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TOMO V GALEGO: DADOS DE EIRO, EIRA

2 LINGUÍSTICA HISTÓRICA, ROMANIZAÇÃO E CRIOULIZAÇÃO: REFLEXÕES SOBRE CONTATOS LINGUÍSTICOS E CULTURAIS NA ROMÂNIA

4. Crosslinguistic variability and generalization: Languages are acknowledged to vary in wide-ranging ways The crosslinguistic generalizations that do exist are explained by domain-general cognitive processes or by the

3.2.3 Morfologia Construcional

A Morfologia Construcional é um modelo proposto pelo linguista holandês Geert Booij. A primeira publicação dessa proposta foi em 2005, porém, somente em 2010, com a publicação do livro Constructional Morphology, o modelo começou a ter maior difusão, chegando ao Brasil, por meio dos estudos de Gonçalves e Almeida (2013), Soledade (2013a) e Gonçalves (2016).

Nessa obra, o autor vale-se das formulações de Goldberg, aplicando-as à morfologia. Mesmo que já tenha 15 anos de proposto, o modelo de Booij ainda não é totalmente consolidado entre os estudos morfológicos. Por isso, pode-se encará-lo ainda como um projeto recente que está em constante processo de reinterpretação e que não constitui uma tradição, sobretudo se comparado às propostas estruturalistas e gerativistas. Essa não solidez da proposta de Booij pode ser notada quando se vê que aportes teóricos da morfologia gerativa, da qual o autor é dissidente, têm sido aproveitados e reelaborados, procurando dar algum destaque para o aspecto semântico.

Para a sua proposta, Booij (2010, 2017) assume o léxico da Teoria da Entrada Plena, defendida por Jackendoff (1975, 1997). Nessa visão, palavras complexas não são pobremente especificadas no léxico, como na Teoria da Entrada Empobrecida. Segundo Booij, assumir um enfoque empobrecido do léxico desconsidera a vastidão da memória dos falantes. Por isso, não haveria razões para adotar essa abordagem econômica. Vale ainda ressaltar que, nessa proposta, assume-se uma morfologia baseada em palavras, tal qual a proposta de Aronoff (1976). Os morfemas não são considerados construções pelo autor, visto que não são um pareamento de forma e significado. Sobre esses elementos, Booij (2010) comenta, a partir de uma lista de construções previstas no modelo de Goldberg – similar ao do Quadro 2 –, que:

[...] a categoria ‘morfema’ não deveria aparecer nessa lista, porque morfemas não são signos linguísticos, i.e pareamentos independentes de forma e significado. O signo linguístico mínimo é a palavra, e a ocorrência da categoria ‘morfema’ nessa lista é para ser vista como um remanescente inapropriado da morfologia baseada em morfemas. Ao invés disso, morfemas presos formam parte dos esquemas morfológicos, e sua contribuição de significado só é acessada através do significado

da construção morfológica da qual eles formam uma parte. (BOOIJ, 2010, p. 15, tradução minha)46.

As teorias lexicais baseadas em palavras, como a de Aronoff (1976) e a de Booij (2010), distinguem-se no processo de apreensão morfológica. No modelo de Aronoff (1976), o foco foi a capacidade de os falantes depreenderem e aplicarem regras produtivas formadoras de palavras nas suas línguas. Essas regras de formação de palavras tinham caráter estritamente formal, preocupando-se com questões ligadas à categoria morfossintáticas e à inalterabilidade fonológica de bases e afixos. No modelo de Booij (2010, 2017), não se abre mão da ideia de conhecimento lexical do falante, nem se deixa de abordar a geratividade dos padrões. Porém, a compreensão do falante acerca de palavras complexas e processos formativos na sua língua é, agora, representada por meio de esquemas morfológicos, que trazem uma contraparte semântica, que não existia nas regras gerativistas.

Os esquemas morfológicos compõem um conceito basilar da Morfologia Construcional e dizem respeito à generalização que os falantes fazem de um conjunto de palavras complexas existentes. A partir da apreensão e depreensão dos esquemas, os falantes podem interpretar e criar novos itens lexicais. Segundo Booij (2010, 2017), os esquemas não devem ser compreendidos como formalizações de representações lexicais empobrecidas. Ao contrário disso, os esquemas têm duas funções básicas: (i) motivam a existência de um número consistente de palavras complexas; (ii) preveem como esse conjunto pode ser expandido por meio de uma rede de relações hierárquicas e hereditárias.

