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Era uma aldeia singela, semelhante a todas outras pelas quais se passava quando se dava uma volta pelas zonas rurais da Nova Inglaterra (EUA) em 1917. Bastaria, aliás, fechar os olhos por um segundo para nem sequer a ver. Situada numa região de mato cerrado a 56 quilómetros a norte de Boston, Ayer tinha menos de 300 casas rurais, além de uma igreja e de meia dúzia de esta‑

belecimentos comerciais. E, se não fosse o caso de a aldeia estar no cruzamento das vias férreas de Boston, Maine, Worchester e Nashua e de ter duas estações de comboios, pouco haveria que a recomendasse. Mas, na primavera de 1917, quando a América se organizou para entrar na guerra e os estrategas militares come‑

çaram à procura de locais para treinarem os milhares de homens alistados, as estações ferroviárias e os campos vazios fizeram de Ayer uma povoação especial, com particularidades até invulgares.

Talvez tenha sido por isso que, em maio de 1917, houve alguém que, em Washington D. C., espetou um alfinete com uma bandeira vermelha num mapa do condado de Lowell, no Massachusetts, e declarou Ayer como local de acantonamento da nova 76.a Divisão do Exército dos EUA.

No início de junho foram assinados os contratos de arrenda‑

mento com os proprietários de cerca de 3640 hectares de terreno

baldio e desprovido de árvores, adjacentes ao rio Nashua, e, duas semanas mais tarde, chegaram os engenheiros que transforma‑

ram o terreno num campo adequado aos doughboys* do major‑

‑general John Pershing. Num período de apenas dez semanas, os engenheiros construíram 1400 edifícios, instalaram 2200 cabinas de duche e quase cem quilómetros de tubos de aquecimento.

Com uma área aproximada de 11 por 3 quilómetros, este novo campo militar dispunha de um restaurante próprio, de uma padaria, de um teatro e de 14 cabanas para leitura e confrater‑

nização, além de um posto de correio e telegrafia. Quando os recrutas chegavam de Ayer — à distância de 800 metros a pé, atravessando a linha de caminhos de ferro de Fichtburg —, o que primeiro viam era o enorme auditório da Associação Cristã de Rapazes (YMCA, na sigla inglesa) e as casernas do 301.o Corpo de Engenheiros. À direita ficavam as casernas das 301.a, 302.a e 303.a divisões de infantaria e, mais perto, as que eram destinadas à artilharia de campo e à brigada de aprovisionamento, que se encarregava da receção e do treino inicial dos recrutas. Mais à frente havia campos para a instrução e para a aprendizagem do uso de baionetas e um hospital de 800 camas que também era dirigido pela YMCA.

No total, o acantonamento era capaz de acolher 30 mil homens.

Mas, ao longo da semana seguinte, à medida que chegavam recrutas acabados de alistar do Maine, de Rhode Island, do Connecticut, de Nova Iorque e do Minnesota, e mesmo do longínquo Sul (como a Florida), as casernas toscas de madeira enchiam ‑se ainda mais, chegando a acolher para cima de 40 mil homens, o que obrigou os engenheiros a erguerem tendas para os que já não cabiam nos alojamentos existentes. Reconhecendo a importância do local para o comando militar do Nordeste, o acantonamento foi batizado

* A alcunha de doughboys («rapazes enfarinhados») parece dever ‑se ao hábito de os soldados americanos na Primeira Guerra Mundial usarem argila para limparem os ornamentos das suas fardas, argila essa que, com chuva, se transformava numa massa que parecia feita de farinha. [N. T.]

Camp Devens em honra do general Charles Devens, um advogado de Boston que fora comandante militar da União na Guerra Civil e cujos soldados foram os primeiros a ocupar Richmond depois de a cidade ter caído, em 1865. Como escreveu Roger Batchelder, um propagandista ao serviço do Ministério da Guerra, ao admirar Camp Devens de uma colina próxima de Ayer em dezembro de 1917, o acantonamento parecia não ser mais do que uma «gigan‑

tesca cidade de soldados»1. O que este observador não disse foi que Devens também representava uma experiência imunológica sem precedentes. Nunca, até então, tinham sido reunidos tantos homens de diferentes estratos sociais — operários fabris e agrí‑

colas, maquinistas e licenciados — em tão grande quantidade e obrigados a viver tão juntos.

