Numa formação social, marcada pela divisão de classes e por uma complexa rede de organização social, a adolescência tem que ser compreendida dentro das especificidades históricas, socioeconômicas, políticas e culturais (MINAYO, 2009).
O drama da juventude perdida possui duas faces. De um lado a perda de vidas humanas e do outro, a falta de oportunidades educacionais e laborais que condenam os jovens a uma vida de restrição material e de anomia social, que terminam por impulsionar a criminalidade violenta (CERQUEIRA et al., 2017). A forma como um adolescente vê a si próprio, seus valores, sua competência e o mundo que o cerca pode ser afetada pelo grau de violência a que é submetido ao longo de sua vida (ASSIS et al., 2004).
Entretanto, é nesta fase também que os jovens se abrem para o mundo e por isso se tornam mais expostos e vulneráveis aos riscos de serem vítimas de eventos violentos. Nessa ambiguidade, os jovens vivenciam, por um lado, as tensões e ansiedades geradas por uma identidade constantemente ameaçada e que necessita ser reforçada por meio de comportamentos reafirmadores, viris e agressivos, tornando-os agentes de violência, e por outro, a exposição a agressões e outras formas de violência que estes comportamentos propiciam transformam-nos em alvo da violência (SOUZA, 2005).
Jovens estão imersos em contextos nos quais se manifestam distintas violências. A violência estrutural submete os jovens a situações de extrema desigualdade e exclusão pela falta de acesso à escola, educação de qualidade e profissionalização, o que os impede de integrar-se ao mercado de trabalho formal possibilitando a sua inserção no mercado informal, em situações de subemprego ou mesmo a ociosidade (SILVA, 2014).
A morte violenta de jovens, sobretudo nos grandes centros urbanos, é um problema que vem desde a década de 1980 (RUOTTI et al., 2014). Nas faixas etárias que compreendem os adolescentes e os adultos jovens, dos 15 aos 29 anos, as taxas são extraordinariamente mais altas do que as verificadas na população geral (SOUZA; LIMA, 2007).
Está em curso no país um processo gradativo de vitimização letal da juventude, em que os mortos são jovens cada vez mais jovens. Os dados mostram um recrudescimento do problema, uma vez que, entre 2005 e 2015, observou-se um aumento de 17,2% na taxa de homicídio de indivíduos entre 15 e 29 anos. A taxa de homicídios de jovens em 2015 foi de 60,9 para cada grupo de 100 mil jovens (CERQUEIRA et al., 2017).
Algumas publicações mostram que a mortalidade de jovens no Brasil acontece de forma seletiva. De acordo com o Relatório de Vulnerabilidade Juvenil à Violência, 2014, “o panorama nacional apresenta taxa de homicídio entre jovens negros 155% maior que de jovens brancos” (BRASIL, 2015c, p. 23). Segundo o atlas da violência 2017, a taxa de homicídios de negros teve aumento de 18,2% entre 2005 e 2015. De cada 100 pessoas que sofrem homicídio no Brasil, 71 são negras. Jovens e negros do sexo masculino continuam sendo assassinados todos os anos como se vivessem em situação de guerra (CERQUEIRA et al., 2017).
Dessa maneira, as políticas públicas voltadas a esses jovens têm sido marcadas pela repressão, prisão e extermínio. É, portanto, uma juventude pobre comumente criminalizada e estigmatizada, colocada na chamada situação de risco, ou seja, culpabilizada e responsabilizada pela sua saúde e segurança, de tal modo a isentar as instâncias sociais e as políticas públicas como agentes de atuação frente às demandas das juventudes (SINHORETTO, 2014). A associação entre violência, pobreza e cidadania, passando pela dimensão territorial, tem interrompido vidas de uma geração de jovens no país (MEDEIROS; MALFITANO, 2015).
