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2.3 MODELOS DE CUIDADO COM A CRIAÇÃO

2.3.3 Mordomia

Até o momento as duas perspectivas analisadas, eco-justiça e teologia cósmica, possuem grande foco na ética ambiental social, diferentemente, a mordomia apresenta-se como uma perspectiva predominantemente fundamentada na erudição cristã, uma perspectiva mais fechada e conservadora que se refere como uma virtude cristã. O filósofo americano, Baird Callicott explica a mordomia da seguinte maneira:

Possui um potencial muito maior, do que até agora aproveitado, para atrair o apoio e as energias de um segmento considerável do público em nome das preocupações ambientais. Para a grande comunidade de pessoas que aceitam suas premissas - que acreditam em Deus, criação divina, lugar e papel preeminente para os seres humanos no mundo, e assim por diante – a mordomia representa, na minha opinião, a mais coerente, poderosa ética ambiental praticável disponível. (CALLICOTT, 1991, p.112)

Muito embora não exista uma única articulação do termo, podemos definir a mordomia em termos gerais como o nosso uso e cuidado pelo lar em nome do Criador, o qual nos definiu como mordomos. Os maiores nomes que defendem a mordomia da ética ambiental são: Francis Schaeffer e Douglas John Hall, teólogos reformados com certo conservadorismo em suas interpretações bíblicas.

Na década de 70 se tornou popular a perspectiva ambiental da mordomia encontrada na obra “Poluição e a morte do homem” de Francis Schaeffer. Neste trabalho Schaeffer apresenta uma visão cristã da ecologia como resposta à depredação humana do jardim de Deus. O autor argumenta que os cristãos podem e devem se mover em direção a uma ética ambiental cristã que somente será efetiva quando o "domínio" dado à humanidade na narrativa de Gênesis 1.28 for entendido em seu contexto divino. O exercício do domínio muitas vezes se manifesta como tirania exploradora, mas em seu contexto bíblico, o comando para exercer o domínio está enraizado no conhecimento de que, como criaturas, os seres humanos só podem exercer domínio na medida em que se comprometem a cuidar da criação de Deus e de seus semelhantes. Então, Schaeffer responde, de que modo isso pode ser alcançado?

Primeiro, como temos visto, pela ênfase na criação. Então, em segundo lugar, por uma compreensão renovada do “domínio” do homem sobre a natureza (Gn 1.28). O homem tem domínio sobre as ordens “inferiores” da criação, mas ele não é soberano sobre elas. Somente Deus é o Senhor Soberano, e as ordens inferiores devem ser encaradas com esta verdade em mente. O homem não está usando as suas próprias possessões. [...] A natureza não é nossa. Pertence a Deus, e nós devemos exercer nosso domínio sobre estas coisas não como se fossemos destinados a explorá-las, mas como coisas emprestadas ou confiadas a nós. Nós devemos usá-las sabendo que elas não são nossas intrinsecamente. O domínio do homem está debaixo do domínio de Deus. (SCHAEFFER, 2003, p.48)

Schaeffer também ilustra sua ética ambiental fazendo um paralelo com a relação entre marido e mulher. Existe uma relação do homem com a mulher, porém com a entrada do pecado, a desconexão com Deus, o homem utilizou de maneira equivocada essa relação ao transformar em tirania e oprimir a mulher. No Novo Testamento, o homem aprende a utilizar a sua liderança sem a tirania, olhando para Cristo, sendo um líder que tem a marca principal, o amor. Essa ordem no mundo caído é restabelecida pelo amor.

Este paralelo aplica-se a relação homem e criação, o homem caído tem exercido o domínio de maneira equivocada sobre a criação:

O cristão é chamado a mostrar esse domínio, porém fazendo isto de forma correta: tratando a coisa como tendo valor em si mesma, exercendo o domínio sem ser destrutivo. A Igreja deveria ter ensinado e praticado isto sempre, mas geralmente tem falhado, e nós precisamos confessar nosso fracasso. Francis Bacon compreendeu isto, assim como os outros cristãos em tempos diferentes; mas em geral, nós temos que dizer que, durante muito, muito tempo, professores cristãos, inclusive os melhores teólogos ortodoxos, mostraram um pobreza real aqui. (SCHAEFFER, 2003, p.48)

Assim, a mordomia explica através dos textos bíblicos as características da ética ambiental. Primeiro, deve-se compreender corretamente o “domínio” que foi concedido ao ser humano. Segundo, Deus é aquele que cria, ou seja ele é o dono da criação e não o ser humano. Terceiro, existe uma distinção clara entre os direitos do Proprietário de delegar deveres a seus administradores e a responsabilidade dos mordomos de cuidar da propriedade que lhe foi confiada de maneira condizente com o desejo e o caráter do Proprietário.