Camp Devens não foi o único acantonamento a ser apressada‑

mente construído nesse verão, nem tão pouco foi o maior. No total, todos os recrutas destinados à Força Expedicionária Americana (FEA) foram enviados para 40 grandes campos em todo o território dos Estados Unidos para fazerem a instrução. Alguns, como Camp Funston, construído no terreno de um antigo forte de Cavalaria em Fort Riley, no Kansas, chegou a receber 55 mil homens. Entretanto, no lado oposto do Atlântico, em Étaples, no norte de França, os Britânicos construíram um campo ainda maior. Ocupando as terras baixas junto à via férrea Bolonha ‑Paris, Étaples disponibilizou camas de campanha para cem mil soldados britânicos e dos vários territórios do Império e camas hospitalares para 22 mil pessoas.

Estima ‑se que, no decurso da guerra, tenham passado por Étaples cerca de um milhão de soldados a caminho do Somme e de outros campos de batalha.

As instalações destes campos também não eram sempre tão boas como os apoiantes da guerra sugeriam. Na realidade, em muitos casos a mobilização fora tão rápida que os engenheiros foram incapazes de terminar a construção de hospitais e de outras estruturas médicas a tempo, e as casernas tinham frequentemente tantas correntes de ar que os homens se viam forçados a juntarem ‑se à volta de salamandras ao fim do dia para se manterem quentes,

dormindo à noite com camadas extras de roupa. Houve quem visse isto, como foi o caso de Batchelder, como uma maneira de os recrutas ficaram mais fortes e mais capazes de enfrentarem as dificuldades da guerra de trincheiras no norte de França. «Está frio em Ayer, mas […] o tempo frio entusiasma; habitua à vida no exterior os homens que sempre viveram em casas quentes.»2 Outros, porém, criticavam o Ministério da Guerra por ter escolhido um sítio tão a norte, dizendo que teria sido melhor que Devens se situasse no Sul, onde o tempo era mais afável.

Na realidade, o perigo principal não era tanto o frio como o excesso de população. Ao reunir homens de tantas origens imu‑

nológicas diferentes e ao obrigá ‑los a viverem tão juntos durante semanas a fio, os organizadores da mobilização fizeram com que aumentasse, em muito, o risco de as doenças transmissíveis pas‑

sarem de um homem para outro. É certo que as guerras têm sido sempre incubadoras de doenças. Mas o que houve de diferente em 1917 foi a dimensão do número de homens convocados e a mistura de pessoas que haviam sido criadas em ambientes ecoló‑

gicos muito diferentes. Nas áreas urbanas, onde as populações são mais densas, as hipóteses de alguém estar exposto ao sarampo ou aos patógenos respiratórios comuns, como o Streptococcus pneu‑

moniae e o Staphylococcus aureus, é muito mais elevada e ocorre, geralmente, na infância. Por contraste, numa época anterior aos carros e autocarros, em que as crianças criadas nas zonas rurais tendiam a ser educadas em escolas primárias próximas de suas casas, muitas eram poupadas à exposição ao sarampo. E poucas teriam sido expostas ao Streptococcus pyrogenes e a outras bactérias hemolíticas que causam a faringite estreptocócica. O que isto originou — à medida que o Exército dos EUA crescia de 378 mil efetivos em abril de 1917 para uma força de 1,5 milhões de homens no início do ano de 1918 (no fim da guerra, em novembro de 1918, a força conjunta do Exército e da Marinha dos EUA chegava aos 4,7 milhões de homens) — foi a erupção de epidemias de sarampo e de pneumonia nos campos de toda a orla costeira oriental e em vários estados do Sul3.

Antes da introdução dos antibióticos, a pneumonia era respon‑

sável por cerca de um quarto de todas as mortes registadas nos EUA. Estas pneumonias podiam ser desencadeadas por bactérias, vírus, fungos ou parasitas, mas, de longe, a maior fonte dos surtos que surgiam nas comunidades eram as bactérias pneumocóci‑

cas (Streptococcus pneumoniae). Ao microscópio, estas bactérias pneumocócicas são parecidas com qualquer outro estreptococo.