Na Morfologia Construcional, os esquemas morfológicos são representados por estruturas arbóreas com esquemas dominantes que tendem a apresentar maior generalização que os esquemas dominados47, que, dentro dessa visão, são chamados de subesquemas. Uma vez que o modelo coloca o fator semântico como central, a polissemia, advinda de metáfora, metonímia, analogia ou qualquer outro mecanismo cognitivo, pode atuar decisivamente sobre um esquema dominante, exigindo dele subespecificações que deverão se tornar mais claras por meio dos subesquemas. Novamente, a polissemia deixa de ser um fenômeno estrito da palavra e passa a ser fundamental também para a descrição da estruturação morfológica.

46“[...] the category ‘morpheme’ should not appear on this list because morphemes are not linguistic signs, i.e.

independent pairings of form and meaning. The minimal linguistic is the word, and the occurrence of the category ‘morpheme’ in this list is to be seen as an infelicitous remnant of morpheme-based morphology. Instead, bound morphemes form part of morphological schemas, and their meaning contribution is only accessible through the meaning of the morphological construction of which they form a part.” (BOOIJ, 2010, p. 15).

A visão de léxico hierárquico, defendida na Morfologia Construcional, está representada na Figura 8, extraída do trabalho de Tavares da Silva (2017).

Figura 8 – Representação do léxico hierárquico da Morfologia Construcional

Fonte: Tavares da Silva (2017, p. 38).

Na Figura 8, abaixo do nó “nome complexo”, estão os esquemas de sufixação, prefixação e composição, respectivamente. Os limites entre as representações esquemáticas de um processo ou outro não são muito claros, o que corrobora a hipótese de Goldberg de que todas as construções são pareamentos de forma e significado. Essa constatação mostra que, no âmbito da MC, independentemente de ser por prefixação, sufixação ou composição, ser uma palavra complexa e motivada por um esquema significa herdar dele informações, como forma fonológica, categoria lexical ou sintático-funcional e propriedade semântica.

Para entender o procedimento analítico da Morfologia Construcional, imaginemos que um falante do português ouve as palavras “tatuador”, “maquiador”, “cobrador”, “vendedor” e “entregador”. Ele, provavelmente, fixará em sua mente um esquema com as seguintes informações recorrentes: (i) forma fonológica–dor; (ii) categoria lexical da base verbo; (iii)

categoria lexical do constructo substantivo; e (iv) significado de agente profissional. Isso permitirá não só que ele forme novas palavras com esse esquema, mas que também interprete aquelas que ele nunca ouviu e que sejam instanciáveis por esse esquema.

Nos termos construcionais, o falante chegaria a uma formulação esquemática como “[[X]Vdor]N ↔ agente profissional envolvido em significado de XV]”. Como ele pode se

deparar, posteriormente, com construções como “apagador”, “cortador”, “aparador”, “gravador”, “computador”, “provador”, “corredor”, “seguidor” e “gozador”, ele deverá ser capaz de acionar outros esquemas com outros significados que se relacionam, de alguma maneira, com aquele de agente profissional, chegando a uma representação como a da Figura 9, extraída de Simões Neto (2017).

Figura 9 – Representação da polissemia das construções X-dor

Fonte: Simões Neto (2017, p. 470).

Nessa representação esquemática da Figura 9, o nó mais alto apresenta um esquema genérico de construções substantivas XV-dor que abrange os significados dos três esquemas

dominantes (AGENTE, LOCAL, OBJETO). Isso parece ser um artifício teórico para mostrar que eles estão interligados de alguma maneira. Os esquemas dominantes podem ainda se especializar semanticamente e reivindicarem subesquemas, como PROFISSIONAL e NÃO PROFISSIONAL, para o esquema AGENTE, e APARELHO e UTENSÍLIO, para o esquema

OBJETO. À medida que uma diferença semântica torna-se produtiva, essa pode e deve ser representada em esquemas.

Com a Morfologia Construcional, pode-se assumir que não há motivos fortes o suficiente para não abordar as questões de ordem semântica nos estudos morfológicos. Apesar do avanço na abordagem do significado, o modelo booijiano ainda tem como desafio elaborar uma melhor forma de representar as relações de significado que se estabelecem entre os esquemas e os subesquemas. O caráter generalista e hierárquico do modelo não dá conta das particularidades das palavras.