A mordomia enfatiza claramente que os cristãos, dentre todas as pessoas, possuem o dever de zelar e não de degradar a natureza. Conforme as narrativas

bíblicas o dever do cristão é honrar a Deus tratando a natureza com profundo respeito. Tendo como fundamento a obra de Cristo, tratando as coisas de acordo com a filosofia apresentada na Bíblia, os cristãos podem ser agentes de curas sociológicas substanciais.

Nesta linha de pensamento, Douglas John Hall afirma que não existe fundamento mais forte para um ética ambiental cristã da mordomia do que “as promessas ecológicas apresentadas na Bíblia.” (HALL, 1990, p.213)

Hall vivendo plenamente as tensões da guerra fria, integra o que se poderia considerar “ambiental” questões como “justiça” argumentando que todas as injustiças modernas são sintomas de problemas físicos e espirituais, caracterizados por uma “atitude utilitarista e indisciplinada” (HALL, 1990, p.143)

A humanidade vivendo uma espécie de pacto de morte necessitava de um repensar e desenvolver uma nova maneira de imaginar o seu lugar no planeta e isso só seria possível por meio do conceito bíblico de mordomia.

Para Hall, e outros defensores da mordomia, uma antropologia afirmadora da criação deve partir de Gênesis 1.26-28, e também no conceito do ser humano ser criado à imagem de Deus. Esta imagem é que possibilita a humanidade exercer um domínio que reflita o caráter do seu Criador.

Hall não encontrando muitas referências nas narrativas do Antigo Testamento, busca fundamento no texto de Colossenses 1.15 onde é afirmado que Jesus Cristo é a “imagem do Deus invisível”, e assim pode-se dizer que tal imagem não é encontrada nos grandes centros de tecnologia informações e ciências, mas sim no Verbo encarnado de Deus.

Em Cristo Jesus a existência à imagem de Deus é revelada como uma vida de serviço e, relacionando com o texto da narrativa bíblica de Gênesis, o domínio atribuído ao ser humano portador da imagem de Deus é a vida de serviço compartilhada e ensinada por Jesus Cristo.

A resposta formulada é simplesmente seguir o exemplo de Jesus Cristo, considerado o “Grande Administrador”, uma vez que os seres humanos foram chamados a viver como “servos” e servos de maneira nenhuma abusam e exploram aquilo que lhes fora confiado, no caso em questão: a natureza.

Observando as propostas de mordomia de Schaeffer e Hall percebemos dois aspectos dessa ética ambiental de mordomia. Em primeiro lugar, a “mordomia” tem a sua base na exegese do texto bíblico de Gênesis 1.26-28, na expressão em

particular de “domínio”. Em segundo lugar, os defensores da mordomia defendem que o lugar dos seres humanos nessa cosmologia é de administradores, encarregados de cuidar e manter a criação no lugar do proprietário e assim, na medida que a humanidade se aproxima de maneira relacional com Cristo, tornam-se mais efetivos no cuidado com a natureza.

Essas três perspectivas, eco-justiça, teologia cósmica e mordomia procuram responder à crise ambiental existente. Porém, enquanto as duas primeiras focam no contexto social ao mesmo tempo que propõem respostas próximas a ideia panteísta e esse movimento conduz a uma inferiorização do homem não podendo responder as crises ambientais de forma efetiva. Por outro lado, a mordomia, ao buscar uma ética ambiental distintamente cristã acaba por reduzir Deus a um ser ausente, uma vez que o administrador humano surge como ator principal.

O presente trabalho abordará a perspectiva ecológica cristã do teólogo Jürgen Moltmann e, a partir de seu pensamento, ressaltará as respostas à crise ambiental, porém faz-se necessário uma breve análise da narrativa proto-histórica da bíblia hebraica.

3 A CRIAÇÃO A PARTIR DA NARRATIVA DE GÊNESIS

Antes de nos aprofundarmos na teologia ecológica de Jürgen Moltmann, nosso principal referencial teórico, faz-se necessário uma análise da narrativa proto-histórica da bíblia hebraica, uma vez que é a partir dela que se desenvolverá toda preocupação com a preservação da natureza à luz da ética ambiental cristã.

Portanto, discorreremos neste capítulo, as principais posições cristãs da criação bem como sua estrutura e organização.