No entanto, um dos traços invulgares do Streptococcus pneumoniae é o facto de possuir cápsulas de polissacarídeo (açúcar) que o pro‑

tegem de secar quando em contacto com o ar, ou de ser ingerido por fagócitos, uma das principais defesas celulares do sistema imu‑

nitário. Aliás, numa expetoração húmida mantida num ambiente escurecido, os pneumococos podem sobreviver até dez dias nas superfícies dos objetos.

Em todo o mundo há mais de 80 subtipos de bactérias pneu‑

mocócicas, diferindo entre si pela constituição da sua cápsula.

Na maior parte dos casos, estas bactérias residem no nariz e na garganta sem causarem doença, mas, se o sistema imunitário de uma pessoa estiver debilitado ou comprometido por outra doença, como o sarampo ou a gripe, a bactéria pode vencê ‑lo, desencadeando infeções pulmonares potencialmente perigosas. Tipicamente, estas infeções começam como uma inflamação dos alvéolos pulmona‑

res, os sacos microscópicos que absorvem oxigénio nos pulmões.

À medida que as bactérias invadem os alvéolos, são perseguidas por leucócitos e outras células imunitárias e ainda por fluidos que contêm proteínas e enzimas. Quando os sacos de ar se enchem, ficam «consolidados» com essas matérias, o que dificulta a transfe‑

rência do oxigénio para o sangue. Habitualmente, esta consolidação aparece em zonas que rodeiam os brônquios lobulares: as passagens que partem dos brônquios, o tubo que transporta o ar da traqueia para os pulmões à direita e à esquerda. Quando esta consolidação está localizada, é conhecida como broncopneumonia. No entanto, em infeções mais graves, esta consolidação pode espalhar ‑se através da totalidade dos lobos (o pulmão direito tem três e o esquerdo dois), transformando os pulmões numa massa sólida e parecida

com o fígado. O efeito que causa no tecido pulmonar é terrível.

Um pulmão saudável é esponjoso e poroso e é um bom condutor de som. Quando um médico escuta a respiração de um paciente saudável através de um estetoscópio, deve ouvir muito pouco.

Mas, pelo contrário, um pulmão congestionado conduz o som da respiração através da parede formada pelo peito, dando origem a estalidos ou crepitações que têm o nome de estertores.

No período final da era vitoriana e eduardina, a pneumonia seria, talvez, a doença mais temida depois da tuberculose, sendo quase sempre fatal, especialmente entre os idosos ou aqueles cujos sis‑

temas imunitários estavam já comprometidos por outras doenças.

Duas das suas vítimas mais conhecidas foram o 9.o presidente dos Estados Unidos, William Henry Harrison, que morreu em 1841, um mês depois de ter sido empossado, e o general da Confederação Thomas Jonathan «Stonewall» Jackson, que morreu em 1863, de complicações geradas pela pneumonia, oito dias depois de ter sido ferido na Batalha de Chancellorsville. Outra vítima foi o neto da rainha Vitória, o duque de Clarence, que sofreu um ataque fatal de dupla pneumonia lobular depois de ter contraído a «gripe russa»

em Sandringham no inverno de 1892. Não admira que Sir William Osler, considerado o pai da medicina moderna, tenha classificado a pneumonia como «Capitã dos Homens da Morte»4.

Quando contraído na infância, o sarampo resulta habitualmente numa inflamação de pele com febre alta, tosse violenta e sensi‑

bilidade à luz, mas, no caso do sarampo contraído nos campos militares, os sintomas revelaram ‑se muito mais graves. Os surtos deram origem às mais elevadas taxas de infeção com que o Exército se deparara em 97 anos e foram, muitas vezes, acompanhados por broncopneumonias agressivas. O que teve como resultado que, entre setembro de 1917 e março de 1918, mais de 30 mil soldados americanos foram hospitalizados com pneumonia, quase todos em resultado de complicações associadas ao sarampo, tendo mor‑

rido cerca de 5700. A extensão dos surtos apanhou de surpresa até os médicos com maior experiência de combate, como Victor Vaughan, deão da Faculdade de Medicina da Universidade do

Michigan e veterano da Guerra Hispano ‑Americana. «Não houve um comboio de transporte de tropas que não chegasse a Camp Wheeler (perto de Macon, na Geórgia) no outono de 1917 com um a seis casos de sarampo já na sua fase eruptiva», escreveu.

