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Historicamente, “Moritz Geiger (1800-1937) pertenceu à geração de estudantes de Theodor Lipps que posteriormente se tornou interessada em fenomenologia e desenvolveu o que é conhecido como ‘Fenomenologia de Munique’” (Crespo, 2015, p. 375). Interessado, enquanto estudioso, originalmente pela psicologia e posteriormente pela fenomenologia, Geiger recebeu em 1904 “seu grau de doutorado sob a orientação de Lipps com a tese Notas sobre os Elementos dos Sentimentos e suas Relações” e estudou posteriormente com Husserl em Göttingen durante o semestre de versão do ano de 1906 (Crespo, 2015, p. 375). Recebeu sua habilitação no ano de 1907 “pelo trabalho Contribuições Metodológicas e Experimentais para a Teoria da Quantidade’ (Crespo, 2015, p. 375).

Entre as primeiras publicações, datadas no ano de 1911, constam trabalhos voltados a questões como a empatia e as formas de consciência dos sentimentos. Também publicou vários trabalhos sobre Estética. Tornou-se, em 1913, “junto com Husserl, Pfänder, Reinach e Scheler, um dos editores do Jahrbuch für Philosophie und phänomenologische Forschung” e,

em 1923, se tornou um “professor ordinário na Universidade de Gottingen, onde permaneceu até 1933, quando o Regime Nazista forçou-o a renunciar por causa de suas origens judias”, tendo por isso no mesmo ano imigrado para os Estados Unidos onde “trabalhou como professor ordinário na Vassar College até sua morte em 1937” (Crespo, 2015, p. 376).

Dessa forma, “apesar de sua morte precoce, Geiger foi capaz de escrever uma ampla variedade de publicações e pronunciar numerosas conferências”, sendo o escopo de suas áreas de competência variado, indo desde a “matemática à estética, cobrindo a Existenzphilosophie (isto é, existencialismo no sentido de Kierkegaard e Jaspers)”, tendo deixado também “importantes contribuições para a psicologia experimental durante os primeiros anos de sua carreira acadêmica” (Crespo, 2015, p. 376). Ainda, entre as contribuições de Geiger à fenomenologia, consta o “estudo fenomenológico sobre o gozo estético” assim como suas investigações voltadas “ao problema do inconsciente de acordo com pautas fenomenológicas” (Quepons, 2015b, p. 159).

Dessa maneira, entre as importantes publicações de Geiger desenvolvidas no marco da fenomenologia, temos o supracitado trabalho denominado A consciência dos sentimentos, publicado em 1911, como importante contribuição ao debate existente entre os psicólogos e filósofos alemães, no final do século XIX e início do século XX, a respeito do modo como somos conscientes de nossos sentimentos e sobre a possibilidade de estudá-los e descrevê-los sem alterá-los em sua manifestação consciente atual e passageira (Averchi, 2015). Com isso, para que possamos compreender o lugar e o significado desse trabalho de Geiger no interior do pensamento em que este surgiu, necessitamos recuperar alguns elementos ligados ao plano de fundo histórico e espistemológico com o qual esteve em relação.

O trabalho de Geiger sobre a consciência dos sentimentos se vincula ao debate presente no período relativo aos primeiros trabalhos e desenvolvimentos da Psicologia como ciência independente, tendo com isso o significado e a intenção de superação de alguns dos

impasses despontados no interior do campo de estudo psicológico sobre os afetos, desde os modelos da Psicologia científica recém-inaugurada que se inspirava, em termos de suas bases metodológicas e epistemológicas, a partir do modelo de observação das ciências da natureza a partir do método experimental, peculiarmente transposto e trazido para domínio da Psicologia (Averchi, 2015; Goto, 2008).

Sendo assim, o trabalho de Geiger se encontra historicamente em relação crítica com a psicologia experimental de Wilhem Wundt, tal como apresentada em seu trabalho inicial, que se fundamentava no método da observação interna. Orientada na tentativa de “preencher o vão entre a fisiologia e a psicologia”, a psicologia de Wundt, assim concebida, se compreendia como um programa de pesquisa de dupla orientação, orientado em “descobrir como as estruturas e funções do corpo afetam os processos mentais - como no caso das impressões sensoriais - e como os processos mentais afetam as estruturas e funções do corpo - como no caso do movimento voluntário”, em busca de acessar, portanto, os fenômenos psíquicos a partir dessas duas perspectivas (Averchi, 2015, p. 72).

Para isso, o psicólogo interessado em desenvolver esse tipo de psicologia experimental deveria se submeter a um intenso treinamento para aprender e aperfeiçoar um estilo de observação caracterizada como observação interna dos processos mentais em andamento em uma atitude de tipo teorético, como espectador desinteressado, que se compreendia necessário para a aquisição e desenvolvimento do saber científico. Dessa maneira, para “apreender os elementos constitutivos e as relações entre eles” dos processos mentais, seria preciso aprender a executar a observação interna enquanto uma visada neutra e aguda em direção ao interior dos mesmos (Averchi, 2015, p. 73).