O Índice de Vulnerabilidade Social (IVS), construído a partir de indicadores do Atlas do Desenvolvimento Humano (ADH) no Brasil, destaca diferentes situações indicativas de exclusão e vulnerabilidade social no território brasileiro. Assim,
“O IVS traz dezesseis indicadores estruturados em três dimensões, a saber, infraestrutura urbana, capital humano e renda e trabalho, permitindo um mapeamento singular da exclusão e da vulnerabilidade social para os 5.565 municípios brasileiros (conforme malha municipal do Censo demográfico 2010) e para as Unidades de Desenvolvimento Humano (UDHs) das principais regiões metropolitanas (RMs) do país. Varia entre 0 e 1. Quanto mais próximo a 1, maior é a vulnerabilidade social de um município. Para os municípios que apresentam IVS entre 0 e 0,200, considera-se que possuem muito baixa vulnerabilidade social. Valores entre 0,201 e 0,300 indicam baixa vulnerabilidade social. Aqueles que apresentam IVS entre 0,301 e 0,400 são de média vulnerabilidade social, ao passo que, entre 0,401 e 0,500 são considerados de alta vulnerabilidade social. Qualquer valor entre 0,501 e 1 indica que o município possui muito alta vulnerabilidade social” (IPEA, 2015c, p. 12).
Em 2000, o Brasil apresentava IVS igual a 0,446. Este valor indica que o país encontrava-se na faixa da alta vulnerabilidade social. Passados dez anos, a vulnerabilidade
social é reduzida a 0,326, trazendo o país para a faixa do médio IVS, num avanço equivalente a 27% em direção a níveis mais baixos de vulnerabilidade social (IPEA, 2015).
Na região Norte, 41,9% dos municípios estão no grupo de IVS muito alto. O estado que apresenta maior percentual de municípios nessa faixa do IVS é o Amazonas, com 80,6%. Na região Nordeste, quase metade dos municípios (47,7%) estão agrupados na faixa do IVS alto. Outros 32,4% estão na faixa de muito alta vulnerabilidade social. Alagoas e Maranhão apresentam maior percentual de alta vulnerabilidade, 96,1% e 95,4%, respectivamente. A região Centro-Oeste tem a maioria dos municípios (48,5%) na faixa de baixa vulnerabilidade social. Apenas três municípios (0,6%) estão na faixa da muito alto IVS. No sudeste, a maior parte dos municípios (48,8%) está na faixa de baixa vulnerabilidade social. A região Sul é a região que apresenta a maior quantidade de municípios na faixa de muito baixa vulnerabilidade social. Ao todo são 341 municípios, ou 28,7% (IPEA, 2015).
Especialistas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontaram que “o acúmulo de vulnerabilidades sociais e a ausência de políticas públicas representam fatores de risco associados à violência homicida” (BRASIL, 2015d, p. 21).
Já o Índice de Vulnerabilidade Juvenil (IVJ) é uma síntese dos indicadores: taxa de frequência à escola, escolaridade, inserção no mercado de trabalho, taxa de mortalidade por causas externas, taxa de mortalidade por causas violentas, valor do rendimento familiar mensal e risco relativo de brancos e negros serem vítimas de homicídio (BRASIL, 2015c). Os resultados desse índice mostram que a situação de vulnerabilidade dos jovens da Região Norte é menor se comparados os índices aos dos estados do Nordeste. Enquanto nesta região o índice varia entre 0,38 e 0,60, na outra a variação é entre 0,037 e 0,49. No Centro-Oeste, o Distrito Federal apresenta o menor índice de vulnerabilidade (0,294), seguido por Mato Grosso do Sul (0,377), e Goiás (0,384). A mais grave situação de vulnerabilidade juvenil encontra-se no Mato Grosso, com índice de 0,439. Na Região Sul, os valores do índice se assemelham aos do Centro-Oeste, que variam entre 0,294 e 0,439. Assim, o estado do Rio Grande do Sul (0,230) tem o menor índice, seguido por Santa Catarina (0,252). Com situação de maior vulnerabilidade juvenil encontra-se o estado do Paraná (0,408). O estado de São Paulo apresenta o menor Índice de Vulnerabilidade (0,200), seguido por Minas Gerais (0,280) e Rio de Janeiro (0,309). A mais grave situação de vulnerabilidade juvenil, no entanto, encontra-se no Espírito Santo, aonde o IVJ chega a 0,496.
Os perfis de vulnerabilidade e vitimização no Brasil são bem característicos. Os negros (somatória de pretos e pardos) representam 50,7% da população do país e corresponderam a 72,0% das mortes, a despeito dos 26,0% de mortes de brancos e amarelos, num total de 50.715 mortes em 2013 com o campo raça/cor preenchidos. Nisso,
“Os jovens com idade entre 15 e 29 anos estão no topo da pirâmide das mortes causadas por homicídio no país e o percentual de mortes dessa parcela da população chega a 52,9% do cômputo geral (dados do MS/Datasus). Quando os dados sobre os jovens são desagregados por cor/raça, esse percentual é ainda maior e mostra desproporção, com grande concentração de mortes para jovens negros, cuja taxa por 100 mil habitantes é 79,4. Nas regiões NE e N, cujos percentuais somados representam 50,6% do total de homicídios do país em 2013, os jovens negros representaram 83,3% dos jovens vitimados nessas regiões. (dados do MS/Datasus)” (BRASIL, 2015c, p. 36-37).