«Estes homens trouxeram a infeção de suas casas e espalharam a sua semente no campo do estado e no comboio. Nenhum poder da Terra poderia travar a disseminação do sarampo num campo nestas circunstâncias. Os casos foram ‑se desenvolvendo, passando de cem a 500 por dia, e a infeção prosseguiu enquanto houve matéria vulnerável no campo», salientou5.

Na primavera de 1918, o Ministério da Guerra foi censurado pelo Congresso por enviar recrutas para campos de treino que não estavam completamente prontos e que se encontravam em condi‑

ções que não respeitavam os padrões básicos de saúde pública e, em julho, o Ministério pôs no terreno uma comissão para inves‑

tigar a invulgar prevalência de pneumonia nos grandes acanto‑

namentos militares. A comissão era, no seu conjunto, a futura nata da medicina americana, incluindo Eugenie L. Opie, que seria diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington, Francis G. Blake, mais tarde professor de medicina interna na Universidade de Yale, e Thomas Rivers, que viria a ser um dos mais destacados virologistas mundiais e diretor do hospital da Universidade Rockefeller em Nova Iorque. A assisti ‑los, na estru‑

tura do serviço de saúde dos EUA e com o posto de comandantes, encontravam ‑se Victor Vaughn e William H. Welch, diretor da Faculdade de Medicina Johns Hopkins e nessa altura o mais famoso patologista e bacteriologista da América, e Rufus Cole, primeiro diretor do hospital da Universidade Rockefeller e especialista em doenças pneumocócicas. Juntamente com o seu assistente Oswald Avery, Cole iria dirigir pesquisas laboratoriais sobre os surtos de pneumonia e ministrar a oficiais médicos as técnicas corretas para fazer a cultura da bactéria, obter soros sanguíneos e produzir vacinas. Entretanto, a supervisionar as suas atividades estaria Simon Flexner, que chefiava o Instituto Rockefeller e que fora aluno e protegido de Welch.

* * *

Enquanto os médicos americanos andavam preocupados com os casos de sarampo e de pneumonia contraídos nos campos de acantonamento, os médicos do Exército britânico ocupavam ‑se, por seu turno, de outra doença respiratória. Designada por «bron‑

quite purulenta» à falta de melhor expressão, a doença eclodira em Étaples no inverno terrivelmente severo de 1917 e, em fevereiro, já havia 156 soldados mortos. As fases iniciais eram parecidas com a pneumonia lobular normal: febre alta e expetoração com laivos de sangue. Mas estes sintomas deram rapidamente lugar a pulsações aceleradas com a expulsão de pedaços espessos de pus de cor amarelo ‑pálida, o que indicava tratar ‑se de bronquite.

Em metade destes casos, sucedia ‑se a morte por «bloqueio pulmo‑

nar» pouco tempo depois.

Outro elemento de destaque era a cianose. É uma situação que ocorre quando o paciente sente dificuldade em respirar porque os pulmões já não conseguem transferir eficazmente oxigénio para o sangue, caracterizando ‑se por uma descoloração escurecida de um roxo ‑azulado que afeta o rosto, os lábios e as orelhas (é o oxi‑

génio que ao oxidar o ferro da hemoglobina torna o sangue arterial vermelho ‑vivo). No entanto, no caso dos doentes de Étaples, a sua incapacidade de respirar era tão severa que chegavam a rasgar as roupas das camas em desespero. Ao realizar as autópsias, o pato‑

logista William Rolland ficou chocado ao descobrir pus espesso e amarelado a bloquear os brônquios. Nos brônquios maiores, o pus estava misturado com o ar, mas, ao cortar uma parte através dos tubos mais pequenos, descreveu assim o que viu: «O pus escorre espontaneamente […] com pouca, ou nenhuma, mistura de ar.»6 Isto explicava por que motivo é que de pouco serviam as tentativas de aliviar os sintomas dos doentes com ventilação de oxigénio. Esta doença peculiar não apareceu apenas no campo militar de Étaples.