No entanto, tomando em consideração a questão específica do estudo dos sentimentos, parecia que a psicologia experimental de tal maneira concebida por Wundt e seus seguidores encontrava-se num impasse. Era preciso saber se os sentimentos poderiam ser estudados a

partir dessa visada neutra e aguda, propriamente a observação interna, no sentido que sua concepção científica impunha. Nesse sentido, dada sua natureza peculiar desse objeto de estudo, os críticos dessa concepção apontavam que os sentimentos seriam resistentes a esse tipo de observação desinteressada e analítica em vista de seu próprio conteúdo consciente.

Sendo assim, tendo em vista a concepção de que “quando o sentimento surge, ele imbui a consciência”, numa investigação wundtiana, para se observar um sentimento, seria preciso que a consciência estivesse, simultaneamente, “imbuída pelo sentimento e d esligada ao olhar para ele” (Averchi, 2015, p. 73). Por esta razão, “muitos contemporâneos de Wundt consideraram esta conclusão como uma patente contradição, que lançava uma sombra na confiabilidade metodológica da psicologia experimental”, assinalando que no caso dos sentimentos a observação analítica estaria simplesmente comprometida, pois que na execução desta se exige um grau correspondente de desprendimento, o que entra em contradição com a maneira de manifestação dos sentimentos que tendem a impregnar o campo da consciência, de modo que fica explícito o impasse metodológico constitutivo para o estudo científico dos sentimentos, segundo o modelo psicológico da época (Averchi, 2015, p. 73).

Nesse cenário histórico de discussão sobre os sentimentos, enquanto contribuição alternativa aos modelos vigentes baseados no método experimental, desponta também a contribuição da psicologia descritiva de Franz Brentano, que publicou sua obra principal Psicologia do ponto de vista empírico (Psychologie vom empirischen Standpunkt) no mesmo ano de 1874 em que Wundt publicou seu importante trabalho onde fundamentou a sua concepção de psicologia experimental, denominado Princípios de Psicologia Fisiológica (Grundzüge der physiologischen Psychologie). Assim como Wundt, Brentano “se esforçou com o desenvolvimento de uma psicologia científica, livre do fardo metafísico da psicologia tradicional”, contudo procurou realizar esse percurso de maneira diversa daquela buscada pelo primeiro, antecipando “várias das críticas derrade iras ao método de Wundt sobre a observação

dos sentimentos” (Averchi, 2015, p. 73). Dessa maneira, Brentano negava explicitamente a acessibilidade dos sentimentos à observação interna, explicitando que “não podemos observá- los com o olhar neutro do cientista, ou nós assumimos o olhar neutro do cientista” ou não podemos experienciar os sentimentos, considerando que “o caso dos sentimentos tornam claro que a observação interna altera o modo original de dação dos fenômenos psíquicos” (Averchi, 2015, p. 73).

Desse modo, a psicologia científica tal como concebida por Brentano não precisaria se fundamentar no solo pouco confiável da observação interna, baseada no modo neutro e analítico considerado como única forma de produção de saber científico. Para Brentano, a psicologia descritiva poderia estudar os sentimentos a partir da consciência pré-teorética, sem a necessidade de transformar essas experiências em objetos de uma observação neutra, nesse modo desinteressado e sobreposto, como prevê o método da observação interna de Wundt. Ao invés, de acordo com Brentano, os psicólogos poderiam “recordar pela memória as experiências que tiveram, e observar a recordação”, de modo que “uma psicologia cientificamente descritiva assim requeria um método de duas etapas: a percepção interna de um processo mental e, subsequentemente, a observação interna da recordação do processo mental” (Averchi, 2015, p. 73). A visada teorética do psicológo descritivo viria neste segundo momento em que poderia se voltar às “cópias enfraquecidas, provenientes da memória, dos processos mentais originários”, de modo que também exigiria “um cuidado metodológico especial da parte do psicólogo, mas isso não minaria a validade da psicologia descritiva, visto que as cópias dos estados mentais provenientes da memória eram próximas o suficiente das originais” (Averchi, 2015, p. 73).

Com essa breve reconstituição histórico-conceitual da concepção metodológica da Psicologia a partir dos dois autores mencionados, Wundt e Brentano, temos também a contribuição de Geiger, que, juntamente com seu professor em Munich, Theodor Lipps,

prontamente se posicionavam em favor de Brentano, no sentido de sua abordagem metodológica peculiar, que basicamente concebia a impossibilidade de se estudar os processos psíquicos ligados aos sentimentos no momento de sua suscitação originária, de modo que apenas podemos analisá-los a partir de sua recuperação posterior a partir das recordações. Além disso, em seu artigo sobre a consciência dos sentimentos, Geiger tece um rico conjunto de descrições fenomenológicas e propõe considerações metodológicas sobre os modos peculiares de seu acesso consciente e sobre as condições epistemológicas do estudo científico relativo às vivências afetivas, com base em um estudo cuidadoso de nossa própria experiência (Averchi, 2015).