A questão racial também tem reflexos no encarceramento brasileiro. Segundo o atual ‘Mapa do Encarceramento: os jovens do Brasil’, aumentou gradativamente a população negra aprisionada em relação à branca. Segundo esta publicação, em 2005 havia 92.052 negros presos para 62.569 brancos; considerando-se a parcela da população carcerária para a qual havia informação sobre cor disponível, 58,4% era negra. Já em 2012 havia 292.242 negros presos e 175.536 brancos, ou seja, 60,8% da população prisional era negra (BARBOSA; COELHO, 2017).
É a violência invisível ou original que se codifica na violência visível, cujas expressões devem ser entendidas, pois, como formas de vocalização dos sujeitos não reconhecidos, rejeitados e marcados pela exclusão e pela discriminação social (MINAYO, 2006).
Qualquer forma de violência, porém, tem que ser vista em rede. O assassinato de adolescentes supostamente delinquentes tem que ser articulado com a violência estrutural que lhes limita o "possível social"; com a violência do Estado cuja face repressiva é quase a única que esses jovens conhecem; com a violência organizada dos grupos de narcotráfico que lhes oferecem vantagens imediatas; com a violência individual de cada um que tenta se defender, numa sociedade onde os direitos humanos e civis são quase um sonho a conquistar (MINAYO, 2009).
A implantação de políticas alternativas, integradoras e sobretudo inclusivas, dirigidas para os jovens poderia diminuir os índices de violência e, portanto, resolveria parcela
considerável do problema. Entretanto, também é necessário realizar uma profunda reflexão sobre os valores, as formas de socialização e a construção das identidades masculina e feminina nas sociedades atuais (SOUZA, 2005).
A magnitude e o crescimento nas taxas de mortalidade por homicídio entre jovens é de especial importância, dado o seu forte impacto social. Já em 1997 os homicídios constituíram- se na primeira causa de anos potenciais de vida perdidos (APVP) no País, responsáveis por 17,8% do total de causas mortis (PERES, 2004).
Segundo Cerqueira et al (2013), cálculos mostraram que as violências podem fazer reduzir a expectativa de vida ao nascer em até quase três anos para os homens. E apresenta um custo anual com vitimização violenta dos jovens pode corresponder até 6% do PIB estadual. No quadro geral, a morte prematura de jovens devido às violências custa ao país cerca de R$ 79 bilhões a cada ano, o correspondente a cerca de 1,5% do PIB nacional.
A importância da violência em nossas cidades não se resume a uma questão quantitativa pelo número de pessoas atingidas - é a abrangência e a complexidade do fenômeno, na atualidade, o que mais preocupa. É a nova faceta da criminalidade ligada ao crime organizado que gera insegurança nos cidadãos, interfere no território e se torna um poder paralelo ao do Estado (FERREIRA; PENNA, 2005).
Segundo Abramovay et al. (2002), a pobreza e a distribuição de renda tão somente não medem as consequências das mortes violentas, há outros motivos causadores. Falta uma política de segurança no território brasileiro compatível com as problemáticas (SOARES, 2007).
Estimativas sobre o custo da violência são importantes, pois dão a dimensão econômica do problema e constituem um elemento crucial para o planejamento das políticas públicas. Para além dos custos agregados da violência, contudo, uma política de segurança pública orientada para a racionalidade e eficácia deveria ainda considerar o custo-efetividade ou o benefício-custo dos programas de prevenção e controle ao crime e violência, da forma como são pensadas as intervenções estatais nos países desenvolvidos, uma realidade, infelizmente, muito distante da brasileira (CERQUEIRA et al., 2013).
O custo para os países das perdas desses jovens são imensuráveis e irreparáveis. É uma perda para as famílias e para a sociedade de forma geral, e expressivamente para a economia do país. Enquanto as representações governamentais não reagirem com políticas
consistentes, se continuará a assistir a esse extermínio movido pela violência como forma de expressão.