escola, começam a trabalhar com catorze, dezesseis anos, que não é nada diferente do Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, e vão cada vez mais abandonando as potencialidades, seja lá o que queriam fazer ou o que poderiam fazer, pra viver uma vida que é igualzinha à do seu pai, que é igualzinha da sua mãe, que é o que eles falam (Fonte: entrevista com profissionais da ESF).
Schnorr (2011) refere que a mídia, principalmente através de produtos da televisão como as novelas, representa a vida no campo de uma forma muito homogênea, sendo este considerado como um local atrasado, estático e onde quase nada acontece. Em contrapartida, o urbano seria o local do progresso, do movimento e das possibilidades de crescimento social. O espaço do campo só costuma ser representado como sinônimo de progresso quando mantém relação com grandes plantações, atividades de exportação ou produção de pecuária de corte.
Em grande parte destes produtos televisivos, segundo a autora, prevalece o estereótipo de que o morador da comunidade rural é ingênuo e com poucas condições de dar continuidade aos estudos, devido às dificuldades de acesso às escolas. Sua maneira de falar também costuma ser descrita como uma condição inculta, sendo seus erros e sotaques logo percebidos quando ele vai até a popular “cidade grande”. Além disso, palavras como tranquilidade, silêncio e calmaria também costumam ser atreladas ao espaço do campo (SCHNORR, 2011, grifo meu). Observa-se assim, mais uma vez, a construção de representações simbólicas acerca do campo e de seus moradores. Hall (1997) já afirmava que estas representações costumam ser produto do olhar de um outro sobre determinado grupo, especialmente em situações que envolvem relações de poder. Nesse sentido, percebe-se a existência de um imaginário social sobre o significado de morar no campo, colocando a cidade e o espaço urbano como os únicos territórios onde haveria possibilidade de desenvolvimento e progresso, ocupando assim espaços de superioridade em uma escala hierárquica de poder.
Uma vez que questões de pobreza, violência, desigualdade social, discriminação e desemprego contribuem para um aumento na probabilidade de desenvolvimento de doenças
mentais especialmente em mulheres, segundo a OMS (2009), e entendendo o território do campo como espaço de calmaria e tranquilidade, realmente poderia causar certo nível de estranhamento a presença de altos índices de depressão em Solanum. Entretanto, é exatamente discutindo este aspecto que me dou conta do quanto esta pesquisa de mestrado adquire relevância frente as discussões sobre experiências individuais com diagnósticos em saúde mental, além de questionar alguns dos pressupostos sobre os quais estudos epidemiológicos e estatísticos vêm se sustentando.
Dessa maneira, por mais que em Solanum, por exemplo, os níveis de desemprego ainda permaneçam muito baixos, pode-se observar que a organização do trabalho na comunidade vem contribuindo significativamente para o aumento do adoecimento mental, especialmente em mulheres. Ou seja, ao analisar estatisticamente a distribuição de trabalho e renda na comunidade, superficialmente ter-se-ia a percepção de que esta não poderia ser um fator que contribuiria para o adoecimento mental, afinal desigualdade e desemprego não alcançariam taxas preocupantes.
Entretanto, como nos ensinou Foucault (2014a), as relações de poder que se estabelecem entre as pessoas e as instituições não devem ser desconsideradas, afinal é a partir delas e sobre elas que determinados discursos e práticas estão estabelecidas. Em Solanum, ao analisarmos a organização das práticas laborativas devemos considerar desde o discurso socialmente construído sobre o imigrante teuto-brasileiro e seu relacionamento com o trabalho, como discutiu Meyer (2000), até mesmo as próprias condições de trabalho exercidas nas indústrias de calçados, permeadas por desvalorização do trabalho feminino, sobrecarga e quase que total desconsideração sobre a existência de questões de saúde mental, apontando para a existência de desigualdades de gênero.
De forma semelhante, ao interpretarmos os estudos epidemiológicos que discutem a prevalência do diagnóstico de depressão em mulheres, torna-se importante observar o quanto as violências e opressões de gênero, além das relações de poder desiguais entre homens e mulheres, também podem estar imbricadas no discurso que, em nossa contemporaneidade, propaga com muita força a maior prevalência de diagnósticos de saúde mental no público feminino. Através disso, poderemos continuar encontrando argumentos teóricos que busquem instaurar uma discussão sobre o predomínio dos aspectos biológicos como justificativa para manutenção das diferenças entre os sexos, sendo estes ainda amplamente utilizados em pesquisas.
Tudo isso nos mostra que morar no campo não exime ninguém de desenvolver um quadro de doença mental, pois não é para o campo, esteticamente falando, que devemos voltar
nosso olhar. Ao contrário, devemos é nos questionar sobre quais discursos construíram esse campo e de que relações de poder ele é (e vem sendo) historicamente, politicamente, economicamente e socialmente constituído.
8.4.7 Cargas e enfrentamentos de quem cuida: profissionais da saúde, concepções sobre