Em março de 1917 apareceu um surto semelhante em Aldershot, a «Sede do Exército Britânico», no sul de Inglaterra. Mais uma vez, a doença revelou ‑se mortífera para metade dos infetados,

sendo a sua marca a exsudação de pus amarelado, a que se seguia a incapacidade de respirar e a cianose. Quanto aos doentes cia‑

nóticos, assinalaram os médicos, «não há tratamento que possa‑

mos encontrar que pareça fazer ‑lhes qualquer bem». Em alguns, a respiração acelerada fazia lembrar «os efeitos do envenenamento por gás»7, mas, mais tarde, os bacteriologistas e os patologistas que examinaram os casos de Aldershot e de Étaples convenceram‑

‑se de que estavam perante uma variante de gripe (influenza)8. A gripe era de há muito reconhecida como um elemento capaz de desencadear infeções brônquicas. Durante as epidemias de gripe e os surtos sazonais da doença, que ocorriam em todos os outonos e invernos, os epidemiologistas já se tinham habituado a ver picos de mortes por afeções respiratórias, em especial entre os segmentos mais novos e mais velhos da população. Mas, para os jovens adultos e para os que estavam abaixo dos 70 anos, a gripe era considerada muito mais um incómodo do que uma ameaça mortal à vida, e os convalescentes eram frequentemente encara‑

dos com desconfiança.

* * *

Poderemos nunca vir a saber se os surtos de Étaples e de Aldershot foram manifestações de gripe, mas, em março de 1918, houve outro surto de problemas respiratórios invulgares num grande campo militar, neste caso em Camp Funston, no Kansas. A princípio, os médicos pensaram que estavam a assistir a uma nova onda de pneumonias adquiridas nos campos, mas não demoraram a ter de rever essa opinião.

A primeira vítima parece ter sido o cozinheiro do campo.

Em 4 de março acordou com uma dor de cabeça dilacerante e dores no pescoço e nas costas, e foi ao hospital da base. Logo a seguir juntaram ‑se ‑lhe cem outros elementos da 164.a Brigada de Aprovisionamento, havendo já mais 1200 homens na lista dos doentes na terceira semana de março, o que levou o médico ‑chefe de Fort Riley a requisitar um hangar adjacente ao hospital para

aí instalar os excedentes. A doença parecia uma gripe clássica:

arrepios de frio seguidos por febre elevada, dores de garganta, dores de cabeça e no abdómen. Havia, no entanto, muitos doentes que ficavam tão incapacitados que lhes era impossível ficarem de pé e, daí, a designação popular da doença, «febre ‑do ‑deita ‑abaixo».

Muitos dos homens recuperavam em cerca de três a cinco dias, mas, o que era perturbador, em alguns desenvolviam ‑se pneumo‑

nias graves. Ao contrário das pneumonias que apareciam depois do sarampo, e que tendiam a concentrar ‑se nos brônquios, estas pneumonias pós ‑gripais alastravam frequentemente a todo o lobo de um pulmão. No total, as pneumonias lobulares desenvolveram‑

‑se em 237 homens, cerca de um quinto dos hospitalizados, e em maio já se registavam 75 mortes. Como Opie e Rivers descobriram no mês de julho seguinte, quando a comissão da pneumonia apareceu finalmente para fazer a sua investigação, havia também outros aspetos perturbadores: depois de a epidemia inicial ter começado a atenuar ‑se em março, houve outros surtos em abril e em maio, correspondendo cada um à chegada de um novo grupo de recrutas9. Além disso, os homens transferidos para os campos no Leste pareciam levar a doença e, quando muitos deles se juntaram à Força Expedicionária Americana e começaram a dar ‑se livremente com soldados que embarcavam para a Europa, originaram novos surtos a bordo dos navios de transporte de tro‑

pas que atravessavam o Atlântico. O padrão manteve ‑se quando os navios chegavam a Brest, o principal ponto de desembarque dos soldados americanos, e largavam aí a sua carga. «Epidemia de febre infeciosa aguda, de natureza desconhecida» foi como um oficial médico de um hospital do Exército dos EUA, em Bordéus, descreveu a situação a 15 de abril. Em maio já a grippe se manifestava nas linhas francesas e dezenas de soldados bri‑

tânicos em Étaples adoeciam com FOI, ou «febre de origem indeterminada». Tal como em Funston, os casos iniciais eram ligeiros, embora em junho já houvesse milhares de soldados aliados hospitalizados, com o surto a alastrar em agosto. «Estes surtos sucessivos tendiam a ser progressivamente mais graves,

tanto nas suas particularidades como na sua extensão, o que

tanto nas suas particularidades como na sua extensão, o que

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